quinta-feira, 24 de setembro de 2009

os dias que passam... correm

(Saatchi - Londres)
Sinto que os dias passam rápidos demais e que eu não os consigo agarrar. Vejo-os correr, velozes, à minha frente. Eu sigo-os aos tropeções. Eles voltam-se, de vez em quando, saltitantes, dirigem-me um sorriso zombeteiro e continuam a correr. Estendo os braços e tento pará-los, mas não sou capaz. Têm umas perninhas pequenas, mas correm que se fartam, os danados.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

teorias sobre as cores #7 (o desabafo)

(aspecto de uma obra patente na exposição "Serralves 2009: a colecção")

Através da janela do café que tínhamos escolhido para o nosso encontro, vi-a aproximar-se de mim com o andar elegante e cheio de segurança que tão bem lhe conhecia. Invejei, como sempre, a sensualidade com que flutuava em cima de uns saltos que me teriam feito tropeçar ao segundo passo. Inconscientemente, dei por mim, mais uma vez, a encolher-me no desleixo de quem acredita ter coisas bem mais importantes com o que se preocupar. Da maquilhagem perfeita e do cabelo cuidado, os meus olhos desceram até à mão esquerda estendida em desalento ao longo da elegância do vestido. Vinha aberta, exposta, pintada de vermelho. Percebi, de imediato, pelo modo como aquela mão se abria num vermelho-sangue, que me escolhera, nessa tarde, para desabafar o tumulto interior e pensei, não sem alguma surpresa, que até aí ela nunca me tinha contado nada de verdadeiramente íntimo sobre a sua vida. Aguardei, expectante, sem lhe perguntar porque razão enfeitara o rosto com um sorriso tão postiço. O que me contou não seria surpresa nenhuma, não fosse ser ela a vivê-lo e a contar-mo. Tinha saído de casa nesse dia de manhã bem cedo com uma mala pequena e até àquela hora do fim da tarde não fizera mais do que conduzir desorientada, sem destino. O resto da história é lugar-comum: o marido envolvia-se frequentemente com outras mulheres e ela não aguentava mais olhar para o lado e fingir que não percebia. Pela sua parte, e ainda que já o tivesse pensado muitas vezes, era incapaz de o enganar. Um misto de culpa e de vergonha bloqueava-a e fazia-a retroceder, no último momento.
O desabafo alongou-se do fim da tarde para a noite e depois pela madrugada dentro. Era tarde e eu precisava de voltar para casa, mas cedi-lhe, solícita e paciente, os meus ouvidos. Depois, ofereci-lhe a minha amizade e emprestei-lhe a alegria e a segurança da minha independência. Durante alguns dias, manteve-se muito próxima, mas depois deixei de vê-la durante um período de tempo longo. Quando voltei a encontrá-la, ao lado do mesmo marido, trazia a mesma elegância de sempre, embrulhada num novo sorriso postiço. O braço esquerdo estendia-se ao longo de um vestido novo, mas terminava numa mão fechada, semi-escondida atrás das costas. Cumprimentou-me alegre e tagarelou excitada sobre a última viagem de férias que tinham feito. O marido acenava de quando em quando um gesto afirmativo, mas mantinha um olhar alheado, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. Depois de se despedirem, fiquei ainda a vê-la afastar-se e a cobiçar-lhe a elegância dos saltos altos. Distraída, a mão esquerda abriu-se então por um instante. Tive a certeza de que a vi tão pintada de amarelo como o sorriso, mas agora que penso melhor nisso, talvez tivesse sido apenas uma ilusão criada pela luz intensa do meio-dia.

sábado, 19 de setembro de 2009

Quando eu for louca

(obra patente na exposição "Serralves 2009: a colecção")

