domingo, 31 de maio de 2009

sobre os sonhos


Por alguma razão desconhecida, os sonhos são matéria fugidia, evanescente. Basta um barulho da rua; um raio de luz indiscreta e abusiva da manhã; uma volta do corpo em desconforto na cama - e já se esfumou o sonho, insistente em demonstrar que não nos pertence. Por muito que se tente conciliar o sono e prosseguir o sonho a partir do momento em que foi interrompido é, quase sempre, escusado - aquele desfez-se em nada.
A "consistência dos sonhos" é uma exposição montada para retratar a vida e obra de José Saramago. Aí conta-se que o escritor marcou todos os relógios da sua casa em Lanzarote numa hora exacta: aquela em que conheceu Pilar. Contrariamente aos vatícinios então formulados pelos mais próximos, o sonho cumpriu-se e ganhou consistência, e a jornalista permanece até hoje a companheira fiel de um envelhecer feliz e extraordinariamente produtivo (lembro "a viagem do elefante", de uma rara ironia, divertida e inteligente).

terça-feira, 12 de maio de 2009

"Eu bebo para ser capaz de chorar"


No sábado à noite, enquanto esperava o S-bahn de regresso a casa, por entre a confusão de uma massa de jovens e de não tão jovens, invariavelmente de garrafa de cerveja na mão, deparei-me com esta confissão: "eu bebo para ser capaz de chorar". Parangona de primeira página do jornal daquele que (para todos os que enchíamos a estação) seria o dia seguinte, tal declaração era atribuída a uma alcoólica de 13 anos. Desde então estas palavras martelam-me a cabeça. Que escritores (e outros artistas) gabem as virtualidades do álocool para exaltar o sofrimento e a este recorram como fonte de criação artística, até se pode muito bem compreender e aceitar; que se beba para festejar ou para esquecer as amarguras, também passa, mas que aos 13 anos alguém sinta necessidade de se alcoolizar para sentir alguma espécie de emoção é, para mim, perturbador. Aos 13 anos, se a memória não me engana, eu nunca tinha sequer bebido álcool. Chorava muito e ria-me muito, numa transição indecifrável entre um e outro estado, sem motivo, como qualquer adolescente, mas não precisava de muleta.
O alcoolismo na infância e adolescência não é recente. Quem ensinou em escolas de meios socialmente menos favorecidos conhece-o de certeza, mas o objectivo era então o de esquecer o frio, o cansaço e as violentas surras dos progenitores. Não para ser capaz de sentir. Ou de chorar.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Os homens preferem (mesmo) as louras?


Para grande desânimo dos meus cabelos e olhos escuros, todos afirmaram sem hesitar: “sim, definitivamente, os homens preferem as louras”. A conversa surgiu por acidente, num dos já habituais jantares de sexta à noite. Surpreendeu-me sobretudo que os oriundos de países habituados ao cabelo e olhos claros reiterassem sem qualquer dúvida a opinião. Sabendo, à partida, que os motivos para tal preferência seriam os mesmos de sempre (tantas vezes relatados em artigos de revistas de fim-de-semana) e que, de qualquer modo, as estatísticas aí estão a apoiá-la, não resisti a indagar sobre a base desta ideia tão disseminada. A resposta não despontou qualquer espanto: aparentam mais feminilidade, são mais frágeis, têm um ar angelical. E então, provoquei, coloquem a minha estrutura baixa e estreita ao lado de uma destas alemãs enormes. Onde vemos a fragilidade? Bem, não sei, hesitaram, mas tu, acrescentou o menos polido, tu, com esses olhos escuros, pareces um pequeno diabo, nunca um anjo. Não era a primeira vez que ouvia esta associação e, mais divertida do que arreliada, suspendi a quezília. Não consegui, porém, dar-me por vencida e, na semana seguinte, exibi as fotografias da bailarina brasileira. Ah, bom e tal, pois, se calhar, ouvi-os hesitar. Pois, é este o problema das generalidades: caem por terra quando se lhes contrapõe um bom exemplo. Ou, como alguém tantas vezes citado, referia: “há os números, há as mentiras, há as mentiras descaradas, e depois… depois há as estatísticas”.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

