Tanto quanto me tinha sido dado a entender o correspondente ao «Lux» de Lisboa seria, aqui, um sítio chamado «Uebel & Gefährlich», isso mesmo «sinistro e perigoso». Uma vez que a discoteca está instalada num edifício construído durante a 2.ª guerra mundial, pelo terceiro Reich, com o objectivo de servir de abrigo e constituir um escudo protector de ataques aéreos - um portentoso bloco de cimento chamado Flakturm IV -, a respectiva visita ficava também justificada por um motivo de interesse turístico. Reunida a necessária motivação (sobretudo histórica e cultural, evidentemente), no Sábado à noite lá fui eu visitar este edifício assustador com um nome premonitório. À conta de dois DJs que tratariam de animar o sítio paguei logo 20 € de entrada, sem direito a bebida, e ainda recebi na pele um daqueles carimbos inestéticos que irritam muito até finalmente desaparecerem à 12ª lavagem. Para se chegar ao espaço da discoteca há que subir vários lanços de escadas cujo estilo «bunker» ninguém se preocupou em disfarçar. As escadas, em caracol, são altamente gefärlich para quem se aventurar além do respectivo limiar mínimo de embriaguez, ou para a donzela, não foi o meu caso, que quiser exibir o desequilíbrio de uns sapatos altos. A música escolhida pelos DJs - que mais pareciam dois excessivamente conscienciosos estudantes universitários (acho que o nome técnico é "nerd") de rosto muito pálido a combinar com as t-shirts igualmente pálidas - não era má, para quem aprecie o género. Vista de cima, a zona de pista era um pouco uebel (sinistra): não se percebia qualquer movimento ondulante da massa de gente, as pessoas estavam de pé, copo na mão, em modo parado. Claro que, em Portugal, nem sempre encontramos bailarinos por demais habilidosos: dançam, essencialmente, as mulheres e os elementos masculinos não vão, regra geral, muito além de exprimir tremedeira numa das pernas e, quando já um pouco embriagados, lá arriscam um passo binário sem sair do lugar. Mas aqui, salvo um pequeno espaço em frente ao palco dos DJs, não dançava ninguém e, pior, alguns aproveitavam mesmo uma espécie de degraus para se sentarem no meio do que seria uma pista de dança. Em resumo: «uebel und gefährlich». E nada como o rigor e a precisão germânica quando é preciso dar nomes às coisas.domingo, 26 de abril de 2009
Os nomes e as coisas: dar nomes às coisas ou "dar coisas aos nomes"
Tanto quanto me tinha sido dado a entender o correspondente ao «Lux» de Lisboa seria, aqui, um sítio chamado «Uebel & Gefährlich», isso mesmo «sinistro e perigoso». Uma vez que a discoteca está instalada num edifício construído durante a 2.ª guerra mundial, pelo terceiro Reich, com o objectivo de servir de abrigo e constituir um escudo protector de ataques aéreos - um portentoso bloco de cimento chamado Flakturm IV -, a respectiva visita ficava também justificada por um motivo de interesse turístico. Reunida a necessária motivação (sobretudo histórica e cultural, evidentemente), no Sábado à noite lá fui eu visitar este edifício assustador com um nome premonitório. À conta de dois DJs que tratariam de animar o sítio paguei logo 20 € de entrada, sem direito a bebida, e ainda recebi na pele um daqueles carimbos inestéticos que irritam muito até finalmente desaparecerem à 12ª lavagem. Para se chegar ao espaço da discoteca há que subir vários lanços de escadas cujo estilo «bunker» ninguém se preocupou em disfarçar. As escadas, em caracol, são altamente gefärlich para quem se aventurar além do respectivo limiar mínimo de embriaguez, ou para a donzela, não foi o meu caso, que quiser exibir o desequilíbrio de uns sapatos altos. A música escolhida pelos DJs - que mais pareciam dois excessivamente conscienciosos estudantes universitários (acho que o nome técnico é "nerd") de rosto muito pálido a combinar com as t-shirts igualmente pálidas - não era má, para quem aprecie o género. Vista de cima, a zona de pista era um pouco uebel (sinistra): não se percebia qualquer movimento ondulante da massa de gente, as pessoas estavam de pé, copo na mão, em modo parado. Claro que, em Portugal, nem sempre encontramos bailarinos por demais habilidosos: dançam, essencialmente, as mulheres e os elementos masculinos não vão, regra geral, muito além de exprimir tremedeira numa das pernas e, quando já um pouco embriagados, lá arriscam um passo binário sem sair do lugar. Mas aqui, salvo um pequeno espaço em frente ao palco dos DJs, não dançava ninguém e, pior, alguns aproveitavam mesmo uma espécie de degraus para se sentarem no meio do que seria uma pista de dança. Em resumo: «uebel und gefährlich». E nada como o rigor e a precisão germânica quando é preciso dar nomes às coisas.terça-feira, 21 de abril de 2009
A pergunta

Muitos de nós gostavam de estar a fazer outra coisa qualquer, mas abocanharam o emprego que a vida lhes concedeu e agarram-se, com os dentes todos, porque as contas por pagar, o empréstimo da casa, os pequenos luxos burgueses das horas vagas.
