terça-feira, 31 de março de 2009

teorias sobre as cores #3



Amarelo é um sorriso falso;
Amarelo é uma casa de malucos;
Amarelo é o sol;
Amarelo é um cartão reprovador;
Amarelo é um smile-button;
Amarelo é atrevimento;
Amarelo é o interior do ovo;
Amarelo é presunção;
Amarelo é um cabelo de loura;
Amarelo é o açafrão;
Amarelo é optimismo;
Amarelo é diversão;
Amarelo é espontaneidade;
Amarelo é o ciúme;
Amarelo é luz, iluminação;
Amarelo é a amabilidade (mas também a traição).

por causa dos tambores

“As forças eram poucas. A meta estava muito longe claramente visível, mas nem por isso ao meu alcance. E assim passou o tempo que na terra me foi dado”.
(Bertolt Brecht, Aos que virão a nascer)

"Um homem que tem uma teoria está perdido. Ele deve ter várias, quatro, muitas! Deve enfiá-las nos bolsos como jornais, sempre as mais recentes, é aprazível viver no meio delas, habita-se agradavelmente no meio das teorias. Devemos saber que há muitas teorias para nos elevarem, até a árvore tem várias, mas ela domina apenas uma delas, durante um certo tempo.”

(Bertolt Brecht, Diário, 9 de Setembro de 1920)

(textos extraídos de «manual de leitura sobre "os tambores na noite"» editado pelo tnsj;
fotografias da exposição de Juan Muñoz em Serralves)

domingo, 29 de março de 2009

"Esta cidade não é uma cidade. Esta cidade é um vício."



"Para a minha alma eu queria uma torre como esta, assim alta, assim de névoa acompanhando o rio.[...] uma luz desce o rio gente passa e não sabe que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem as nuvens não passem tão alta tão alta que a solidão possa tornar-se humana.


(Jorge de Sena, Metamorfose)


Será que as "minhas coisas" desta cidade cabem em 20 kg de bagagem?


Se couberem, quero levar: as escadas traiçoeiras da casa da música (e aqueles bancos que teimam em fugir-nos do rabo); os Domingos de manhã em Serralves; os jornais nas esplanadas; a cortina vermelha do TNSJ; os rissóis do Capa Negra; as “lambretas” e as pataniscas do Godinho; a luz da minha casa; os jantares no Foz Velha com os amantes caros; a Rua das «Galdérias»; as tardes de inaugurações em Bombarda com lanches tardios no Pimenta Rosa; os jantares no Artemísia com os amantes novos; a névoa do rio (eu sei, esta é de todos); os fins de tarde de patins e as manhãs de Sábado de bicicleta; o sushi do Gosho; a boa frequência daquela esplanada no Edifício Transparente; os croissants da Doce Mar; o riso dos meus amigos; os ciclos de cinema do TCA; as conversas sem fim das minhas amigas…

Se ainda puder ser, a mim, deixo-me ficar para trás… Isto é, deixo os remendos que as más memórias me obrigaram a fazer, varro os ressentimentos e parto livre com uma alma novinha em folha …


sábado, 28 de março de 2009

"portier de nuit"

(fotografia de uma pintura de Jorge Guinle, intitulada "portier de nuit")
- Pedi-lhe que fosse o guardião das minhas noites. Que me protegesse dos delírios negros da insónia. Que, por favor, não me deixasse sozinha a escavacar a alma à procura do que falta. Roguei-lhe que pintasse de azul a noite e lhe pendurasse estrelas douradas e uma lua vermelha. Expliquei-lhe que talvez assim eu pudesse suportar melhor caminhar trôpega pelos dias feitos de um equilíbrio difícil, instável, no arame da normalidade.

- E ele? O que te respondeu ele?