St. Georg

St. Georg é um entre os vários bairros interessantes e famosos de Hamburgo. Desde logo, por ser o bairro assumidamente gay: vêem-se várias pequenas bandeiras arco-íris, lojas especialmente dedicadas à pornografia homossexual e desenham-se com todo o à-vontade murais como o da fotografia (a indicar, na mesma linha de "Brockeback Mountain", que não há actividades de coutada homossexual e outras, como os desportos mais violentos, reservadas para machos viris, heterossexuais). Agrada-me a naturalidade e abertura com que aqui (pelo menos aparentemente) se lida com a orientação sexual: sem falsos pudores e hipocrisias, mas igualmente sem um carnaval de excentricidade que hoje, julgo, já não se justifica. Os excessos e o alarido fazem sentido (são até indispensáveis) em épocas em que é forçoso mudar mentalidades e despertar consciências (lembro-me de "Milk"). Aqui percebe-se que isso está feito e, assim, basta gozar tranquilamente a liberdade assegurada. Por outro lado - e continua a ser uma perspectiva superficial de turista curiosa - não se nota a pressão de forçar quem quer que seja a "assumir" seja o que for. Aborrecem-me sobremaneira os ditos jocosos em torno de alguém que "devia assumir-se" e "nunca mais sai do armário". Uma coisa é a hipocrisia e as mentiras que apanham incautos num enredo de infelicidade (como se fossem figurantes numa peça de teatro em que desconhecem o leitmotiv do guião e, por isso, não conseguem ajustar-se ao papel que lhes coube representar) - aspecto de que o novo filme "Outrage" pretende tratar - mas querer forçar uma vontade de erguer ao público um cartaz no qual se inscreva a homossexualidade daquele cuja própria sensibilidade e pudor quer deixar em segredo é uma coisa muito distinta. Nunca ouvi que o sadomasoquismo ou a impotência - e tantas outras coisas mais - devessem ser publicamente "assumidos".

De volta a St. Georg, acrescento que é, de um modo geral, simpático, descontraído, agradável. A "Steindamm", confesso, assustou-me um pouco ao exibir, às 13 da tarde, uma decadência mais própria de um fim de noite, mas a "Lange Reihe", na sua variada extensão de lojas, cafés, restaurantes e residências de tijolo vermelho, encantou-me. O fim desta rua reservou-me uma última surpresa: a criatividade arquitectónica do ADA 1 (An der Alster, complexo 1). E a beleza do Alster ali mesmo, ao virar da esquina...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

teorias sobre as cores #4 (o negro e o vermelho)

Há dois tons diferentes que pintam (ou com que escolhemos pintar) as nossas vidas: um negro e outro vermelho. O tom negro identifica aqueles dias ou fases em que nos limitamos a existir: comemos, dormimos, respiramos, trabalhamos, mas não podemos exactamente afirmar que vivemos. Acordamos de manhã, levemente aborrecidos, mas conformados com o dia que começa, fazemos o que temos a fazer e depois voltamos para casa. Não nos demoramos pela rua porque na verdade não encontramos muito interesse ou prazer no que quer que seja. Não temos ideias novas e não arriscamos iniciativas. Na fase negra estamos sentados na estação à espera que o nosso comboio (alguém ou alguma coisa) chegue e parta para um qualquer lugar. Não sabemos bem qual, limitamo-nos a estar à espera. Podemos gastar nisto uma vida inteira.
O tom vermelho corresponde à fase em que corremos pelos dias embriagados numa paixão pelas pessoas ou pelas coisas. O cérebro exige pouco descanso e fervilha numa excitação de sugestões e novidades. Sentimo-nos no centro da vida e quase acreditamos ter atado os fios invisíveis dos pedaços soltos do mundo. Julgamos ter decifrado, numa revelação, o sentido íntimo da vida. É também o tom vermelho que pinta a descida ao inferno do sofrimento e da catástrofe, quando gritamos ao mundo, impassível, toda a dimensão do nosso desespero. É impossível viver sempre a vermelho. Ou esbatemos o tom ou somos levados a pôr fim ao jogo de cores.
Feliz e enigmaticamente, a vida concede-nos (quase sempre) uma linha neutra, sem cor, que de algum modo nos permite sustentarmo-nos em equilíbrio entre um e outro tom.

o descanso

(aspecto de uma obra de Rafael Canogar, "el descanso")
Agora peço licença ao mundo para sair na próxima estação. Quero ir para casa. É urgente desligar o interruptor e aninhar-me dentro de mim. Colocar-me em modo de pausa e deixar-me estar, sem existir, apenas embalada pela promessa de um dia novinho em folha, por estrear, que a noite, silenciosa, contém. Fecho os livros, os jornais e os ruídos do telefone e da televisão. Digo às palavras e às ideias que tenham paciência mas vão ter de esperar do lado de fora da porta. Peço a todas as coisas que se detenham por um momento ( se, impacientes, quiserem prosseguir, continuem a girar, tanto me faz).
Hoje não contem comigo, não estou para ninguém... Nem sequer para mim...

um conselho


"... don't criticize
what you can't understand..."