- Are you happy?
- Agora não, francamente, tenho um relatório para terminar e uma proposta nova para redigir.
Alguns de nós casaram-se, porque sim, porque se apaixonaram, porque ela queria, porque os pais e os convites do casamento já enviados, porque ele morria (e eu até gosto muito dele, sabes).
- Are you happy?
- Agora não, por favor, tenho de fazer o jantar e depois marcar as férias do próximo Verão. É que ele, sabe como são os homens, nunca trata de nada.
Alguns mais, ainda tiveram filhos, e choros, e orgulhos patetas (vês que inteligente, que linda, tão parecida comigo)
- Are you happy?
-Agora não, deixe-me dormir sossegada, tenho de aproveitar para fazer uma pequena sesta entre mamadas senão enlouqueço.
Alguns preocupam-se, de repente aborrecidos, com a falta de alegria de viver. Sabe doutor, eu não tenho problemas mal resolvidos com o meu pai, o mimo certo, os castigos necessários, mas falta-me a alegria de viver. O tédio está sempre lá sentado, à espera, no fim das coisas. E depois disso, mais nada.
- Are you happy?
- Claro, só preciso de tomar esta lista de coisas da receita médica.
Alguns acreditam serem criadores, adoram trabalhar, e claro, claro, gostam muito do que fazem, que honra, que privilégio pertencer a tal empresa, exercer tal profissão.
- Are you happpy?
- Agora não, estou a ter uma ideia, além do que não me sobra o tempo para essas futilidades de ociosos.
Tiro os sapatos e estendo-me no banco do jardim até os meus pés descalços tocarem o selim da bicicleta. Fecho os olhos e deixo-me mimar pelas carícias do sol. Penso em ti.
- Are you happy?
E à pergunta com a qual nos preocupamos sempre demais ou de menos, mas nunca na medida necessária e com a dose certa de coragem, eu respondo:
Até ver, sim, muito.
A prece de Édipo
(fotografia de uma obra de George Segal, "Girl putting on mascara")Lembro-me de acordar de manhã e saltar rápido da cama para ter ainda a oportunidade de assistir ao teu ritual de preparação para o mundo exterior. Sem ultrapassar a ombreira da porta assistia quieto, de olhos redondos, atentos, ao cuidado com que passavas os cremes e pós pelo rosto, ao desenho do baton vermelho nos lábios, à cor muito leve que distribuías pelos olhos de forma espantosamente simétrica. Ficava particularmente deslumbrado com a máscara de pestanas: como podias de um modo rápido e displicente trazer uma pequena escova até tão próximo dos olhos para depois acariciar com ela as pestanas. Quando finalmente te apercebias da minha presença dirigias-me um sorriso de incitamento, estendias-me a escova e era eu que ajudava a dar ainda mais brilho aos reflexos vermelhos do cabelo que se estendia até depois dos ombros.
