terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Feliz 2009. Enjoy the ride!


Atenção! Muita atenção!


Meninos e meninas .... é mais uma volta... é mais uma aventura...


as coisas que os meus amigos dizem

- Que raro!
- Isto está agreste! (cheio de gente, problemático ou conflituoso)
- Isto está ao rubro! (cheio de miúdas giras ou miúdas, só)
- Já enviei um e-mail... (obrigada por organizares com antecedência)
- Para quem não quer, há muito... (se ele não nos liga, não vale o desgaste, há muitos por aí)
- Já que aqui estou... (isto não tem a ver com o lugar)
- O que eu não me lembro, não aconteceu! (não é Alzheimer)
- O denominador comum não são eles, és tu!
- Já comeste pior e não te fez mal (isto não tem a ver com comida)
- Antes ser cabra... antes ser cabra... do que... do que ser encabrada! (pois, não era fácil)
- O que te custa não é fazeres a coisa, é seres apanhada a fazer a coisa...
- Este é giro, pode ficar para mim? (claro, queremos é ver-te feliz)
- Eu sou gira, jeitosa e inteligente. O que é que eles querem mais? (mais nada, não te querem é a ti)

Nós não fazemos revoluções.


Nós não fazemos revoluções. Desmanchamos a cama que calha. Dormimos pouco. Acordamos tarde. Sofremos sem motivo. Partimos sem dizer adeus. E depois queremos voltar. Não estamos no presente. E não acreditamos no futuro. Pedimos explicações, mas não aguardamos a resposta. Ignoramos o passado. Queremos que tudo mude, desde que não dê muito trabalho. Não sabemos mentir e não queremos que nos contem a verdade. Falamos de felicidade como de uma coisa que dependesse de encontrar a estratégia certa. Queremos surpresas, mas aborrecemo-nos com tudo. Reflectimos, comparamos, analisamos... e depois adiamos. Ficamos do lado de fora. E insistimos que alguém fechou a porta. Não queremos perder nada. E o que ganhamos com isso?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

sobre o tédio


(estas palavras são do Gonçalo M. Tavares, A perna esquerda de Paris)




"Não existe nem a educação para a catástrofe, nem a educação para o tédio. E não há uma terceira hipótese para uma vida."

o jardim


Quando descobri o jardim, chovia uma chuva leve, que não vinha de lugar nenhum. Toldava-me a visão, mas intensificava os cheiros. Foi assim que te encontrei. Empurrei a custo um portão pesado, atravessei o labirinto de flores e arbustos, com cuidado analítico, e cheguei ao pé de ti. Deixei-me ficar muitos instantes só a olhar para ti.
Depois, quando decidi prosseguir até ao limite do jardim e empurrar o outro portão de ferro (que eu sei que existe, lá ao fundo), ouvi-te estas palavras condescendentes: tens medo de ser feliz. Não, não é isso. Do que eu tenho medo é de morrer neste jardim e de ficar aqui enterrada para sempre. Podia jurar que vislumbrei uma lápide com o meu nome inscrito, à entrada, do lado direito...

chaminé


Já não me lembro de como era acreditar... Mas devia saber tão bem!

domingo, 28 de dezembro de 2008

tarde demais


Isto não funciona e eu estou cansado. Respeito-te, admiro-te até. Na verdade, estou apaixonado por ti. Por isso, não te peço para mudar. Acho-te perfeita assim como és. Mas se calhar tens razão quando dizes que eu quero uma dona-de-casa, que espere por mim todas as noites com o jantar pronto... Talvez um dia mais tarde ... Mas neste momento és um problema, és mais uma exigência que eu não consigo satisfazer...
Ela ainda o alertou: um dia mais tarde será tarde demais.

