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sábado, 3 de setembro de 2011

"...a rose-red city half as old as time..."



Petra tem a força de atracção de um segredo por revelar. A história e a geografia alimentam o mistério do lugar; a imaginação do viajante romântico faz o resto...
Caída em ruína, a cidade escavada na pedra, outrora centro de uma esplêndida civilização, ficou perdida ou esquecida do mundo até que um explorador de nacionalidade suiça e nome Johann Burckhardt veio redescobri-la em 1812. Disfarçado de peregrino árabe (tornando-se um dos primeiros agentes infiltrados de que há memória), Burckhardt fingiu querer sacrificar uma cabra de modo a transpor a cidade mística de cujas extraordinárias relíquias teria ouvido falar. Desde então, o mistério da sua história (Petra terá sido capital dos Nabateus, povo politeísta e discutivelmente nómada, depois anexada pelo império romano e possivelmente abandonada devido a frequentes tremores de terra) e da sua extraordinária beleza (pelos belíssimos túmulos e monumentos vivificados com surpreendente mestria a partir da pedra de uma região hostilmente árida) tem cativado hordas de investigadores, arqueólogos e turistas.
A descida do Siq (fissura entre duas montanhas) é ansiosa a antecipar a prometida revelação de algo maravilhoso, feita ao som de cascos de cavalos que transportam viajantes numa corrida sem fim. [Os outros viajantes odiámo-los a todos: preferíamos o silêncio do segredo a guardar-se só para nós]. A fissura estreita ladeada pelas elevadas paredes (100m) fomenta um leve receio angustiado de quem se sente observado sem conseguir observar e acentua a impressão de que entramos em lugar secreto, separado do resto do mundo. No fim do caminho, a vista do edifício chamado Tesouro do Faraó (El Khazneh) vai além da expectativa. Sentamo-nos atentos a sentir a emoção despertada pela arquitectura fascinante e a deixar crescer a necessidade imperiosa de percorrer todo o espaço. Ambição impossível para um dia só (Petra espalha-se por cerca de 12 km), mas ainda é manhã, e por isso confiamos no desejo e adiamos as necessidades físicas mais básicas.


Infelizmente, mesmo em época baixa, a impressão de que ocupamos um cenário hollywoodesco e não tanto de História antiga vai estando presente ao longo do dia: tendas montadas para alimentar as equipas (não cinematográficas, mas turísticas); guias a lembrar Johny Depp - sem dentes, é certo, mas com aproximada habilidade no charme; um movimento ininterrupto de cavalos e camelos a misturar trajes tradicionais com chapéuzinhos para proteger a cabeça das queimaduras solares e equipamento fotográfico da mais elevada tecnologia. Enfim, mais perto do que será Hollywood preparada para filmar uma fita de época do que provavelmente seria o mundo antigo.






Esgotámo-nos nas subidas atrás da vista transcendental, mas o nevoeiro brinca connosco às escondidas e o que me ocorre não é o mistério dramático da História, mas o reclame de publicidade ("aqui vou ser feliz")... gritado ao eco, a surpreender guias, vendedores e turistas - ainda assim, sempre impossível afugentá-los ou proceder como se não existissem. Mas quem não se perder em palhaçadas e estiver atento ao murmúrio da História conseguirá ouvir o canto e os rituais de sacrifício das antigas populações como também o resfolegar dos cavalos a arrastarem caravanas para outras paragens.








E o segredo? O segredo está semi-revelado nas reentrâncias ou cavernas que ladeiam o caminho e oferecem a vista interior de improváveis e sobretudo inigualáveis pedras multi-coloridas, e escondido atrás dos monumentos e da natureza rosa-avermelhada. E está guardado dentro de cada um que visita a cidade e para sempre fica impedido de revelá-lo a quem quer que seja...



(o verso do título é de John william Burgon e foi escrito em 1840)


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

regressar. partir.