À tarde, depois das rasteiras e das maldades dos meninos da escola (que eu não percebia, talvez porque as botas ortopédicas e os óculos demasiado fundos, mas eu não percebia, porque nos teus olhos encontrava-me sempre perfeito, descobria-me um príncipe) eu corria para casa sem lágrimas. Pulava feliz pelo caminho fora porque sabia que o meu lanche pronto e o teu sorriso de lábios vermelhos me esperavam. Às vezes, deixavas-me sentar ao teu colo a ensinar-me as coisas que ainda estudavas em casa, até muito depois de aconchegares o meu sono, e eu recebia muitos beijos, sempre que dizia alguma coisa capaz de desenhar um sorriso feliz no teu rosto. Com empenho e muita atenção, coleccionava na escola e na rua histórias novas para te contar, só para te ver rir, só para as tuas mãos nos meus caracóis em constante desalinho e os teus beijos no meu rosto de criança. Eu era o teu menino e tu eras o meu mundo. Mais tarde, era eu quem beijava as lágrimas no teu rosto de mulher triste e desgastada pela vida, quando te mudaste para aquele lugar que eu não conhecia e onde nunca me deixavas entrar a não ser para escovar os reflexos vermelhos do cabelo que ainda se estendia até depois dos ombros (então mais frágil, a obrigar-me a ser ainda mais cuidadoso). Queria ser como tu, queria viver a tua vida, queria ser tu. Hoje sei que estás em mim pelos buracos que me deixaste quando te foste embora. Na verdade, o luto não é habituarmo-nos à perda da pessoa que partiu; é habituarmo-nos à falta dos bocados de nós que essa pessoa levou com ela. Como posso eu existir senão coxo e em desequilíbrio? Faltam-me partes, muitas, do corpo e da alma, e sei lá mais do quê que me faz eu. Como vou amar outra mulher, mãe? (E há tantas que insistem em ocupar o teu lugar… E não percebem que para tapar buracos assim é preciso usar a mesma matéria, que elas não têm, nem conhecem, como podiam).
Se eu fechar os olhos estás aí a passar a máscara pelas pestanas. Se eu os abrir, já não estás. Se eu os fechar de novo, mando-te embora e peço-te que me largues de uma vez. Imploro-te que me deixes existir sem ti, que me deixes ser sem a tua presença, que me livres desta fragilidade de ter de continuar a viver com a tua ausência. Se ainda os abrir mais uma vez, peço-te que voltes para mim, que me deixes escovar os reflexos vermelhos do cabelo até depois dos ombros. Porque te foste embora, mãe? Como pudeste deixar-me sozinho? E agora que já sou grande, que me tornei em muito mais do que alguma vez ambicionaste para mim, que sou mais temido do que receio, quem me defende das rasteiras dos meninos? Para onde corro, se os teus beijos de lábios vermelhos já não estão à minha espera?
À tarde, depois das rasteiras e das maldades dos meninos da escola (que eu não percebia, talvez porque as botas ortopédicas e os óculos demasiado fundos, mas eu não percebia, porque nos teus olhos encontrava-me sempre perfeito, descobria-me um príncipe) eu corria para casa sem lágrimas. Pulava feliz pelo caminho fora porque sabia que o meu lanche pronto e o teu sorriso de lábios vermelhos me esperavam. Às vezes, deixavas-me sentar ao teu colo a ensinar-me as coisas que ainda estudavas em casa, até muito depois de aconchegares o meu sono, e eu recebia muitos beijos, sempre que dizia alguma coisa capaz de desenhar um sorriso feliz no teu rosto. Com empenho e muita atenção, coleccionava na escola e na rua histórias novas para te contar, só para te ver rir, só para as tuas mãos nos meus caracóis em constante desalinho e os teus beijos no meu rosto de criança. Eu era o teu menino e tu eras o meu mundo. Mais tarde, era eu quem beijava as lágrimas no teu rosto de mulher triste e desgastada pela vida, quando te mudaste para aquele lugar que eu não conhecia e onde nunca me deixavas entrar a não ser para escovar os reflexos vermelhos do cabelo que ainda se estendia até depois dos ombros (então mais frágil, a obrigar-me a ser ainda mais cuidadoso). Queria ser como tu, queria viver a tua vida, queria ser tu. Hoje sei que estás em mim pelos buracos que me deixaste quando te foste embora. Na verdade, o luto não é habituarmo-nos à perda da pessoa que partiu; é habituarmo-nos à falta dos bocados de nós que essa pessoa levou com ela. Como posso eu existir senão coxo e em desequilíbrio? Faltam-me partes, muitas, do corpo e da alma, e sei lá mais do quê que me faz eu. Como vou amar outra mulher, mãe? (E há tantas que insistem em ocupar o teu lugar… E não percebem que para tapar buracos assim é preciso usar a mesma matéria, que elas não têm, nem conhecem, como podiam).