- ... Que não tinha tempo a perder com doenças da alma. Que já estava incumbido de vigiar as estrelas, para garantir que piscavam a intensidade certa de luz.

teorias sobre as cores #2


Recentemente, tive o prazer de me cruzar com a genialidade de Josef Albers nas paredes paulistas da Pinacoteca do Estado e do Instituto Tomie Ohtake. À primeira vista distraída do turista de museu trata-se apenas de pinturas com três ou quatro quadrados de cores, inscritos uns dentro dos outros. À segunda vista, ainda distraída, percebe-se uma ligeira assimetria dos quadrados a tornar mais estreito o limite inferior do quadro. A terceira vista, já menos distraída, desvenda a intencionalidade subjacente às estruturas quadrangulares. Entre 1950 e 1976, Albers dedicou-se obsessivamente a pintar quadrados com o objectivo de evidenciar as diferentes emoções que as cores provocam e o modo como interagem entre si. Porquê a escolha de quadrados? Porque são estruturas estáveis, simples e criação humana, que permitem excluir outras associações visuais diferentes da cor. Porquê a ligeira assimetria? Porque esta produz uma compressão para baixo (o comum e ordinário, a base), e uma expansão para cima (vastidão, pensamento). A “homenagem ao quadrado” constitui uma arte reduzida ao mínimo essencial, mas que contém enorme complexidade, a sugerir várias possibilidades e a revelar a reflexão prévia de um génio rigoroso e preciso na utilização da cor e da luz, que optou por um perfeccionismo laborioso de variações sobre um mesmo tema.

sexta-feira, 27 de março de 2009

sinais verdes

Há dias assim raros em que tudo parece correr de feição. As horas empurram-nos para as coisas certas com a leveza de uma brisa de fim de tarde e, embora o walkman não ande ligado às orelhas, ouve-se distintamente uma banda sonora bem-disposta. Há dias assim raros em que o sinal muda para verde mal o primeiro pé cauteloso pisa a zebra branca. Há dias assim. Raros.

sinais vermelhos

- É proibido continuar a partir daqui. Para a frente, só vão os loucos.
Eu, que criei raízes nas mãos, mas colei asas nos pés, não sei parar. Por isso, pedi insistente:
- Deixem-me passar, por favor, quero ir à procura do meu abismo pessoal.

visita ao museu


Estávamos atrasados e, por isso, comecei a andar mais depressa. Ele aborreceu-se: "calminha aí com o ritmo, quero ver estes quadros com atenção". Abrandei. Assim como assim, já não íamos chegar na hora marcada, mais valia aproveitar.
...
- Sabes o que é isto, tia?
Não fazia a menor ideia.
- Não, o que é?
- É um lobo a arrotar uma nuvem cor-de-rosa.
Evidentemente, como não tinha percebido logo. O que diria sobre isto o Raoul de Keyser?
...
- O que está aqui a fazer uma caixa de pasta dos dentes? Esqueceram-se disto aqui?
Falei-lhe de modernidade, dos "ready-made", de arte conceptual e até em Duchamp. Acho que não ficou convencido.

Se quisermos ver o mundo de uma perspectiva diferente, nada como andar com os olhos de uma criança ao lado.

terça-feira, 24 de março de 2009

teorias sobre as cores #1

sangue vida fogo amor sexo imoral alegria perigo luxo baton guerra agressividade Marte ira prestígio prostituta inferno ruivo raposa capuchinho
adultério paixão felicidade
dinamismo liberdade socialismo ketchup coca-cola
justiça correcção magenta Ferrari
seda bandeira desejo sacrifício calor força erotismo rubi
proibido joaninha


segunda-feira, 23 de março de 2009

"Deus nos livre...


...dos desejos de uma mulher."


“Eu não dou sossego a quem me ouve, não deixo que parem no dia santo, porque ponho pedra firme até na água e projecto na criança de mama, e pingo azeite na porta perra e juízo no louco que se faz desentendido e diz: Isto não é comigo.”


(a propósito de "A Corte do Norte": um livro de Agustina Bessa-Luís, um filme de João Botelho)

«suspension of disbelief»

A voz «off» avisa-me: "atenção, isto é falso!"; "cuidado, isto é ilusão". Eu sacudo a voz, porque escusada, tenho fortemente inscrito na memória o legado do que deixei para trás. Apesar de tudo, a cada novo "encontro", a cada nova história, há sempre um instante distraído em que o vento abre uma porta qualquer que afinal deixei mal fechada. Há sempre um instante em que, por força da ternura de um gesto ou da intimidade de uma declaração, dou por mim a suspender a incredulidade, a confiar na ficção e a largar o controlo das emoções. Choro e rio sem sentido, e predisponho-me a confiar na fita que se desenrola perante os meus olhos e dentro de mim, crente na ilusão. No cinema ninguém morre. Quando a ficção termina todos se levantam e voltam para casa. Desfeita a ilusão, eu faço mesmo, agarro outra vez na minha incredulidade e volto para casa.