Regressar. ao mesmo lugar das facas na cozinha. à mesma vista da janela. àquele maço inamovível de papéis desarrumados. ao barulho antigo, se bem que os vizinhos novos, do andar de cima. as mesmas contas na caixa do correio. os mesmos nomes no telemóvel. o mesmo silêncio do fim de tarde. a velha necessidade de comprar uma carpete, de pintar as paredes de outra côr, de montar mais prateleiras. o mesmo programa de pré-lavagem da louça. os mesmos sacos de lixo. a mala ainda aberta, cheia de coisas que ilusionam a estabilidade da chegada a atardarem o regresso à gaveta de sempre. Onde cabe a diferença entre aquilo que éramos (antes de partir) e aquilo que somos agora (depois de regressar)? Sobra pela casa, a atrapalhar os passos no corredor e a desarrumar prateleiras, a tornar feia a sala-de-estar.
Felizmente, o odor salgado do mar a prometer que um dia (certamente que um dia) compro um bilhete só de ida e atraso tanto o regresso que, quando este chegar, já vai ter o sabor de partida.

domingo, 9 de maio de 2010

Flânerie # 2


Agradavam-lhe sobretudo as cidades. Gostava de caminhá-las, sem relógio e sem destino, porque acreditava que ao acariciar as ruas com os seus pés (como a um amante com as suas mãos) fazia-as um pouco suas. Nunca entrava em museus ou monumentos, visitava apenas parques, cafés e estações de comboio porque era aí que as cidades desvendavam os seus segredos. Com os olhos procurava as coisas em que ninguém reparava, e com os dedos curiosos abria as caixas que os outros escolhiam deixar fechadas.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

amanhã é o mesmo dia


... pensar que é apenas uma tola, ingénua, ilusão esquizofrénica (que vamos alimentando sabe-se lá com que energia) aquilo que nos mantém presos ao trilho, atentos ao dia de amanhã. E se, afinal, amanhã não for outro dia, mas antes o mesmo dia, longo e repetido, igual ao de ontem e em nada diferente do de anteontem... E se estivermos presos, fechados, dentro de um círculo diário de coisas e factos e pessoas tão levemente dissemelhantes que nem lhe sentimos a diferença, como vamos escapar?

domingo, 17 de janeiro de 2010

complexo de culpa

"A Febre" sai do palco e vem cair-nos ao colo. Dá-nos, primeiro, uma cotovelada, para garantir que estamos despertos e atentos. Depois, fica ali, a mexer-se de um lado para o outro e a incomodar-nos. A arranhar-nos. A tirar-nos a paz de quem se julga do lado dos bons, ou do lado de fora, do lado de quem pensa que pode dormir de consciência sossegada porque não tem nada a ver com aquilo. Lamentamos o destino dos pobres, dos miseravelmente pobres, mas não há nada que possamos fazer, aquilo não tem nada a ver connosco. Engano nosso. O texto afaga-nos um pouco a cabeça apenas para nos apanhar com mais força com um murro fechado no meio do estomâgo. Aquilo tem a ver connosco, aquilo somos nós. Lamentar não muda nada, palavrear não muda nada,e sempre soubemos disso, mas, na verdade, não nos importamos muito, nunca nos importamos muito. Queremos é que aquilo fique longe de nós. Enquanto "sentimos muito", sossegados, do lado de cá.
"A Febre" incomoda porque nos faz sentir que os "maus" somos, afinal, todos nós.

"A Febre" é um texto do escritor e actor norte-americano, Wallace Shawn. Soberanamente interpretada por João Reis, esteve em cena, no teca, este fim-de-semana.




Esta fotografia foi tirada nas ruas de São Paulo. Eu estou sentada dentro de um jeep confortável, com ar condicionado e vidros semi-fumados. Ele está deitado na rua, exposto à indiscrição de todos os olhares. Lembro-me de ter hesitado em captar a imagem e de sentir pudor em invadir o repouso dele com a minha câmara. Acabo por escolher fotografá-lo: ele faz parte da cidade e eu quero uma reportagem completa. Ou ele garante à minha consciência que não me preocupo apenas em fotografar belezas e luxos, mas antes estou também atenta aos dramas e à miséria. Enquanto nós, dentro do carro, seguimos viagem e decidimos o restaurante onde vamos jantar nessa noite, ele fica guardado na memória digital...

brincar com as palavras


- Sabes a mar...
- Sabes amar?!!
(e os teus olhos eram dois peixes verdes, que usavam palavras novas e me contavam sobre uma linguagem, até então, completamente desconhecida para mim)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

o desencanto cinzento dos dias sempre iguais


O tédio acaba sempre, de uma forma ou de outra, por estender à nossa volta uns dedos finos, quase transparentes, mas longos, de cor cinzenta, que se estreitam persistentes a tornar a alma mais pequenina e apertada.

