
“Tentei recentemente fazer um livro que devia chamar-se L’Homme Menti. Era um homem que mentia. Mentia a todo o tempo a toda a gente sobre os factos da sua vida. A mentira chegava-lhe aos lábios antes das palavras para dizer. Não a sentia passar. Não mentia sobre Baudelaire ou Joyce, e também não era para se gabar ou para fazer com que acreditassem em aventuras que podiam ter-lhe acontecido. Não, nada disso. Mentia sobre o preço de um pulôver, sobre uma viagem de metro, o horário de um filme, um encontro com um amigo, uma conversa que contasse, uma ementa, uma viagem completa, incluindo os nomes das cidades, sobre a família dele, a mãe, os sobrinhos. Aquilo não tinha qualquer espécie de interesse. Ao fim de uns meses habituávamo-nos”.
(Marguerite Duras, L'homme menti, in «A vida material»)
Admito que a verdade é sobrevalorizada. Admito também que a mentira pode ser muito profícua, sempre que piedosa ou, simplesmente, mais fácil de entender. A vilipendiada farsa social representa, com frequência, o lugar de encontro possível. E, reconheçamo-lo, haverá maior egoísmo do que libertar a alma (na hora da morte ou em qualquer outra anterior), destruindo a base de verdade em que o outro (ou outros) se equilibram? O problema, acho, é que as pessoas mentem mal. É demasiado fácil descobrir o engodo (a mentira tem perna curta e etc. e tal). E, depois disso, lá se vai o respeito pelo mentiroso. Eu, que sou quase obcecada pela verdade das coisas (se calhar não tanto por virtude de uma particular afeição moral, mas muito mais devido a uma inabilidade congénita para a arte da falsidade), interrogo-me, frequentemente, sobre o porquê de mentirmos tanto uns aos outros. Temos mesmo necessidade de mentir? A mentira é mais interessante, ou torna-nos mais interessantes, do que a verdade? Precisamos de recriar a nossa vida porque a achamos medíocre ou como uma forma de arte? Se somos únicos, ainda que na nossa mediocridade, porquê mentir e trairmo-nos na única coisa que de facto nos pertence?