domingo, 22 de março de 2009

«Loop»

Há um momento, breve e anacrónico, em que o futuro encontra o passado; é essencial a coerência deste momento para que o novo ciclo tenha início sem hiatos ou fissuras.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Belo Caos

(a fotografia é minha. o quadro é de Jorge Guinle)

É fácil identificar os sinais: as mensagens na caixa de correio, logo ao despertar; os telefonemas só para saber como estou e os mails enviados a propósito de uma coisa qualquer que eu disse ou que captou a minha atenção e da qual já nem sequer me lembro. As iniciativas nunca são minhas, cabem-lhe sempre a ele. Os projectos para dois são muitos e, sem querer, eu estou incluída. Se de repente amuado (ou momentaneamente consciente) me transfere o ónus do próximo encontro ou de combinar o programa seguinte, eu não o faço, ele arranja uma desculpa qualquer para voltar a dar notícias. Sempre que isto acontece eu penso: ainda bem que desta vez não sou eu…
Em certa ocasião, um desses amantes incautos (ou apaixonados, o que dá quase no mesmo) disse-me, chegado o fim dos telefonemas e das iniciativas sem reciprocidade bastante:" pelo menos senti-me vivo, vi o mundo a cores fortes". Eu, que das coisas da vida considero a paixão uma das mais inúteis e desprovidas de senso, sorri apenas. Depois, ainda a sorrir, encarei o dia de olhos semicerrados. Para que estes bebessem o amarelo intenso do sol, o azul inspirador do mar, o verde fresco da relva e o vermelho alegre das barracas de gelados, numa mistura caótica de imensa beleza.

sexta-feira, 13 de março de 2009

o homem que despia a alma


Ele não se importava que os outros aproveitassem aquilo que ele tinha deixado para trás. Depois de ter criado alguma coisa, desprendia-se dela como se nunca lhe tivesse pertencido. Assim que julgava ter aprendido a executar uma tarefa devidamente, começava logo um outro processo de aprendizagem novo sem querer, de nenhum modo, lucrar com o anterior. Os empregos sucediam-se breves uns atrás dos outros. Quanto às mulheres, mal as percebesse submetidas aos seus encantos e moldadas ao seu modo de ser e de estar nas coisas e no mundo, abandonava-as, devagarinho para que não sofressem, mas sem se despedir com gestos inúteis de desculpas medíocres. Há muito tempo atrás tinha decidido para si próprio que a vida não tinha qualquer sentido (considerava, aliás, espantoso que alguém se afadigasse em torno deste). Vivia, por isso, à procura. E era feliz, porque não ambicionava encontrar nada.