Comecei este blogue confiante que teria, senão todos, pelo menos vários dias na semana, uma história qualquer para contar, ou uma ideia qualquer para assinalar, que me permitisse iludir o tédio. Sempre me disseram que eu conseguia fazer de qualquer banalidade um acontecimento digno de ser relatado. As histórias e as palavras quase sempre me sobraram e chegava mesmo a duvidar sobre o que fazer com elas (às vezes arrumadas nas gavetas, outras penduradas no armário e outras ainda empurradas para o ar frio da noite para que arrefecessem e me deixassem descansar). Desde há já algum tempo, porém, apercebo-me de que as histórias morrem antes de nascerem - ou por falta da vontade, ou por falta do interesse em contá-las. Fechei-me no equilíbrio monótono dos dias sempre iguais. Quando todos se queixam da cor cinzenta que ultimamente pinta os dias na janela, eu nem me importo, porque combina com o que se instalou do lado de cá. Na verdade, os dias cheios de cor desafiam o tédio que eu vejo definir-se para mim deste lado da janela e tornam o meu dia mais insuportável.

Hoje, ao entrar no carro, liguei o rádio a desejar que pelo menos uma música pudesse encantar-me e insuflar cor em mais um dia todo ele feito das coisas que "devem" ser feitas. Podia ser uma música nova, que nunca tivesse ouvido antes, ou uma daquelas muito antigas, a trazer a felicidade da memória de um momento qualquer, talvez então infeliz, mas agora, à distância, a ser capaz de causar a ilusão de uma felicidade. Nem isso, até que o meu dedo acabou por seleccionar a TSF atrás da possibilidade de um "pessoal e transmissível". A sorte do meu lado com o Carlos Vaz Marques a entrevistar a Marília Gabriela que contava uma história desmiolada qualquer e falava do valor que as coisas podem ter não pelo que são, mas pelo encantamento que causam em nós. Dizia ela também que, para não sucumbir ao tédio, precisava de ter, a cada dia, pelo menos uma boa história para contar.

Certamente que isto não contém nada de extraordinário ou sequer de especial, mas a afinidade descoberta com aquela voz da rádio bastou para me animar e colorir com uma minúscula pincelada rosa mais um dos meus dias cinzentos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

«Fugit Amor»

(escultura de Rodin, museu Rodin, Paris)

Algumas vezes, era eu quem tentava agarrá-lo. Sentia-o próximo, ao alcance de duas mãos que precisava apenas de estender para fazê-lo meu. Mas quando finalmente o tocava, o Amor contorcia-se e eu ficava a vê-lo escorregar-me por entre os dedos.
Outras vezes, era o Amor quem estava lá, à minha espera, e era eu quem, num volteio, escapava apressada para outro lugar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

os dias que passam... correm

(Saatchi - Londres)
Sinto que os dias passam rápidos demais e que eu não os consigo agarrar. Vejo-os correr, velozes, à minha frente. Eu sigo-os aos tropeções. Eles voltam-se, de vez em quando, saltitantes, dirigem-me um sorriso zombeteiro e continuam a correr. Estendo os braços e tento pará-los, mas não sou capaz. Têm umas perninhas pequenas, mas correm que se fartam, os danados.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Islândia - a última estação


Desembarco com a certeza de ter atingido a última estação antes do fim do mundo: acima do paralelo 66.º só focas e esquimós, já nem as baleias se atrevem. A roçar o círculo polar árctico, situada no meio do Atlântico Norte, a Islândia prenuncia fazer-me passar um mau bocado. O vento agreste e as temperaturas desagradáveis, para quem ainda traz na pele o calor excessivo de um mês de Agosto num país em que o Verão não é só uma palavra, não tardam a fazer-se sentir. A primeira impressão é de desconforto (as mãos e os pés já gelados) e podia jurar que a ilha me observa com a frieza e a distância do jovem amante demasiado belo, demasiado caprichoso, demasiado esquivo... Confio, porém, na promessa de que os meus olhos irão deslumbrar-se com belezas novas: os guias elogiam “as mais impressionantes maravilhas naturais da Europa”.
A paisagem começa por transmitir a inquietude do “deserto”: os olhos perdem-se na distância (e o medo que temos de nos perder), faltam referências, não há construções, não há pessoas (com uma área de 103 000 Km2 e apenas 303 mil habitantes, cerca de 70% dos quais residem na capital, Reykyavik). É preciso olhar e sentir antes de começar a ver. Desisto pois das tentativas para decifrar a vastidão e descortinar um sentido e peço à paisagem que seja o narrador e venha contar-me histórias... As ovelhas atravessam a estrada numa arrogância inconsciente; os cavalos abeiram-se ternos ou nervosos. O céu aproxima-se a exibir um jogo trágico e intenso de nuvens. A luz é deslumbrante e, ao lado da estrada, o oceano acompanha a viagem de automóvel como um espelho reflector. Há poças de lama borbulhante e gases que sobem da terra sem descanso, há quedas de água indomáveis, há paisagens de lava que me fazem suspeitar de que uma força demoníaca se esconde abaixo do solo.