Se eu fechar os olhos estás aí a passar a máscara pelas pestanas. Se eu os abrir, já não estás. Se eu os fechar de novo, mando-te embora e peço-te que me largues de uma vez. Imploro-te que me deixes existir sem ti, que me deixes ser sem a tua presença, que me livres desta fragilidade de ter de continuar a viver com a tua ausência. Se ainda os abrir mais uma vez, peço-te que voltes para mim, que me deixes escovar os reflexos vermelhos do cabelo até depois dos ombros. Porque te foste embora, mãe? Como pudeste deixar-me sozinho? E agora que já sou grande, que me tornei em muito mais do que alguma vez ambicionaste para mim, que sou mais temido do que receio, quem me defende das rasteiras dos meninos? Para onde corro, se os teus beijos de lábios vermelhos já não estão à minha espera?
domingo, 19 de abril de 2009
"Freedom is not for free"
"... please don't let me be misunderstood"

Muitas vezes dou comigo em desgastantes exercícios mentais de arrependimento sobre as coisas que fiz ou que disse, as opções que tomei, os erros que cometi, as pequenas falhas que podia perfeitamente ter evitado. De uma forma exaustiva (quase maníaca) analiso todos os possíveis caminhos alternativos começados por um “se”. Agrada-me o conforto de perceber que todas as intersecções virtuais teriam conduzido ao ponto A (aqui), aquele em que me encontro. Um dia destes, acabei a lembrar-me de ti. Da palavra "desculpa" que não cheguei a dizer embora ela me ocupasse toda durante os 4, 5 minutos que demora o caminho que percorremos juntos até à estação. É que eu não me sentia culpada e, por isso, a palavra morria afogada na minha garganta. Mas concentrava-me tanto na vontade de desfazer um mal-entendido que (pareceu-me na altura) se tinha criado entre nós que não atinava em fazer afirmações coerentes na conversa de circunstância que escolhemos para encher o tempo daquele percurso, demasiado breve para desfazer mal-entendidos. À despedida, um beijo apressado, daqueles demasiado empenhados em assegurar a indiferença (não fosse eu pensar, não fosses tu pensar). E demasiado apressado para ajudar a desfazer mal-entendidos. Atravessei a minha rua, sem olhar para trás. Tu seguiste o teu caminho, noutra direcção. Entretanto, como nos filmes - a conferir cinzento e fragilidade à personagem -, começou a chover. Apressei-me a entrar na estação e, ao cruzar as portas de vidro (aquelas automáticas que nos dão sempre uma pequena sensação idiota de controlo), a Nina Simone começou a cantar: "I'm just a soul whose intentions are good...". Como nos filmes, exactamente como.
Sabes uma coisa, ainda bem que quatro minutos e meio não chegam para dar explicações ou desfazer mal-entendidos. É que eu não teria sido capaz de explicar. E mesmo que tivesse, tu nunca terias sido capaz de entender.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
she's dancing...
(fotografia de uma escultura de Degas) ...he's dreaming
A certa altura da sua vida de artista, Degas começou a perder a visão. Deixou por isso de preocupar-se com a precisão dos detalhes e colocou o foco de interesse na postura e no movimento. Da restrição de um sentido essencial resultaram alguns dos mais belos trabalhos do pintor e escultor. A sua preocupação não era exprimir a beleza da mulher (predominantemente a bailarina ou a prostituta) que se expõe a uma audiência, mas a intimidade de quem não se adivinha observada pelo buraco da fechadura.
um poema da destruição
(a fotografia é de uma obra de Günther Uecker, intitulada «Poesie der Destruktion». o texto é meu)O ser humano é um poema da destruição. Precisa de maldade, de violência e de catástrofe. Precisa de espetar pregos na felicidade e fazê-la sangrar. Por algum motivo insondável, o ser humano não consegue suportar a tensão de uma felicidade tranquila, tem uma necessidade maldita de destruição. Ou destrói à sua volta, ou destrói-se a si próprio.
Frequentemente, ele expunha-me esta teoria, de maneiras diversas em variações diferentes sobre um mesmo tema. Eu, às vezes, fazia um esforço tímido para rebater os seus argumentos, mas na verdade, gostava de ouvi-lo falar. Mesmo que não percebesse o que ele tentava explicar-me, mesmo que nem me interessasse ou sequer prestasse atenção ao que ele dizia, adorava escutar o som daquela voz gasta pela vida e pelos cigarros. Seduzia-me o seu modo de arrastar as palavras como se estas o cansassem por serem incapazes de formular tudo o que ele pretendia transmitir. Fascinava-me o sotaque muito ligeiro, subtil, mas que ainda descobria a sua condição de estrangeiro, traído por uma ideologia que se esqueceu dele e o deixou ficar à porta, à espera.