(pelo menos, nesta história, houve sinceridade de parte a parte e não ficaram dúvidas quanto ao porquê do fim)

O rancor


Detenho-me a olhar para ti, enquanto despes apressada as várias peças de roupa cara, que agora te habituaste a usar. Dizes-me que não reparo em ti, mas não é verdade. Observo-te muitas vezes. Não desejo é tocar-te. Olho-te e olho-te, mil vezes, insistentemente, a tentar descortinar o que em tempos me deixava tão exaltado, tão perto da plenitude, do centro da vida. Claro que me apercebo de que outros homens te olham e possivelmente te desejam: és ainda uma mulher bonita. Não precisas de me fazer relatos pormenorizados sobre como te tentaram assediar entre o trabalho, o supermercado e o parque infantil, numa tentativa impossível de despertar em mim o que morreu há muito. Tentativa nada subtil, diga-se, (tu que te julgas tão senhora da subtileza feminina): falha tão completamente o alvo que consegue apenas comover-me. Isto é, conseguiria, se eu não fosse este poço de insensibilidade egoísta que tanto gostas de referir. Tento olhar-te através dos olhos desses homens, mas não sou capaz. Estou demasiado habituado a ti, à tua cara zangada, aos teus discursos versão “metralhadora” sobre como isto e aquilo te deixam tão irritada e tão frustrada. Carregas sempre no «tão» com uma força que me assusta. É verdade que sempre me assustaste um pouco: eras mais bonita, mais inteligente, tudo mais do que eu, uma corrente admirável de força e de ideias. A intensidade com que exprimias as tuas opiniões atemorizava-me, mas fascinava-me. Eu sempre fui mais fraco, mais preguiçoso, nisso dou-te razão. Encostei-me à tua força, mas agora falta-me o ar para respirar. Por isso, demoro-me na rua, com mil desculpas inventadas sobre coisas inadiáveis; demoro-me na esplanada ao fim-de-semana a ler o jornal; demoro-me em discussões de bancada depois do jogo de futebol. Inconscientemente, adio sempre o momento de voltar para casa, para a tua fúria… Que diabo! Não se pode viver deste modo, sempre tão zangada com o mundo… Mesmo assim, volto sempre, todas as noites, para ti. Não desejo beijar a tua boca, morder os teus seios ou rejubilar de prazer dentro de ti. Mas preciso do conforto do teu corpo quente deitado ao lado do meu, no desconforto de uma cama demasiado estreita para tamanho rancor.

sábado, 27 de dezembro de 2008

sabes, não sou eu que sou louca...



- Tu és uma miúda difícil!
- Tu aborreces-te por coisas com as quais ninguém que eu conheça se aborrece!
- Tens que moderar esse hábito de usar palavras tão cruas. Ninguém quer esse tipo de sinceridade.
- Tu és muito exigente.
- És demasiado esperta e, às vezes, a ingenuidade é um privilégio.
- Tens prazer em discutir, só podes.
- Tu és completamente maluca!

Não, não sou...

Eu sei, queriam-me fácil, quotidiana, habituada, adaptável aos vossos gostos, interesses e horários. Que me risse das vossas piadas, que me comovesse com os vossos problemas, que não tivesse insónias, que não chorasse a despropósito, que não partisse a meio da noite sem dizer até amanhã, que fechasse os olhos às mentiras, às incoerências, às deslealdades, às imbecilidades e à falta de ideias ou à falta de outra coisa qualquer que nunca vai lá estar.
Acreditem, se eu fosse uma pessoa diferente, a sério, "se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência! Vão para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinh[a] para o diabo! Para que havemos de ir juntos?" (as palavras finais são de Álvaro de Campos, in Lisbon Revisited)

"as promessas que os amantes fazem quando começa a ser tarde demais"


Ele: Eu estou cheio de saudades tuas, a sério. Mas hoje tenho mesmo de trabalhar à noite. Ah, amanhã também... Na quinta ... tenho o jogo de futebol e na sexta ..., na sexta...., o jantar com os meus colegas de Espanha.
Ela: ...

Ela: Eu prometo que vou trabalhar menos horas e dedicar-me mais a ti. É só esta fase, estamos num pico de encomendas. Vou cozinhar mais vezes. Sim, passamos a jantar em casa e a gozar juntos o serão. Vou encenar todas as tuas fantasias.
Ele: ...