a mulher do rosário de pau-preto


Depois de ter ouvido o estalido seco da porta a fechar-se atrás de si, passaram vários segundos demorados até que os olhos dela se habituassem à falta de luz daquele espaço estranho. Primeiro, o medo a comer-lhe o estômago e a bloquear-lhe os gestos. Depois, a força que julgamos não ter e se esconde não sabemos onde, a deixá-la ver duas camas estreitas encostadas a cada um dos lados da parede, uma com um vulto mal distinto, dois olhos abertos a fitarem o tecto (e o que lhe pareceu um terço, nas mãos) e a outra vazia. Acomodou-se deste lado. Pousou as coisas, arrumou os sapatos aos pés da cama, e pensou em morrer ali mesmo, naquele momento. A falta de energia que esse gesto definitivo requer levou-a a estender-se na cama e ficar aí toda a noite, também de olhos abertos, fixos no tecto. A noite inteira, a ladainha (“Salvé Rainha…, Avé Maria…) vinda de um murmúrio do lado de lá não a perturbou. Falar, ouvir, agir ou até sentir eram funções bloqueadas. Os dias passaram naquele lugar. Acordava quando era necessário, fazia o que lhe ordenavam e à noite deitava-se, olhos postos no tecto. Se alguém a abordasse, não dizia mais do que duas ou três palavras: sim, não, talvez, não sei ou, de preferência, respondia com um gesto evasivo que se perdia no ar. Como pensavam que era louca, rapidamente se desinteressaram dela. Numa noite demasiado quente, em que a roupa se cola à pele e o calor, que tudo amolece, faz abrandar a raiva e a mágoa, ela contou a sua história à outra mulher, a do terço. Contou-lhe que estava ali porque tinha matado o seu marido à paulada. Não encontrou nenhum gesto de espanto ou surpresa nos olhos distraídos no rosário de pau-preto. Por isso, ela continuou a explicar os seus motivos. Anos e anos de maus-tratos, de cigarros apagados nas suas costas (nunca nos braços, para que não se visse, e sempre nos dias mais frios para depois dever andar tapada), de comida estragada no chão, por gestos de violência inútil; dias seguidos de um silêncio gelado; pequenos actos de enorme crueldade, como cortar-lhe a camisa preferida ou despejar o perfume novo (presente da sobrinha emigrada) pia abaixo; e, naqueles dias em que alguma coisa não era do seu agrado, o cinto dele cuidadosamente alinhado aos pés da cama, a preparar o medo que permitia a submissão aos golpes que lhe rasgavam a pele. Um dia, foi um pequeno detalhe, uma pequena coisa insignificante a despoletar o gesto de vingança. “Esta sopa está uma porcaria, nunca devia ter-te tirado de casa dos teus pais” e a mágoa toda reunida num braço de repente forte, de repente extremo. Morreu à terceira paulada. Foram certeiras, como se nunca tivesse feito mais nada na vida senão treinar aquele gesto preciso. Uma pausa longa, um sorriso estranho de quase loucura. Pela primeira vez, terminou ela, desde há mais tempo do que aquele que consigo recordar, é aqui, atrás das grades deste lugar estranho que começo devagarinho a perceber o que sente quem fala em liberdade.

black bird


Como estava ferido, deixou-se ficar aninhado sob o conforto das suas próprias penas, semi-escondido pela paisagem, a alma atenta, à espera da tonalidade certa de azul do céu, para abrir as asas e voar...

aqui

sábado, 7 de março de 2009

remake

A impressão que eu tinha era a de que ainda existiam os artistas, mas já não existia a obra de arte, a criação. Tudo era remake, retake, adaptação de outra coisa qualquer; tudo era "feito com base em" ou "a partir de" ou homenagem a alguém que gostava de se ter sido, mas não, por isso só restava falar sobre ou imitar. Tinha ainda a impressão de que não era por falta de vontade que tal acontecia, mas antes por impossibilidade: tudo havia sido já dito, tudo havia sido já feito. O pior, é que este estado de coisas também caracterizava a vida real, que era feita de ciclos repetidos de dias iguais e de sentimentos alternados. Tudo era lembrança de outra coisa qualquer (e a memória, que é um lugar tão estranho).
Além disto, havia também a sensação permanente de incompletude, de que tudo estava ainda por dizer. E por fazer.

dance with me #1


"...e pensa que, para dançar bem, um homem tem de fazer a si mesmo a pergunta: e se eu fosse uma mulher?"

(JLP, "Algo de algodão")

Dance with me #2 (estória de um flirt via sms)


Ela começou a contar-lhe uma estória, cujos fragmentos enviava por sms. Uma estória banal sobre um homem e uma mulher que desejavam dançar juntos e, por isso, combinaram encontrar-se num café, numa tarde de Inverno.
«…ela aproxima-se sem que ele perceba e, num sorriso de lábios vermelhos, segreda-lhe: “let’s dance little stranger / show me secret sins […] won’t you dance with me, in my world of phantasy"
Vem, quero mostrar-te o reflexo prateado que a lua deixa no mar.
Cá fora, a pressa e o silêncio. Ele abraça-a por causa do frio. [...]
Os gestos iniciais são tímidos e desajeitados: um par que dança junto pela primeira vez… Cada um sente o voltear do outro, o menear das ancas, a posição da cabeça, o lugar dos pés. E é quase terna, a curiosidade delicada com que se descobrem. Depois, a dança torna-se fácil e vibrante (o ritmo que os corpos sentem é o do desejo), e dançam juntos até despertar uma manhã feliz...
»
Quando ela acabou de contar a estória, ele disse-lhe:
«I want to make last night come true».
Então, ela alertou-o:
«a ficção tem um risco só, o de tornar-se mais sedutora do que a realidade».
(esta não foi a última mensagem que ela lhe enviou e também não foi aqui que a estória dela terminou)