Aproximei-me dele pela sua loucura e deixei-me ficar por comodidade. Eu era muito nova e ele fazia-me sentir importante. Tomava conta de mim e salvava-me da minha futilidade. Foi só muito tempo depois que percebi o que ele tentava explicar-me. Uma tarde em que, de um modo indesculpável, por tédio ou pura maldade, deixei que ele me encontrasse nua, com um outro dentro de mim, a quem eu murmurava as palavras que o "estrangeiro louco" me pedia sempre para lhe repetir.
"Café Paris" ou os lugares e as possibilidades

Quando chego a uma cidade nova (nem que seja para aí passar apenas um dia), há sempre um momento em que sinto uma necessidade imperiosa de parar num lugar, tomar um café, ler um livro sossegado e escrevinhar umas notas inquietas. Muitas são as vezes em que não consigo encontrar o sítio perfeito capaz de corresponder a esta necessidade (e lá tenho de me ajustar ao desconsolo do lugar). Na verdade, não foi fácil encontrar o Café Paris: não é um sítio evidente e de modo nenhum um «spot» para turistas. Depois de espreitar os «must see» do centro e de girar entre as marcas franchisadas que sempre nos fazem duvidar do lugar do mundo em que nos encontramos, quase sucumbi à facilidade monótona de entrar num Starbucks ou num Balzac (ou quem sabe um Cup & Cino) para tomar uma coisa, petiscar outra e aceitar a globalização pouco criativa das cadeias que, pelo facto de aparecerem em vários pontos de todas as cidades assumidamente cosmopolitas, se converteram em lugares sem identidade, quase não-lugares. Ora, o Café Paris é um lugar. E é um lugar perfeito. É certo que ele transporta um cheiro forte de Paris (uma Paris que já talvez nem exista e apenas corresponda ao meu imaginário preconceituoso) para o Norte da Alemanha. Além dos ícones evidentes – e até escusados, diga-se – (como o boneco torre Eiffel, as garrafas de champagne ou de água Perrier a decorar as estantes), há o cabedal verde do sofá que ocupa toda uma parede, há as pequenas mesas e cadeiras de madeira (que me permitem ressuscitar um Sartre e uma Simone, cada um ao lado do respectivo amante do momento), há a grade decorativa e o candeeiro Art Nouveau e há os garçons e as garçonnettes a desfilar impecáveis de laço preto e avental branco. Mas há também um balcão longo a lembrar o famoso quadro de Hopper (sem a figura solitária é certo), e há todo um cortejo de ocupantes a devolver-me a certeza de que o mundo ocidental mantém a sua diversidade e identidade. Enquanto saboreio o meu “plat du jour”, lembro-me de personagens que conheci no papel e penso em outras que gostaria de inventar. Agrada-me o erotismo de um lugar com história (fundado em 1882, inscrito na parede) e estórias. Agrada-me a sensação de acreditar que eu podia ser uma outra coisa qualquer e viver uma história diferente da que traço dia a dia. De repente, invade-me aquela saudade estranha do futuro e uma nostalgia imensa de épocas que nunca vivi e por isso nunca foram minhas.
O Café Paris é um lugar. E é um lugar que me consola. Tem o cheiro de outra nação, é certo, a invadir a cidade de Hamburgo. Mas esta não se deixa conquistar. Mantém-se firme na identidade dos seus habitantes que enchem o espaço de possibilidades. E às vezes é só disso, e apenas disso, que precisamos para podermos voltar tranquilos a nós próprios – do esboço de uma possibilidade.
sábado, 11 de abril de 2009
... e pelos meus também não
quarta-feira, 8 de abril de 2009
sol, preconceitos e diferenças culturais

À conta do sol, da simpatia e solicitude daqueles com quem me vou cruzando (a pôr em causa preconceitos antigos sobre o carácter frio e rude deste povo), das arcadas de estilo italiano e do vendedor de tapetes turco à janela quase esquecia que me encontro muitos quilómetros a Norte de casa. Quase. Não fossem alguns pequenos detalhes a evidenciar as diferenças culturais e a trazer de volta a lembrança do ponto geográfico que ocupo agora.
