"O seu sentimento aterrador de que nada do que fazia tinha importância. A sua percepção de que aquilo que se passava no mundo exterior tinha mais substância do que o que se passava na sua vida. [...] Não só o seu nome e as suas palavras, quando os via impressos, lhe pareciam ser os de outra pessoa, como era muito pouco o prazer que extraía de alguma coisa que escrevesse. Depois de as ter feito, as coisas fugiam-lhe das mãos: ficavam como que numa terra-de-ninguém: Neutras. Nada lhe diziam. Gostaria de poder orgulhar-se da sua pessoa, mas tudo o que conseguia era sentir-se culpado - culpado por não ter feito mais, ou melhor. [...] Ele não via mais do que um vazio aterrador à sua frente, uma ausência de perspectivas onde deveria haver planos, e não trabalhava senão por impulsos".
(Lydia Davis, Notas para uma biografia de Wassilly in Contos Completos)
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
outra vez o tédio
"E decerto que existira um tempo qualquer em que ela estava mais próxima da vida e a sentia de forma mais nítida como se ela lhe passasse pelas mãos ou sobre o próprio corpo; mas desde há muito que esquecera a sensação e só sabia que, desde essa altura, alguma coisa devia ter surgido que a encobria. [...] Deixara de conhecer alegrias intensas e intensos sofrimentos, nada que se destacasse de tudo o resto pela sua notoriedade ou duração, e pouco a pouco ia vivendo de forma cada vez mais indistinta. Os dias escoavam-se, uns iguais aos outros, e os anos chegavam sempre idênticos; na verdade, ela ainda sentia que cada um lhe tirava e acrescentava qualquer coisa, e que neles ela própria se alterava, mas em nada havia nítidos contrastes; tinha um vago e fluido sentimento de si, e quando se buscava, tacteante, no seu íntimo, encontrava apenas a alternância de formas imprecisas e dissimuladas [...] e com tanta frequência uma náusea obstinada se arrastava silenciosa através desse mundo que todos os sentimentos pareciam estar untados com uma máscara de alcatrão."
A tentação de Verónica, a serena, Robert Musil
terça-feira, 5 de junho de 2012
o repouso da vida
Bem sei que é preciso imaginar Sísifo feliz. Mas às vezes - muitas vezes, até - compraz-me imaginá-lo a rebolar encosta abaixo com o pedregulho enorme a desfazer-lhe o cérebro. Imagino os ossos triturados e os pedaços de tecido humano e o sangue a colarem-se à pedra e a espalharem-se por todo o lado. Sobretudo o sangue, vejo-o correr sobre a terra seca e infértil num esforço para penetrá-la, acabando por se confundir com esta num amarelo-acastanhado...
Sísifo morto e a liberdade de nos mantermos no sopé da montanha, quietos e felizes, à sombra dos aciprestes.
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