Quando eu for louca, não vou mais inquietar-me se estou no lugar a que verdadeiramente pertenço, porque os loucos não pertencem a lugar nenhum.
Quando eu for louca, vou encontrar sentidos e desvendar segredos nos pedaços soltos do mundo que hoje fogem ao meu entendimento, porque aos loucos é evidente o que para todos os outros é opaco.
Quando eu for louca, vou deixar de ser duas e passar a ser nenhuma.
Quando eu for louca, vou consternar os que me rodeiem, desmontando-os com a lucidez crua e insensível que só aos loucos é permitida.
Quando eu for louca, vou rodopiar na rua de pés descalços e braços abertos e desfazer abraços em árvores e em desconhecidos.
Quando eu for louca, vou encolher-me a dormir num banco de jardim ou no vão de uma escada, porque os loucos adormecem onde calha, quando o sono vem.
Quando eu for louca, vão encarcerar-me entre quatro paredes quaisquer e apagar-me da memória... E eu vou morrer, devagarinho, dentro do mesmo silêncio triste do pássaro fechado na gaiola.

fade away




He asked me why had I not answered his last messages back. I was quite disappointed at this question - it meant he didn't know me as well as I had imagined - but still I replied. I said: "either I kill or I die, but I refuse to fade away".

(that was the last time ever we speak to each other again)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Islândia - a última estação


Desembarco com a certeza de ter atingido a última estação antes do fim do mundo: acima do paralelo 66.º só focas e esquimós, já nem as baleias se atrevem. A roçar o círculo polar árctico, situada no meio do Atlântico Norte, a Islândia prenuncia fazer-me passar um mau bocado. O vento agreste e as temperaturas desagradáveis, para quem ainda traz na pele o calor excessivo de um mês de Agosto num país em que o Verão não é só uma palavra, não tardam a fazer-se sentir. A primeira impressão é de desconforto (as mãos e os pés já gelados) e podia jurar que a ilha me observa com a frieza e a distância do jovem amante demasiado belo, demasiado caprichoso, demasiado esquivo... Confio, porém, na promessa de que os meus olhos irão deslumbrar-se com belezas novas: os guias elogiam “as mais impressionantes maravilhas naturais da Europa”.
A paisagem começa por transmitir a inquietude do “deserto”: os olhos perdem-se na distância (e o medo que temos de nos perder), faltam referências, não há construções, não há pessoas (com uma área de 103 000 Km2 e apenas 303 mil habitantes, cerca de 70% dos quais residem na capital, Reykyavik). É preciso olhar e sentir antes de começar a ver. Desisto pois das tentativas para decifrar a vastidão e descortinar um sentido e peço à paisagem que seja o narrador e venha contar-me histórias... As ovelhas atravessam a estrada numa arrogância inconsciente; os cavalos abeiram-se ternos ou nervosos. O céu aproxima-se a exibir um jogo trágico e intenso de nuvens. A luz é deslumbrante e, ao lado da estrada, o oceano acompanha a viagem de automóvel como um espelho reflector. Há poças de lama borbulhante e gases que sobem da terra sem descanso, há quedas de água indomáveis, há paisagens de lava que me fazem suspeitar de que uma força demoníaca se esconde abaixo do solo.


Preparam-se as câmaras fotográficas, ajustam-se as objectivas e ouve-se um clique repetido. Começo hesitante, apuro as técnicas insuficientes que aprendi, observo a partir de várias perspectivas, mas o resultado não satisfaz: a beleza não se deixa aprisionar pela minha lente. O que se contempla é maior do que cinco sentidos e sinto que o país me escapa, misterioso.
Regresso com o sentimento de ter cruzado uma fronteira nova. Os olhos voltam felizes, agradados com o que viram, mas a mente insatisfeita. Sabe que apenas riscou a superfície e que a ilha se despede com a altivez de quem seduz, mas não se deixa conquistar e não desvenda o seu segredo. Disseram-me que quem visita a ilha uma vez regressa repetidamente. Tenho a certeza de que o motivo é este: voltamos sempre aos lugares que não soubemos decifrar.