Ele: Eu juro que desta vez é a sério. Eu nunca mais te deixo, para perder-me com outra mulher. Tu és a única. A ti, eu amo-te... Claro que não te vejo como a minha "sopeira" ou ama dos nossos filhos. Como podes dizer ou sequer pensar essas coisas?
Ela: ....

"de homem para homem"



O espelho devolve-me uma imagem de força, segurança e dinamismo na figura de um homem ainda suficientemente jovem e elegante para satisfazer a pressão social da imagem.
Forço-me a manter o olhar nessa imagem, nesse homem. Luto com aquele momento de estranheza, sempre algo dolorosa, em que efectivamente nos confrontamos com o nosso reflexo na superfície lisa e percebemos que aquele outro, somos nós.
Detenho-me no olhar cansado e nas marcas negras que o tornam mais sombrio e distante (enigmático, dizem-me elas, quando me oferecem os lábios generosos, num sorriso). Detenho-me na ruga ao cimo do nariz; na marca da ferida mal tratada aos dezasseis anos; orgulho-me da boa forma física.
Fecho os olhos. Deixo de olhar. Não sou capaz de me confrontar com a falha inconfessável, impossível de assumir.
Depois de esgotadas as desculpas do cansaço físico, do excesso de preocupações, da bebida, a crueldade do desespero na resposta ao silêncio dela: «a culpa é tua; só pode ser tua; só me acontece isto contigo»… Ambos sabemos que não é verdade.

a todos aqueles que nunca vão ser nossos


Esta estória foi-me contada por uma amiga, ao sabor de um copo de vinho, mas acontece com frequência:


Conheci um rapaz muito giro, simpático e inteligente e pensei: é desta que saio do deserto. Já estava preparada para aparecer numa festa onde sabia que ele ia estar, quando me avisaram: olha que ele é homo. Houve alguém que ainda me tentou consolar e sugeriu, pouco convicto: pode ser bi.
Pois claro, bi...cha.

"da mentira como uma das belas-artes"


“Tentei recentemente fazer um livro que devia chamar-se L’Homme Menti. Era um homem que mentia. Mentia a todo o tempo a toda a gente sobre os factos da sua vida. A mentira chegava-lhe aos lábios antes das palavras para dizer. Não a sentia passar. Não mentia sobre Baudelaire ou Joyce, e também não era para se gabar ou para fazer com que acreditassem em aventuras que podiam ter-lhe acontecido. Não, nada disso. Mentia sobre o preço de um pulôver, sobre uma viagem de metro, o horário de um filme, um encontro com um amigo, uma conversa que contasse, uma ementa, uma viagem completa, incluindo os nomes das cidades, sobre a família dele, a mãe, os sobrinhos. Aquilo não tinha qualquer espécie de interesse. Ao fim de uns meses habituávamo-nos”.
(Marguerite Duras, L'homme menti, in «A vida material»)
Admito que a verdade é sobrevalorizada. Admito também que a mentira pode ser muito profícua, sempre que piedosa ou, simplesmente, mais fácil de entender. A vilipendiada farsa social representa, com frequência, o lugar de encontro possível. E, reconheçamo-lo, haverá maior egoísmo do que libertar a alma (na hora da morte ou em qualquer outra anterior), destruindo a base de verdade em que o outro (ou outros) se equilibram? O problema, acho, é que as pessoas mentem mal. É demasiado fácil descobrir o engodo (a mentira tem perna curta e etc. e tal). E, depois disso, lá se vai o respeito pelo mentiroso. Eu, que sou quase obcecada pela verdade das coisas (se calhar não tanto por virtude de uma particular afeição moral, mas muito mais devido a uma inabilidade congénita para a arte da falsidade), interrogo-me, frequentemente, sobre o porquê de mentirmos tanto uns aos outros. Temos mesmo necessidade de mentir? A mentira é mais interessante, ou torna-nos mais interessantes, do que a verdade? Precisamos de recriar a nossa vida porque a achamos medíocre ou como uma forma de arte? Se somos únicos, ainda que na nossa mediocridade, porquê mentir e trairmo-nos na única coisa que de facto nos pertence?