Preparam-se as câmaras fotográficas, ajustam-se as objectivas e ouve-se um clique repetido. Começo hesitante, apuro as técnicas insuficientes que aprendi, observo a partir de várias perspectivas, mas o resultado não satisfaz: a beleza não se deixa aprisionar pela minha lente. O que se contempla é maior do que cinco sentidos e sinto que o país me escapa, misterioso.
Regresso com o sentimento de ter cruzado uma fronteira nova. Os olhos voltam felizes, agradados com o que viram, mas a mente insatisfeita. Sabe que apenas riscou a superfície e que a ilha se despede com a altivez de quem seduz, mas não se deixa conquistar e não desvenda o seu segredo. Disseram-me que quem visita a ilha uma vez regressa repetidamente. Tenho a certeza de que o motivo é este: voltamos sempre aos lugares que não soubemos decifrar.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"c'est la vie"

No fim, quando a mágoa se instala, encolhemos os ombros, consolamo-nos com a banalidade de uma evidência - “é assim a vida” ou “amanhã é outro dia” - e seguimos viagem. É que a vida não pára, não espera que as lágrimas sequem, continua, imperturbável, em passos largos, zombeteiros…

quarta-feira, 15 de julho de 2009

chuva #2 (o segredo dos dias de chuva)


No início, naquelas primeiras vezes em que os nossos corpos escolheram oferecer-se um ao outro sem nos pedirem licença, só sentia a tua falta nos dias de chuva. Há, definitivamente, qualquer coisa de muito enigmática na chuva: cai lá fora, mas rega por dentro a tornar mais férteis toda a espécie de emoções. Por isso, nunca estranhei sentir, nesses dias, a tua falta, atribuía-o sempre à chuva e não lhe dava qualquer importância. Depois, também nos dias de céu nublado, apercebi-me de que o meu cérebro, demasiado pressionado pelo cinzento, deixava que o meu corpo chamasse pelo teu. Baixinho, de forma discreta, mas ainda assim audível se lhe fosse prestada a devida atenção. Surpresa trouxe-me igualmente o azul-escuro do anoitecer (sabes, aquele tom perfeito que serve de requiem ao dia e nos faz pensar que o mundo é um lugar lindo) quando percebi o meu corpo entoar desconhecidas melodias de sedução. O pior chegou quando comecei a sentir também a tua falta nos dias animados pela luz e pelo calor. Começou por ser uma carência discreta, que apenas se insinuava medrosa contra o brilho do sol, mas pouco a pouco foi-se instalando até ouvir o meu corpo enraivecer-se contra o astro: como se atrevia a brilhar tão forte se tu não estavas lá. No fim, mesmo antes de teres decidido que o teu corpo não queria mais o meu, já não havia manhã ou tarde, frio ou calor. Sentia constantemente a tua falta. O meu corpo chamava tão ansioso pelo teu que não podia demorar-me pela rua, tinha de andar rápida e discreta e voltar breve para casa, por receio de que alguém se incomodasse com o barulho. Agora, nos dias de chuva – não daquela chuva miudinha que só arranha um pouco o cérebro e dá mais espaço à inquietude dos sentidos, mas da outra, aquela das bátegas pesadas, que levam na enxurrada todos os arquipélagos de paz e de silêncio – nunca me atrevo a sair. Tranco a porta de casa e apago as luzes na esperança de que os vizinhos e os passantes na rua julguem ter-se enganado ao ouvir o meu corpo gritar tão alto pelo teu.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