Quando cheguei ao instituto, depois de uma pequena espera, fui introduzida num gabinete onde uma funcionária simpática preencheu cuidadosamente a minha ficha. Depois voltei à recepção onde uma outra funcionária, menos simpática, procedeu a um registo e entregou-me um crachá de cor amarela com algumas advertências: deve usar sempre esta identificação dentro do instituto para que todos saibam qual é o seu estatuto, se perder o crachá paga 25 €, não pode em caso algum ceder esse crachá a alguém ou permitir que alguém entre consigo na biblioteca (como se algum dos meus amigos ou quem sabe algum louco que conhecesse pelas ruas se matasse por ir sentar o rabo numa cadeira a ler livros de Direito, bolas, eu chamo-lhe «profissão» e uso outros adjectivos para qualificar o trabalho diferentes de devoção). Dito isto, acrescentou: está aqui uma folha com as instruções sobre o que não lhe é permitido fazer na biblioteca, leia com atenção para evitar problemas. Entre outras coisas, proibe-se que seja levada comida ou bebida para dentro da biblioteca, com excepção de uma garrafa de água, que deve ser colocada no lixo, assim que a água tenha sido bebida (regra muito sensata para evitar pequenos cemitérios de garrafas de água em cima de cada mesa).
À hora em que o meu estomâgo avisou que não aguentava mais sem almoço tentei perceber qual seria o local para o efeito, mas não vi ninguém a dirigir-se para outro sítio que não fosse a respectiva secretária ou os corredores que conduzem à sabedoria empilhada em estantes. Só me tinha dado conta da existência de uma pequena cafeteria com duas máquinas automáticas uma de cafés, chás e afins e a segunda com chocolates e outras coisas igualmente incapazes de satisfazer a minha fome. Decidi, pois, dirigir-me a um funcionário, o diligente Mr. David. ""Há mais algum sítio para comer além da cafeteria, uma cantina ou algo assim?" perguntei delicada e ingenuamente. Ele olhou-me não sem algum espanto: "há a cafeteria que está lá para isso mesmo, para que os estudantes possam comer", respondeu. "Mas na cafeteria só há uma máquina com chocolates e outra com bebidas", insisti eu, já com receio de o ofender e de passar por uma louca portuguesa preguiçosa que quer fazer uma pausa para almoçar. "Ahh!", fez-se luz no cérebro germânico, "quer dizer um sítio onde possa comprar comida". Pois claro, como me expliquei tão mal, há que ser rigoroso: um sítio para comer e um sítio onde se compra comida são duas coisas distintas e eu demorei dois minutos e meio a perceber uma classificação tão básica.

segunda-feira, 6 de abril de 2009
you' d better treat me like a
Doll boy, you’d better treat me like a queenI am sorry, doll boy,
But you are only my favourite toy.
I may share my bed with you
But never ever in my closet will there be a room for two.
You’d better do your best to please me
(do all you can to turn me on)
If you want to keep my company
’Cause you see, my doll boy,
I don’t need your love, your flowers or your tears
I was me before you came,
And after you’ve gone I’ll still be the same
I had my boredom, my interests, my friends, my needs
And I doubt there’s something new that you can teach me.
Poor doll boy,
You should have realized that you are a puppet in my hands,
And your strings are pulled at my command.
So, my doll, my boy,
Unless you treat me like a queen
There’ll come a day when you will wake up to find me sitting inside your brain, retailing it just as I please.
(as fotografias são de dois aspectos de um quadro de David Hockney chamado "Doll boy"; a conjugação e o texto são ideia minha)
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Rothenbaumchaussee, 34
Esta é a vista da minha janela pelos próximos 120 dias. Em vez do mar, prédios, em vez da luz do sol a insinuar-se segura de si desde as primeiras horas da manhã, árvores despidas. Mas, não sei bem porquê, desde que os meus pés cumprimentaram o chão de um espaço que só com muito boa vontade pode ser qualificado como confortável e o meu nariz sentiu um cheiro longe de fresco ou agradável, eu percebi que me ia sentir bem aqui.No segundo dia, dois pássaros felizes vieram cumprimentar-me e no quarto um esquilo muito ruivo veio dar-me os bons dias.
E a Primavera concedeu-me o privilégio de chegar à cidade antes de mim e de já cá estar para me receber.
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