
Como é teu hábito, percorrias, distraído, os caminhos desta cidade, que é a nossa, quando tropeçaste e vieste cair dentro de mim. Não estou bem certa de que fosse apenas porque levavas a cabeça separada do corpo, a flutuar um pouco acima deste; duvidei logo quando percebi os teus olhos arredondarem-se atrás dos meus e adivinhei uma leve intenção maliciosa. O problema é que agora não sei o que fazer contigo. Sentas-te no meu estômago e torná-lo tão pequeno que se me vai o apetite. À noite entreténs-te a beliscar-me as pálpebras e ainda gostava de saber para onde foge o meu sono… Com frequência, sinto a pele estremecer, desorientada entre o frio e o calor; seguramente, és tu quem se colou debaixo dela e não se deixa ficar quieto. Como se isto não bastasse, tenho a certeza de que me andaste a brincar com a memória e a desarrumaste toda: esqueço-me de tudo e não me lembro senão de ti.
Um dia destes, volto àquele mesmo sítio onde a tua distracção se cruzou com a minha fraqueza. Na mesma fracção exacta de tempo… a ver se desfaço o enguiço…