uma cidade nova


Descobrir uma cidade nova é como conhecer um amante novo. No primeiro encontro, há um misto de atracção e desconfiança pelo território inexplorado. O sangue corre fervilhante a despertar uma energia e atenção renovada. Brevemente, os pés dão por si a definir satisfeitos caminhos novos, sem sentirem o cansaço. O mapa na mão é só um adereço porque não importa se nos perdermos - ao virar a esquina há sempre algo novo à espera de ser descoberto. Não importa se a chuva cai fria e húmida ou se o sol escalda e amolece. Não importa se é preciso esperar, voltar atrás porque o caminho está errado, demorar meia hora a encontrar o que estava mesmo ali ao lado. Os caminhos ínvios não aborrecem e nem deprimem - são um desafio a conquistar. O dia ou a semana de trabalho é só um intervalo incontornável até ao próximo encontro. Fazem-se planos, definem-se projectos e possibilidades. Os problemas não deixam a marca da aflição ou desconforto; tudo é ultrapassável porque a cidade está lá, à espera de ser desvendada.
Passado o tempo dos encontros felizes e entusiásticos, ela continua lá à espera... E, por isso, deixámo-la esperar, até ao dia ou à semana seguinte, e escolhemos trabalhar, porque o trabalho está atrasado, e escolhemos prolongar o encontro com os amigos, porque a conversa está boa e lá fora a temperatura não convida à aventura. Depois, começamos a ser mais exigentes (demasiado?), e a chuva basta para estragar o dia, e o metro que avaria tem a proporção do desastre, e a rua errada faz-nos barafustar dez minutos sem pausa para a respiração.
Chegado este momento, está preparado o quadro para que o tédio se aproxime, em passos vagarosos, mas determinados, a transportar o sonho para estações de comboios e a desenhar suspiros por uma cidade nova, mais calma ou mais turbulenta, mas nova. À espera de ser desvendada...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

teorias sobre as cores #4 (o negro e o vermelho)

Há dois tons diferentes que pintam (ou com que escolhemos pintar) as nossas vidas: um negro e outro vermelho. O tom negro identifica aqueles dias ou fases em que nos limitamos a existir: comemos, dormimos, respiramos, trabalhamos, mas não podemos exactamente afirmar que vivemos. Acordamos de manhã, levemente aborrecidos, mas conformados com o dia que começa, fazemos o que temos a fazer e depois voltamos para casa. Não nos demoramos pela rua porque na verdade não encontramos muito interesse ou prazer no que quer que seja. Não temos ideias novas e não arriscamos iniciativas. Na fase negra estamos sentados na estação à espera que o nosso comboio (alguém ou alguma coisa) chegue e parta para um qualquer lugar. Não sabemos bem qual, limitamo-nos a estar à espera. Podemos gastar nisto uma vida inteira.
O tom vermelho corresponde à fase em que corremos pelos dias embriagados numa paixão pelas pessoas ou pelas coisas. O cérebro exige pouco descanso e fervilha numa excitação de sugestões e novidades. Sentimo-nos no centro da vida e quase acreditamos ter atado os fios invisíveis dos pedaços soltos do mundo. Julgamos ter decifrado, numa revelação, o sentido íntimo da vida. É também o tom vermelho que pinta a descida ao inferno do sofrimento e da catástrofe, quando gritamos ao mundo, impassível, toda a dimensão do nosso desespero. É impossível viver sempre a vermelho. Ou esbatemos o tom ou somos levados a pôr fim ao jogo de cores.
Feliz e enigmaticamente, a vida concede-nos (quase sempre) uma linha neutra, sem cor, que de algum modo nos permite sustentarmo-nos em equilíbrio entre um e outro tom.

o descanso

(aspecto de uma obra de Rafael Canogar, "el descanso")
Agora peço licença ao mundo para sair na próxima estação. Quero ir para casa. É urgente desligar o interruptor e aninhar-me dentro de mim. Colocar-me em modo de pausa e deixar-me estar, sem existir, apenas embalada pela promessa de um dia novinho em folha, por estrear, que a noite, silenciosa, contém. Fecho os livros, os jornais e os ruídos do telefone e da televisão. Digo às palavras e às ideias que tenham paciência mas vão ter de esperar do lado de fora da porta. Peço a todas as coisas que se detenham por um momento ( se, impacientes, quiserem prosseguir, continuem a girar, tanto me faz).
Hoje não contem comigo, não estou para ninguém... Nem sequer para mim...

domingo, 19 de abril de 2009

"Freedom is not for free"


...E se uma vida tem de ter um sentido, se, repito, o da minha podia muito bem ser este: andar à procura das histórias, para, quem sabe, um dia as escrevinhar...

