domingo, 6 de junho de 2010

um palmo e meio de tempo


Logo à entrada, sente-se forte o cheiro do desânimo e da solidão. Aqui aguarda-se a morte com paciência e a morte parece-se já com isto. Entretém-se o dia a descontar no quadro negro as horas que faltam à vida, enquanto a morte deambula pelos corredores sem que ninguém a estranhe – senta-se com familiaridade nas cadeiras da sala de estar e estende-se confortável nos quartos a observar as fotografias daqueles que já lhe pertencem. Ouvem-se monólogos ininteligíveis e assiste-se a um jogo de gestos lentos, repetidos, sem qualquer objectivo aparente que não o de assegurar-se a si próprio: estás vivo, estás vivo, ainda não és conquista da morte. O olhar murcho e a memória vazia ressuscitam apenas com a promessa de um afago terno de mãos jovens de enfermeira. Ao Domingo (sobretudo ao Domingo) há visitantes apressados que apaziguam a consciência em conversas de surdos.
Quando chego, ele está voltado de costas a olhar o Outono, que amarelece as folhas do castanheiro enorme, do lado de fora da janela. Criança presa no seu pequeno «parque», à espera do fim. Chama-me quatro nomes diferentes, até finalmente acertar no meu. Estranha as perguntas que lhe faço, não reconhece o que lhe conto, mas parece feliz por apertar a minha mão entre as suas e deixo-a ficar. Pergunto-lhe pelo passado, mas o passado já não existe. Pudera, também eu apagaria tudo da memória se tivesse de viver assim parada a lembrar o que não será mais e, pior, o que nunca será pois não cabem mais oportunidades neste palmo e meio de tempo que falta até a vida acabar. A ciência inventou nomes, vários, e explicações para esta amnésia geral da última idade, mas o motivo é simples e claro: lembrar dói demais, seja pelo menos permitido esquecer e vegetar. Pergunto-lhe pelo presente e, afinal, um desejo forte: “se eu pudesse”, o azul dos olhos a acender-se, “se eu pudesse”, repete, “levantava-me e ia-me embora daqui”, um sorriso, quase uma gargalhada (talvez o pensamento do que faria se saísse daqui). “Mas não posso”, a sentença é firme e conformada, sem tristeza ou auto-piedade, “não posso ir-me embora para lugar nenhum”. Criança presa, à espera do fim. E o Outono lá fora, à espera que a Primavera faça tudo verde outra vez. E o cheiro a desânimo e a solidão a acompanhar-me até bem depois da saída.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Lê-se nos olhos de todos que a solidão dói e ocupa demasiado espaço. Sobra pouco para outras coisas cá dentro e têm um peso insuportável as coisas à volta.

E quem te disse que nos agradava deixarmo-nos levar pela corrente?

"I don't want to get over you"

(peça de Lourdes Castro em Serralves)
Quando se despediram pela última vez, apenas um pouco antes das lágrimas dele, do amuo dela e da teimosia de ambos, ele tinha ainda passeado cinco dedos tristes pelo cabelo dela.
Ela não era particularmente bonita, nem inteligente e nem dotada de qualquer graça especial que lhe abrilhantasse o carácter difícil, mas ele deixara-se prender pela força daquele cabelo negro que se estendia longo pelas costas dela, a dispensá-la de quaisquer outros adornos. Fascinava-o vê-lo espalhado pelos lençóis brancos, onde se deitavam, a clamar desafio e a sinalizar uma guerra que se insinuava constante nos interstícios de união. Encantava-o a harmonia improvável com que dançava ao vento. Muitas vezes, era ele quem lhe lavava o cabelo: afagava-o primeiro com o champô e ficava depois a ver a água do chuveiro torná-lo liso e prendê-lo às costas dela. Sobretudo quando ela não dava conta disso, deliciava-o observá-la pentear-se, com a escova ou só os dedos, e brincar com o cabelo em tranças e rabos de pónei.
Um dia – talvez porque se tivesse habituado a viver assim, em conflito contínuo com a felicidade – ela cortou-o curto, sem lhe dizer nada. “Não sejas pateta, volta a crescer tão rápido quem nem dás conta” explicava impaciente ao olhar de traição magoada que a partir de então ele passou a dirigir-lhe.
Depois da última vez, depois das lágrimas, dos amuos, das teimosias, depois das novas amizades e da invenção dos novos afectos, o cabelo dela tinha voltado a crescer. No entanto, sem que ela conseguisse perceber bem porquê, sempre que lavava ou penteava o cabelo ou até apenas quando dava por si a enrolar distraída as suas pontas, sentia-o presente de um modo surpreendentemente real e a tristeza pousava sobre ela como uma poeira teimosa. Muito tempo (e vários cortes de cabelo) depois, ela ainda não tinha sido capaz de sacudir a poeira que ele depositara nela com o seu último gesto de afago.