em jeito de banda sonora (clique aqui)

sexta-feira, 6 de março de 2009

o peixe vermelho


Frequentemente, ela experimentava a sensação desconcertante de estar a viver uma vida que não era a sua, que não lhe fora destinada. Era suposto que ela tivesse naufragado no meio da viagem e que, indo parar ao fundo de um oceano de peixes verdes e azuis, se tivesse convertido num peixe vermelho. Inadvertidamente, porém, uma onda distraída tinha-a depositado numa ilha despida de gente e coberta de um labirinto denso de vegetação. E ela vivia agora entre o conforto da areia quente da praia e as tentativas desorientadas de vencer um labirinto de palavras e ideias selvagens, com receio de ser devorada por canibais.

quarta-feira, 4 de março de 2009

o homem sem desejo


Ele era um homem sem desejo e um homem sem desejo é um cadáver vivo. Por isso, mesmo que todas as manhãs despertasse célere ao primeiro toque do despertador, fizesse cuidadosamente a barba, abotoasse nos punhos peças de elegância e pendurasse no fato escuro de bom corte uma colorida gravata da moda; mesmo que conduzisse um modelo desportivo de luxo a caminho do sucesso profissional; mesmo que bebesse o requinte à hora do jantar com amigos e amigas (e até amantes) – ele estava morto. Isto não se percebia imediatamente. Na verdade, ele sorria, gargalhava até, com muita frequência, a atrair-nos para o buraco negro que trazia guardado dentro de si. Mas não podíamos ficar perto dele por muito tempo. Havia o risco de o buraco negro se instalar também dentro de nós: pequenino, primeiro, num sítio escondido, ao fundo do estômago, mas implacável, depois, a espalhar metástases pelo corpo todo.

terça-feira, 3 de março de 2009

uma partida de futebol



Desde o desaire de um Portugal – Grécia de má memória, em 2004, que eu não tinha voltado a pôr os pés no estádio do Dragão, mas no Sábado à noite não resisti ao convite paterno para assistir a um Porto – Sporting. Fui para o evento desportivo com a curiosidade do fotógrafo e a neutralidade da Suíça. Comecei por me deixar prender pela beleza de um estádio de futebol antes de se dar início a um jogo: o verde da relva brilha em contraste com o traço branco dos limites das áreas; os holofotes, já acesos, gritam contra o preto da noite e anunciam no campo um palco de estrelas; a publicidade alegre dá a nota de cor final. Depois, surpreendi-me com o escrupuloso respeito das horas, num país consabidamente pouco dado à pontualidade: uma hora antes do jogo começar e o estádio já está bastante povoado; dez minutos antes do início da partida, está repleto de braços que seguram ou fazem ondular plásticos e cartões brancos, azuis e também verdes, e de vozes que ensaiam hinos de incitamento. A surpresa seguinte foi a rapidez com que abandonei a prometida posição de observadora imparcial: tinham passado apenas alguns minutos do apito para o pontapé de saída e já eu dava por mim empolgada na torcida. Que me perdoem os adeptos do FCP, mas nessa noite o meu coração esteve ao lado dos leões. Porquê, sendo eu de origem nortenha? Porque estavam em posição de desfavor, a jogar fora de casa, contra o líder da tabela, depois de uma cansativa quarta-feira e o meu coração tende sempre a apoiar os mais fracos. Não tive a sorte da festa dos golos e a partida terminou sem euforia, mas a habilidade e a farsa dos jogadores em campo, o desespero dos treinadores no banco e os comentários apaixonados e comicamente tendenciosos dos outros treinadores, os da bancada, deixaram-me perceber, e até aderir, à surpreendente paixão que o espectáculo do futebol desencadeia. No Domingo à noite, e esta foi a última surpresa, dei por mim a contra-argumentar os comentários do Rui Santos. Dizia ele que o Sporting não deixou o Porto fazer a sua exibição, que apresentou uma estratégia fechada, cautelosa, de mau futebol. Ele é que é o especialista, mas, da minha sala, lembrei-lhe os gregos, esses sim cautelosos, todos colocados à defesa, já o Sporting, prossegui, exibiu força e habilidade no meio-campo e fez várias investidas, algumas perigosas, na baliza adversária. Na Segunda à noite, detive-me em “o dia seguinte”, na análise da queda do jogador do Porto na grande área do Sporting e de um eventual penalti não assinalado. Aí decidi que já estava a passar da conta: era só o que me faltava, além dos 1001 interesses e factores de distracção que já tenho, apaixonar-me também pelo futebol. Desliguei a televisão e voltei ao meu trabalho, à espera, na secretária.