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A ervilha

- Desculpa, mas não dá. Sinto-me como uma ervilha, encostada, ao abrigo do vento.
Um olhar entre o arreliado e o surpreendido. Eu referia-me à «tisana» n.º 15 da Ana Hatherly [Era uma vez duas ervilhas que estavam encostadas uma à outra porque nesse dia estava muito vento e estando elas cansadas de rolar desejavam ficar onde estavam. Por isso se encostavam uma à outra fazendo muita força para não se separarem. Nesse momento passou um mergulhão.], mas ele não podia saber. Talvez por passar demasiado tempo sozinha, falava mais para mim do que para os outros. Por isso não percebiam o que eu dizia. Eles gostavam disso. Achavam-me enigmática. Mas não era verdade. Eu era simplesmente presunçosa.

Confissões a A. [ao telefone, de madrugada]


– O meu desejo, o meu sonho, era o de que vivêssemos como caçadores de experiências, como vagabundos [ou “flâneurs” – o francês é sempre mais chique], desacorrentados de uma «carreira» que, no máximo, ao fim de três anos se tornou entediante e apagou a capacidade de criar e também de uma «relação estável», que corrói aos poucos, na monotonia de um quotidiano destruidor da vontade e da sabedoria de surpreender.
... Que pudéssemos, simplesmente, partir, viajar pelo mundo fora, criando laços e trocando afectos, em espaços únicos de uma intimidade plena...
... Que pudéssemos fintar o destino e saltar do sossego do tédio, sempre que a vontade ansiosa assim o decidisse, sem medo de perder coisas tão preciosas como: o tempo; o dinheiro; ou uma qualquer amaldiçoada serenidade...

"Don´t call me baby"


Ele perguntou-me: "Vemo-nos amanhã, bébé?". Eu engoli em seco: "bébé, tu chamaste-me bébé"? E ele, sem compreender o choque, a julgar-se engraçado: "preferes que te chame amore (sim, com e no fim) ou 'mor (sim, sem a no início)?" Eu tentei não soar demasiado agressiva, no que raramente sou bem sucedida: "prefiro que me trates pelo meu nome. porque é meu. é pequeno, logo fácil de utilizar. e assenta-me melhor do que uma luva".


Não sei se há mulheres que apreciem estas coisas. Eu não. Lamento, mas diminutivos carinhosos, feitos com base no meu nome, soam-me sempre mais apropriados para cachorros tamanho miniatura. E utilizar expressões como "nanar" ou "papar" é adequado... para menores de sete.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"sweet november"


O que ela pensou depois do fim: um mês é o período de tempo perfeito para este tipo de estórias, suficientemente longo para ter significado e suficientemente curto para evitar problemas.

O que ela ainda pensou depois disso:
"Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Perder uma coisa é muito triste [...] Encontrar. Perder. [...] o que é a perda? Não é apenas a negação desse generoso instante que vem preencher uma espera [...]. Porque entre esse instante e a perda há sempre aquilo que se chama - muito desajeitadamente, concordo - a posse.
Ora, a perda por mais cruel que seja não pode nada contra a posse, completa-a se assim quiserem; afirma-a; no fundo, é apenas uma segunda aquisição, completamente interior desta vez e muito mais intensa."
(Rainer Maria Rilke, Mitsou)

curso de fotografia

“Na primeira vez encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho.”
José Luís Peixoto, Cair através do céu dentro de um sonho


A primeira coisa a despertar a minha atenção enquanto ele se aproximava de nós, naquela manhã do começo das manhãs de Sábado, foi a boca: tinha uns lábios improváveis em forma de coração. Por isso, depois do fim, eu ainda lhe disse:
- ... lembro-me dos teus lábios em forma de coração...
E ele ainda me respondeu:
- ... lembro-me de ti...