segunda-feira, 30 de novembro de 2009

matar o urso


Comecei por contar-lhe o pesadelo que assombrara o meu sono da noite anterior, que também a envolvia. Alguém pretendia matar-nos e nós reuníamos esforços para impedir esse alguém de entrar no espaço onde estávamos. Sem sucesso: "alguém" acabava por conseguir forçar a entrada. Precipitava-se para ela primeiro, enquanto eu me desesperava perante a necessidade urgente de intervir e a incapacidade de mover-me, paralisada. Depois chegava a minha vez; fechava os olhos com força a antecipar a dor da última expiração... e acordava. (Incrível como nunca morremos durante um pesadelo, acordamos sempre no último momento, mesmo antes de a tragédia se consumar - com o coração aos pulos, mas vivos).
Foi então a vez de ela me contar que, em criança, tinha muitos pesadelos e um mais recorrente do que os outros em que se via perseguida por um urso. Quando acordava no meio de um desses, concentrava-se muito, determinada em inverter os papéis e matar ela mesma o urso durante o sonho seguinte. Ela assegura-me de que foi capaz de o fazer...

a importância de se ser ingénuo...


(Sobre o que ele disse, já eu tinha reflectido muitas vezes, mas agradou-me o modo despretensioso com que lançou mão de uma ideia que, por ser lugar-comum, não se tornava menos digna de ser referida). Disse que ao criador aproveita a ignorância e a ingenuidade; o excesso de informação tolhe-o pelo medo de fazer apenas aquilo que já foi feito antes. O carimbo da falta de originalidade impede-o de criar.

"Eu gostava de te oferecer cem mil cigarros"

Os cigarros, fuma-os quase ininterruptos, um atrás do outro (antes de acender o terceiro, ocorre-lhe confirmar se é permitido). As mãos, sempre ansiosas, servem-lhe para esfregar o rosto, como se fosse esse o gesto certo para avivar a memória. A voz é surpreendentemente forte e bonita, a exprimir com clareza e lucidez despretensiosa as suas ideias sobre cinema. Fala-nos dos filmes que fez e vai contando as histórias que se desenrolam por trás da tela, fora do alcance do espectador. Obcecado pela realidade – filma sem guião e sem actores experientes para recortar personagens reais a viverem as vidas que lhes coube em sorte viver – confessa-se afinal um surrealista. Agrada-lhe o cinema como uma experiência. Diz que está sempre à procura de qualquer coisa do lado de cá da câmara e sente-se feliz quando percebe que ao mesmo tempo os seus actores procuram qualquer coisa também, do lado de lá (um sentimento, uma explicação, um encontro). Revela que, por vezes, são mesmo os actores que encontram aquilo de que ele andava à procura e como que foi “Lento”, o companheiro de Ventura, quem lhe sugeriu o final de “Juventude em marcha”. Joga apenas com o espaço, o tempo e a luz. O resultado é um belíssimo conjunto de filmes aclamado pela crítica, nacional e estrangeira.
Não era fã de Pedro Costa e devo confessar que foi apenas a comunicação social a despertar a minha atenção para este realizador. Fui ver, curiosa, o “Ne change rien”, também por causa da actriz filmada - Jeanne Balibar, que me tinha agradado ver, recentemente, em “Le plaisir de chanter”. Assisti a um poema visual lindíssimo, mas a certa altura perdi-me do filme e dei por mim a pensar que faltava alguma coisa, e que as imagens seriam perfeitas, isso sim, em exposição, para serem contempladas ao ritmo do interesse e sensibilidade do visitante e não no tempo demorado, escolhido pelo realizador. Concluo que não tenho a suficiente sensibilidade contemplativa que os filmes de Pedro Costa exigem, mas sinto que têm muito para oferecer e o seu autor mais ainda. Sem dúvida nenhuma, valeu a pena sair de casa ontem ao fim da tarde para ouvir falar o criador e assistir à sessão de lançamento do livro “Cem mil cigarros”, em Serralves. “Cem mil cigarros” reúne um conjunto de textos escritos por críticos, ensaístas e outros realizadores sobre os filmes de Pedro Costa e sobre arte cinematográfica em geral.
O título deste livro sobre o cinema de Pedro Costa surgiu da carta de amor que Ventura vai repetindo, sucessivamente, no “Juventude em marcha”:

Nha cretcheu, meu amor
O nosso encontro torna a nossa vida mais bonita, pelo menos há mais de trinta anos.
Pela minha parte, torno-me mais novo e volto cheio de força.
Eu gostava de te oferecer cem mil cigarros,
uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos,
um automóvel,
uma casinha de lava que tu tanto querias,
um ramalhete de flores de quatro tostões.
Mas antes de todas as coisas
Bebe uma garrafa de vinho do bom,
Pensa em mim.
Aqui o trabalho nunca pára.
Agora somos mais de cem.
No outro ontem, no meu aniversário
Foi altura de um longo pensamento para ti.
A carta que te levaram chegou bem.
Não tive resposta tua.
Fico à espera.
Todos os dias, todos os minutos,
Todos os dias aprendo umas palavras novas e bonitas, só para nós dois.
Mesmo assim à nossa medida, como um pijama de seda fina que tu não queres.
Só posso te fazer chegar uma carta por mês.
Ainda sempre nada da tua mão.
Fica para a próxima.
Às vezes tenho medo de construir esta parede
Eu, com picareta e cimento
E tu, com o teu silêncio
Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento.
Até dói cá dentro ver estas coisas más que não queria ver
O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como as ervas secas.
Às vezes perco a força e juro que me vou esquecer de mim
.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

o desencanto cinzento dos dias sempre iguais


O tédio acaba sempre, de uma forma ou de outra, por estender à nossa volta uns dedos finos, quase transparentes, mas longos, de cor cinzenta, que se estreitam persistentes a tornar a alma mais pequenina e apertada.

Comecei este blogue confiante que teria, senão todos, pelo menos vários dias na semana, uma história qualquer para contar, ou uma ideia qualquer para assinalar, que me permitisse iludir o tédio. Sempre me disseram que eu conseguia fazer de qualquer banalidade um acontecimento digno de ser relatado. As histórias e as palavras quase sempre me sobraram e chegava mesmo a duvidar sobre o que fazer com elas (às vezes arrumadas nas gavetas, outras penduradas no armário e outras ainda empurradas para o ar frio da noite para que arrefecessem e me deixassem descansar). Desde há já algum tempo, porém, apercebo-me de que as histórias morrem antes de nascerem - ou por falta da vontade, ou por falta do interesse em contá-las. Fechei-me no equilíbrio monótono dos dias sempre iguais. Quando todos se queixam da cor cinzenta que ultimamente pinta os dias na janela, eu nem me importo, porque combina com o que se instalou do lado de cá. Na verdade, os dias cheios de cor desafiam o tédio que eu vejo definir-se para mim deste lado da janela e tornam o meu dia mais insuportável.

Hoje, ao entrar no carro, liguei o rádio a desejar que pelo menos uma música pudesse encantar-me e insuflar cor em mais um dia todo ele feito das coisas que "devem" ser feitas. Podia ser uma música nova, que nunca tivesse ouvido antes, ou uma daquelas muito antigas, a trazer a felicidade da memória de um momento qualquer, talvez então infeliz, mas agora, à distância, a ser capaz de causar a ilusão de uma felicidade. Nem isso, até que o meu dedo acabou por seleccionar a TSF atrás da possibilidade de um "pessoal e transmissível". A sorte do meu lado com o Carlos Vaz Marques a entrevistar a Marília Gabriela que contava uma história desmiolada qualquer e falava do valor que as coisas podem ter não pelo que são, mas pelo encantamento que causam em nós. Dizia ela também que, para não sucumbir ao tédio, precisava de ter, a cada dia, pelo menos uma boa história para contar.

Certamente que isto não contém nada de extraordinário ou sequer de especial, mas a afinidade descoberta com aquela voz da rádio bastou para me animar e colorir com uma minúscula pincelada rosa mais um dos meus dias cinzentos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Berlin, ich liebe dich





Depois de um "Paris, je t'aime" e de um "New York, I love you", gostava muito de assistir a um "Berlin, ich liebe dich". A cidade merece (pelo que foi e pelo modo como se recriou nos últimos vinte anos) e nós, espectadores, também.

I am a bird...


... and have been searching for my wings sometime...

Quando anoitece, ajoelho-me reverente sob a lua, junto as mãos e peço em silêncio:
"Nossa Senhora das Coisas Impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas,
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem, e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós"

(a música é de Antony & the Johnsons; o excerto de Álvaro de Campos)

domingo, 8 de novembro de 2009

e, afinal, para que serve essa coisa que chamam amor?




"A chaque fois j'y crois
Et j'y croirai toujours...
Ça sert à ça, l'amour !"


(um dueto com Edith Piaf e o seu jovem amante Théo Sarapo)