segunda-feira, 2 de março de 2009

mas estes tipos não se enxergam?





Sexta-feira à noite, em São Paulo, até para os menos folgazões, é obrigatória a “happy hour” num boteco. Como não custa nada respeitar obrigações deste género, rumámos, as duas amigas portuguesas mais as duas amigas brasileiras, até Vila Mariana para uma visita ao “Assembleia” (agora sem acento, por virtude de um acordo ortográfico, que, diga-se, tem tido bem maior impacto em terras brasileiras do que em terras lusas). O calor delicioso pedia pouca roupa, ar livre, muitas bebidas frescas, e acentuava a promessa de uma noite bem passada. Simpatizei imediatamente com o Assembleia, um típico boteco brasileiro de esquina, aberto para a rua, cheio de choppes e de boa disposição, com um comprido balcão de madeira a proteger a montra enorme de bedidas. O espaço estava tão cheio que foi preciso acomodarem-nos numa mesa improvisada na parte interior. À volta de temas tão essenciais como cortes de cabelo, roupas novas e, claro, a escassez de interessantes espécimes do género masculino, foram chegando os apetitosos (e altamente gordurosos) pastelinhos e bolinhos, e foram desfilando as cervejas e as caipirinhas de fruta (“maracujá”, “como?”, “márácujá”, “ah porque não falou logo moça?, agora eu entendi” – e falamos a mesma língua). Como sempre faço num sítio novo, passeei os olhos curiosos pelo boteco e acabei por me aperceber de que um homem, de cabelo curto branco-cinza e pêra da mesma cor, encostado ao balcão, dirigia à nossa mesa insistentes olhares libidinosos. Quem adopta este tipo de atitude não precisa de qualquer incentivo, por isso evitei que o meu olhar se detivesse nele o que não era assim tão fácil visto que ele estava mesmo especado à minha frente. A certa altura senti uma mão estranha no meu ombro despido e ouvi a voz masculina demasiado perto: “já percebi que você é tímida, mas vamos combinar um negócio: você vai no banheiro e aí eu saio junto”. Respondi-lhe com um gesto de negação incomodado. Mas, talvez porque sentisse necessidade de se justificar, o homem de cabelo branco-cinza não desistiu, voltou a abeirar-se da nossa mesa, desta feita guardando uma distância mais respeitável. E começou a dizer que estava a beber um copo ao balcão quando se apercebeu que, de uma mesa de quatro raparigas, duas estavam a olhar para ele (eu e a outra portuguesa). Aí fui eu que senti uma necessidade explosiva (aquecida pela noite e pelas caipirinhas de frutas) de explicar: “se está mesmo em frente a nós sempre especado a olhar é natural que a certa altura os nossos olhos passem nos seus”. “Moça, mas você olhou para mim mais de trinta vezes!” Era o que me faltava, agora era eu a provocadora. “Meu senhor” (uma pausa para dar gravidade e acentuar a distância), “com essa idade já devia ser capaz de identificar os sinais de interesse por parte de uma mulher. Por acaso eu pousei os meus olhos nos seus à procura de encontrar o seu olhar; por acaso esbocei algum sorriso; e por acaso brinquei com o meu cabelo nesse processo? Não, pois não? Olhei tanto para o senhor como para aquela mulher aí em frente: isso significa que também estou interessada nela?” O remate foi cruel, mas ele mereceu: “interesso-me mesmo é por homens jovens e bonitos, homens mais velhos só se forem muuuiiiito inteligentes e muuuiiito interessantes, e eu nem sei se é o seu caso”. Finalmente, ele desistiu e debandou.


Mas estes tipos não se enxergam? E não há diferença cultural que lhes valha.