"... please don't let me be misunderstood"


Muitas vezes dou comigo em desgastantes exercícios mentais de arrependimento sobre as coisas que fiz ou que disse, as opções que tomei, os erros que cometi, as pequenas falhas que podia perfeitamente ter evitado. De uma forma exaustiva (quase maníaca) analiso todos os possíveis caminhos alternativos começados por um “se”. Agrada-me o conforto de perceber que todas as intersecções virtuais teriam conduzido ao ponto A (aqui), aquele em que me encontro. Um dia destes, acabei a lembrar-me de ti. Da palavra "desculpa" que não cheguei a dizer embora ela me ocupasse toda durante os 4, 5 minutos que demora o caminho que percorremos juntos até à estação. É que eu não me sentia culpada e, por isso, a palavra morria afogada na minha garganta. Mas concentrava-me tanto na vontade de desfazer um mal-entendido que (pareceu-me na altura) se tinha criado entre nós que não atinava em fazer afirmações coerentes na conversa de circunstância que escolhemos para encher o tempo daquele percurso, demasiado breve para desfazer mal-entendidos. À despedida, um beijo apressado, daqueles demasiado empenhados em assegurar a indiferença (não fosse eu pensar, não fosses tu pensar). E demasiado apressado para ajudar a desfazer mal-entendidos. Atravessei a minha rua, sem olhar para trás. Tu seguiste o teu caminho, noutra direcção. Entretanto, como nos filmes - a conferir cinzento e fragilidade à personagem -, começou a chover. Apressei-me a entrar na estação e, ao cruzar as portas de vidro (aquelas automáticas que nos dão sempre uma pequena sensação idiota de controlo), a Nina Simone começou a cantar: "I'm just a soul whose intentions are good...". Como nos filmes, exactamente como.
Sabes uma coisa, ainda bem que quatro minutos e meio não chegam para dar explicações ou desfazer mal-entendidos. É que eu não teria sido capaz de explicar. E mesmo que tivesse, tu nunca terias sido capaz de entender.

domingo, 29 de março de 2009

"Esta cidade não é uma cidade. Esta cidade é um vício."



"Para a minha alma eu queria uma torre como esta, assim alta, assim de névoa acompanhando o rio.[...] uma luz desce o rio gente passa e não sabe que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem as nuvens não passem tão alta tão alta que a solidão possa tornar-se humana.


(Jorge de Sena, Metamorfose)


Será que as "minhas coisas" desta cidade cabem em 20 kg de bagagem?


Se couberem, quero levar: as escadas traiçoeiras da casa da música (e aqueles bancos que teimam em fugir-nos do rabo); os Domingos de manhã em Serralves; os jornais nas esplanadas; a cortina vermelha do TNSJ; os rissóis do Capa Negra; as “lambretas” e as pataniscas do Godinho; a luz da minha casa; os jantares no Foz Velha com os amantes caros; a Rua das «Galdérias»; as tardes de inaugurações em Bombarda com lanches tardios no Pimenta Rosa; os jantares no Artemísia com os amantes novos; a névoa do rio (eu sei, esta é de todos); os fins de tarde de patins e as manhãs de Sábado de bicicleta; o sushi do Gosho; a boa frequência daquela esplanada no Edifício Transparente; os croissants da Doce Mar; o riso dos meus amigos; os ciclos de cinema do TCA; as conversas sem fim das minhas amigas…

Se ainda puder ser, a mim, deixo-me ficar para trás… Isto é, deixo os remendos que as más memórias me obrigaram a fazer, varro os ressentimentos e parto livre com uma alma novinha em folha …


sexta-feira, 13 de março de 2009

black bird


Como estava ferido, deixou-se ficar aninhado sob o conforto das suas próprias penas, semi-escondido pela paisagem, a alma atenta, à espera da tonalidade certa de azul do céu, para abrir as asas e voar...

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