
No início, naquelas primeiras vezes em que os nossos corpos escolheram oferecer-se um ao outro sem nos pedirem licença, só sentia a tua falta nos dias de chuva. Há, definitivamente, qualquer coisa de muito enigmática na chuva: cai lá fora, mas rega por dentro a tornar mais férteis toda a espécie de emoções. Por isso, nunca estranhei sentir, nesses dias, a tua falta, atribuía-o sempre à chuva e não lhe dava qualquer importância. Depois, também nos dias de céu nublado, apercebi-me de que o meu cérebro, demasiado pressionado pelo cinzento, deixava que o meu corpo chamasse pelo teu. Baixinho, de forma discreta, mas ainda assim audível se lhe fosse prestada a devida atenção. Surpresa trouxe-me igualmente o azul-escuro do anoitecer (sabes, aquele tom perfeito que serve de requiem ao dia e nos faz pensar que o mundo é um lugar lindo) quando percebi o meu corpo entoar desconhecidas melodias de sedução. O pior chegou quando comecei a sentir também a tua falta nos dias animados pela luz e pelo calor. Começou por ser uma carência discreta, que apenas se insinuava medrosa contra o brilho do sol, mas pouco a pouco foi-se instalando até ouvir o meu corpo enraivecer-se contra o astro: como se atrevia a brilhar tão forte se tu não estavas lá. No fim, mesmo antes de teres decidido que o teu corpo não queria mais o meu, já não havia manhã ou tarde, frio ou calor. Sentia constantemente a tua falta. O meu corpo chamava tão ansioso pelo teu que não podia demorar-me pela rua, tinha de andar rápida e discreta e voltar breve para casa, por receio de que alguém se incomodasse com o barulho. Agora, nos dias de chuva – não daquela chuva miudinha que só arranha um pouco o cérebro e dá mais espaço à inquietude dos sentidos, mas da outra, aquela das bátegas pesadas, que levam na enxurrada todos os arquipélagos de paz e de silêncio – nunca me atrevo a sair. Tranco a porta de casa e apago as luzes na esperança de que os vizinhos e os passantes na rua julguem ter-se enganado ao ouvir o meu corpo gritar tão alto pelo teu.
lindo. as lembranças do que foi, do que se foi. o desepero melancólico pelo que não mais será, pelo que nunca mais seremos. e as palavras: unem-se umas às outras como namorados passeando pelo Alster. movimentam-se como um dueto de dança, em que a bailarina é suspensa; o público se tensiona; prende-se a respiração; e ela desce (ainda suspensa) pelos braços de seu par. obrigado.
ResponderEliminarLindo!!!!
ResponderEliminar