domingo, 31 de janeiro de 2010

dis(a)tracção


Como é teu hábito, percorrias, distraído, os caminhos desta cidade, que é a nossa, quando tropeçaste e vieste cair dentro de mim. Não estou bem certa de que fosse apenas porque levavas a cabeça separada do corpo, a flutuar um pouco acima deste; duvidei logo quando percebi os teus olhos arredondarem-se atrás dos meus e adivinhei uma leve intenção maliciosa. O problema é que agora não sei o que fazer contigo. Sentas-te no meu estômago e torná-lo tão pequeno que se me vai o apetite. À noite entreténs-te a beliscar-me as pálpebras e ainda gostava de saber para onde foge o meu sono… Com frequência, sinto a pele estremecer, desorientada entre o frio e o calor; seguramente, és tu quem se colou debaixo dela e não se deixa ficar quieto. Como se isto não bastasse, tenho a certeza de que me andaste a brincar com a memória e a desarrumaste toda: esqueço-me de tudo e não me lembro senão de ti.

Um dia destes, volto àquele mesmo sítio onde a tua distracção se cruzou com a minha fraqueza. Na mesma fracção exacta de tempo… a ver se desfaço o enguiço…

domingo, 17 de janeiro de 2010

complexo de culpa

"A Febre" sai do palco e vem cair-nos ao colo. Dá-nos, primeiro, uma cotovelada, para garantir que estamos despertos e atentos. Depois, fica ali, a mexer-se de um lado para o outro e a incomodar-nos. A arranhar-nos. A tirar-nos a paz de quem se julga do lado dos bons, ou do lado de fora, do lado de quem pensa que pode dormir de consciência sossegada porque não tem nada a ver com aquilo. Lamentamos o destino dos pobres, dos miseravelmente pobres, mas não há nada que possamos fazer, aquilo não tem nada a ver connosco. Engano nosso. O texto afaga-nos um pouco a cabeça apenas para nos apanhar com mais força com um murro fechado no meio do estomâgo. Aquilo tem a ver connosco, aquilo somos nós. Lamentar não muda nada, palavrear não muda nada,e sempre soubemos disso, mas, na verdade, não nos importamos muito, nunca nos importamos muito. Queremos é que aquilo fique longe de nós. Enquanto "sentimos muito", sossegados, do lado de cá.
"A Febre" incomoda porque nos faz sentir que os "maus" somos, afinal, todos nós.

"A Febre" é um texto do escritor e actor norte-americano, Wallace Shawn. Soberanamente interpretada por João Reis, esteve em cena, no teca, este fim-de-semana.




Esta fotografia foi tirada nas ruas de São Paulo. Eu estou sentada dentro de um jeep confortável, com ar condicionado e vidros semi-fumados. Ele está deitado na rua, exposto à indiscrição de todos os olhares. Lembro-me de ter hesitado em captar a imagem e de sentir pudor em invadir o repouso dele com a minha câmara. Acabo por escolher fotografá-lo: ele faz parte da cidade e eu quero uma reportagem completa. Ou ele garante à minha consciência que não me preocupo apenas em fotografar belezas e luxos, mas antes estou também atenta aos dramas e à miséria. Enquanto nós, dentro do carro, seguimos viagem e decidimos o restaurante onde vamos jantar nessa noite, ele fica guardado na memória digital...

brincar com as palavras


- Sabes a mar...
- Sabes amar?!!
(e os teus olhos eram dois peixes verdes, que usavam palavras novas e me contavam sobre uma linguagem, até então, completamente desconhecida para mim)

Lição n.º 6: há coisas que não se dizem

(escultura de Juan Muñoz, Serralves, Dezembro de 2008)

Há coisas que não se dizem. Há coisas que não se dizem nunca. Há coisas que não se dizem, nunca, nem a brincar. Muito menos a sério. Há coisas que não se dizem. Há coisas que não se dizem, nunca. Nem que pulem, inquietas, na ponta da língua. Nem que estrangulem a garganta, deixando que passe apenas um quarto do ar necessário para respirar. Há coisas que não se dizem nunca. Nem que queimem as pontas dos dedos. Nem que se sentem em cima do estomâgo a roubar o sabor da comida. Nem que irritem a pele e nos obriguem a coçar, desesperadamente, a nuca. Há coisas que não se dizem. Há coisas que não se dizem. Há coisas que devemos varrer para debaixo de uma ponta da alma e deixá-las lá ficar, em silêncio. Há coisas que não se dizem, nunca, nem a brincar. Há coisas que não se dizem.

Esta era a única lição que ela se considerava incapaz de aprender

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fotografar-te


Imagino que te encontro numa dessas ruas estreitas de Lisboa que roubam o fôlego na subida. Imagino que levo a minha máquina fotográfica e que, relutante, acedo em mostrar-te as fotografias que tirei durante a tarde: antecipo a alegria infantil pelas que te agradam e o desdém pelas que precisam de ser esclarecidas (uma fotografia não se explica, se tiver de ser justificada é porque não vale nada). Aguardo que me contes, de novo, onde se esconde a razão deste vício de descobrir um objecto de interesse, fixar nele o olho da lente e disparar um clique ligeiro, quase inaudível. Fotografar é ideal para quem tem fome de vida e uma necessidade essencial de solidão. Imagino depois que fugimos do frio – eu sou uma miúda dos trópicos, trago na pele o calor do sol, vim parar a este Inverno por engano – para um café pouco povoado, mas demasiado barulhento, à conta dos bêbedos que discutem, numa lenga-lenga ininteligível, com a garrafa vazia. Imagino ainda o desejo que guardamos, sossegado, dentro do corpo – tu do teu e eu do meu. Porque é proibido. E porque sabemos que não é isso que importa. O que importa é olharmo-nos demoradamente dentro dos olhos e reconhecermo-nos. Eu, o som mágico da chuva tropical a cair forte no chão da floresta, que trazes guardado em ti. E tu, a ânsia e a inquietude de turbilhão, que trago guardada em mim.

pensamentos mágicos


Se eu ficar aqui, deitada, de olhos fechados, sem me mexer, ele vai voltar. Se sacrificarem a virgem, cairá uma chuva abundante. Se eu cumprir, repetidamente, alguns gestos simples, ele vai voltar
Depois da morte do seu marido, a dor da perda é tão insuportavelmente forte que, na loucura da solidão, e mantendo embora uma sobriedade consciente e conformada perante familiares e amigos, ela confessa ter-se convencido de ser capaz de criar e cumprir rituais mágicos que trouxessem de volta o seu amor. Ela é Joan Didion, escritora norte-americana, que se nos dirige na primeira pessoa para confessar, num relato íntimo e despido de subterfúgios, a incapacidade, durante o ano posterior à morte do seu marido, para perceber e aceitar completamente a perda definitiva. Por isso escolheu chamar «o ano do pensamento mágico» ao texto que, entre muitos outros, escreveu com o objectivo de exorcizar a tristeza e a mágoa provocada pela morte do seu marido, John Dunne, primeiro, e da filha Quintana, pouco tempo depois.
Cabe a Eunice Muñoz encarnar em palco português a voz amargurada de Joan Didion. Infelizmente, é uma voz gasta e sem poder para, além da força mitológica que o seu nome adquiriu na cena teatral, cativar e prender a atenção do público, a que Eunice nos traz. Acresce que o palco do teatro São João é pouco adequado à intimidade do texto. Ainda assim, julgo que vale muito a pena assistir a este solo, «o ano do pensamento mágico», e deixarmo-nos comover pela descrição íntima e honesta da dor forte derivada da perda de um ente querido.