Há coisas muito simples que nos fazem sentir imediatamente que nunca seria possível entretecermo-nos com a pessoa sentada à nossa frente, do outro lado da mesa.
Ele interrompeu-a para lhe dizer que não gostava daquele bar onde ela uma vez o levara. “É demasiado sombrio” – explicou-se – “não deixa ver distintamente os rostos das pessoas”. “É exatamente por isso que tanto gosto de lá ir…” – disse ela baixinho, como se apenas o confessasse a si própria.
Ele continuou a falar com palavras feitas de Verão e do brilho da areia sob o sol do meio-dia. Ela sorria de quando em vez e meneava a cabeça, incitando-o a prosseguir. Ideias fáceis, solarengas, às quais ela pouco respondia, ensimesmada no seu gosto pelas coisas onde a sombra traça um segredo, um enigma. Preferia os reflexos suaves da luz filtrada pelas portas de papel ou pelas cortinas corridas, as formas desenhadas pelos raios estreitos que mal passam através das frinchas das janelas, a claridade incerta a projetar-se em paredes de cor crepuscular, a madeira escura, a intensidade do brilho dos olhos que se comovem na penumbra. Decididamente, a uma luz sombria os rostos tornam-se mais belos e os gestos mais enleantes…
Ainda assim, estava ali e deixava-se ficar, na inércia de saber que o tempo passa, envelhecemos e tornamo-nos solitários. Ele era alto, muito louro, olhos claros, bonitão, parecido com um ator de cinema (já lho dissera), mas, de algum modo, isso agredia-a de uma forma difusa, incompreensível. Talvez não gostasse mesmo de pessoas que têm medo das sombras e da tristeza das coisas, e se oferecem garridas, luminosas.
Ainda assim, sem gostar de toda aquela claridade, decidiu que uma tarde destas iria sentar-se na praia à espera que ele acabasse de cavalgar as ondas e regressasse com o sabor do sal.
("elogio da sombra" é o título de um livro de Junichiró Tanizaki)
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