quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Szymborska


      

       Sei, precisamente, quanto tempo posso permitir aos meus olhos demorarem-se a observar-te, sem que te dês conta disso. Sobes a rua: o passo tranquilo, a pousar seguro nas pedras da calçada; o queixo adiantado, desafiante; a t-shirt negra, a fazer-te mais pálido; o olhar terno, inebriado de imaginação; o pescoço a alongar-se, desdenhoso. Conto os passos que faltam: um, dois, três… Até que atinges o sinal de trânsito (aquele que indica a presença de uma passadeira) e os meus olhos pousam rápida e obedientemente no livro aberto ao lado da chávena de café vazia. Uma brevíssima fração de tempo, uma frase desgarrada a dançar à minha frente («sou quem sou./ Um acaso inconcebível como todos os acasos») e invertemos a posição de sujeito e objeto. Sinto o teu olhar (que adivinho excessivamente confiante) cravar-se-me na pele. É automática esta resposta de retribuirmos a mirada a quem quer que nos observe fixamente, mas aborreço-me com os meus olhos, desobedientes, que se erguem para ti do lá de cá da janela e peço-lhes que, ao menos, se finjam desatentos. Os olhos respeitam o comando da razão, mas a mão, tola, sentindo-se livre, desenha um aceno despropositado.
      Desagrego-me entre uns dentes cerrados, um meio sorriso, uns olhos neutros, um pescoço tenso, uma mão alegre, e um sangue a correr mais rápido. Sou vários corpos diferentes, que não me pertencem... Só por isto, sinto-me derrotada e quero voltar para casa.
      Pelo menos, tenho o prazer de apertar na outra mão (a bem comportada, a que não se anima toda só por te ver), as palavras da Szymborska: «são nove e trinta, hora local./Tudo no seu lugar e em perfeita concórdia».    

segunda-feira, 16 de junho de 2014

terça-feira, 10 de junho de 2014

Recortes do Japão # 2

 
 vista de Tóquio a partir do "The gate hotel Asakusa Kaminarimon"
 
 
algures, atrás da névoa, esconde-se o Monte Fuji (lago Aki)

Recortes do Japão





«Elogio da sombra»





Há coisas muito simples que nos fazem sentir imediatamente que nunca seria possível entretecermo-nos com a pessoa sentada à nossa frente, do outro lado da mesa.
Ele interrompeu-a para lhe dizer que não gostava daquele bar onde ela uma vez o levara. “É demasiado sombrio” – explicou-se – “não deixa ver distintamente os rostos das pessoas”. “É exatamente por isso que tanto gosto de lá ir…” – disse ela baixinho, como se apenas o confessasse a si própria.
Ele continuou a falar com palavras feitas de Verão e do brilho da areia sob o sol do meio-dia. Ela sorria de quando em vez e meneava a cabeça, incitando-o a prosseguir. Ideias fáceis, solarengas, às quais ela pouco respondia, ensimesmada no seu gosto pelas coisas onde a sombra traça um segredo, um enigma. Preferia os reflexos suaves da luz filtrada pelas portas de papel ou pelas cortinas corridas, as formas desenhadas pelos raios estreitos que mal passam através das frinchas das janelas, a claridade incerta a projetar-se em paredes de cor crepuscular, a madeira escura, a intensidade do brilho dos olhos que se comovem na penumbra. Decididamente, a uma luz sombria os rostos tornam-se mais belos e os gestos mais enleantes…
Ainda assim, estava ali e deixava-se ficar, na inércia de saber que o tempo passa, envelhecemos e tornamo-nos solitários. Ele era alto, muito louro, olhos claros, bonitão, parecido com um ator de cinema (já lho dissera), mas, de algum modo, isso agredia-a de uma forma difusa, incompreensível. Talvez não gostasse mesmo de pessoas que têm medo das sombras e da tristeza das coisas, e se oferecem garridas, luminosas.
Ainda assim, sem gostar de toda aquela claridade, decidiu que uma tarde destas iria sentar-se na praia à espera que ele acabasse de cavalgar as ondas e regressasse com o sabor do sal.   


("elogio da sombra" é o título de um livro de Junichiró Tanizaki)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Sakura (ou a efemeridade da beleza)



...o tempo passa. as flores emurchecem...

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Viajar ainda é viajar...

 
 
  "As viagens agora são tão belas como eram dantes [...]
  Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve -
         Em parte nenhuma, graças a Deus!"

                                           (in Ode Marítima, Álvaro de Campos)