quarta-feira, 24 de março de 2010

(onde está a minha resposta?)


Havia uma cidade (não muito distante em tempo e espaço da nossa) cujos habitantes eram pontos de interrogação. Cada um oferecia-se ou confrontava, em desespero, aqueles com quem se ia cruzando atrás de uma resposta. Inexplicavelmente, nenhum daqueles habitantes parecia entender que os outros eram apenas e tão só, também eles, perguntas para as quais, na cidade, não se achavam respostas.

Se um dos habitantes interpelava outro - "o que torna o ar mais pesado: as palavras que se disseram ou aquelas que se calaram?" - este piscava os olhos de incompreensão e retorquia, por sua vez: "qual o lugar das coisas que imaginámos ou idealizámos, mas que nunca chegaram a realizar-se?". "Porque é que a vontade é tão débil e o desejo é tão forte?" perguntava ainda outro, a quem o quisesse escutar.

Ilhas Ciès - o paraíso mora aqui ao lado





A maioria daqueles com quem falei antes de partir ignorava a existência das Ilhas Ciès. Eu própria não imaginava encontrar semelhante beleza selvagem aqui tão perto, na vizinha Galiza. Afinal, não é necessário atravessar metade do globo ou partir para outro planeta atrás dele: o paraíso está mesmo aqui ao lado, a uma curta distância de um porto da Galiza.
E haverá algo mais útil do que passear o ócio numa praia deserta...


domingo, 14 de março de 2010

o fascínio da sombra

(detalhe de obra que integra a exposição antológica de Lourdes de Castro e Manuel Zimbro: «à luz da sombra», Serralves 06Março-13 de Junho, 2010)

A obra de arte constrói sempre uma relação entre o seu espectador e aquele que a criou. De um modo mais ou menos consciente, o espectador vem a respeitar, admirar, desprezar, ou incompreender o autor do livro que lê, do filme a que assiste ou do quadro que admira. Menos frequentemente, experimenta também uma vontade irresistível de o convidar para um chá. Para mim, Lourdes de Castro cabe aqui, dentro do grupo de criadores com quem gostaria de sentar-me a uma mesma mesa e passar horas a ouvi-lo falar. Gostaria que a artista viesse revelar-me pessoalmente aquela mesma alegria das coisas simples que demonstra nos documentários que acompanham a exposição. Que exibisse o surpreendente brilho juvenil do seu rosto de octogenária, ao contar-me como sabe bem pentear o cabelo ao ar livre para que receba a energia do ar e do sol e ao falar-me da sua "família" de objectos e textos relacionados com o seu tema de eleição: a sombra. Que me explicasse, enquanto eu servisse o chá (naquelas chávenas mais bonitas que vieram do Oriente) a razão da escolha do elemento central do seu trabalho.

"O que me atrai: a sombra não ocupar espaço e guardar a sua presença mesmo desligada do corpo que a projectou". (Lourdes Castro)

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brincar com as palavras #2


Secretamente,

a secreta mente
mente, secreta.

terça-feira, 9 de março de 2010

estado líquido


Um dia, aprendeu a lidar com elas. Sabia como atá-las, com firmeza e um laço bonito, e mantê-las presas, dentro da garganta. Podia deixar que se espalhassem por todo o corpo e até que lhe enchessem o peito de gotas pequenas, mas nunca, em caso algum, permitia que forçassem o dique e subissem até aos olhos. Um dia, aprendeu a desdobrar-se em dois: o que se sentava no canto, de joelhos apertados contra o peito, e o que se mantinha imperturbável, como se tudo lhe corresse de feição. À noite, quando já não sabia mais o que fazer com elas, guardava-as dentro da mesinha-de-cabeceira e fechava-as à chave, para que não viessem molhar-lhe o sono. A certa altura, sem que ninguém o tivesse percebido, à conta da imensidão de gotas pequenas que se encerravam dentro dele, tornara-se líquido. Por isso, ao passar junto de um rio, sentiu que era ali que pertencia. Uma tarde, mergulhou e deixou-se levar pela corrente.

segunda-feira, 8 de março de 2010