quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

"a música do nosso tempo"


Confesso que me sinto bastante frustrada quando ouço os meus amigos animarem-se eufóricos como por nada mais à volta de um bar “fantástico que passa só as músicas do nosso tempo”. Como se nos fosse dado apenas viver verdadeiramente num período delimitado de tempo: aquele entre os últimos anos de faculdade e os primeiros anos de trabalho em que os pais já não mandam em nós (apesar de a maioria continuar a depender deles para tudo) e o mundo está apenas à espera de nos sentir chegar porque pessoas assim inteligentes e especiais, como todos acreditávamos ser, merecem com certeza um lugar de destaque, acima da multidão de insectos indiferenciados.
Às vezes, cometo a imprudência de ir atrás do bar fantáaastico e das músicas do nOSSo tempo, e aí, à frustração acresce uma agonia irritada perante tantos que continuam a pensar que vestir bem é continuar a usar o mesmo estilo de camisas fora dos jeans, pois claro, daquelas marcas em forma de animais (nem sei o que detesto mais se o cavalinho nervoso se aquele estúpido crocodilo sorridente) e tantas que se divertiram imeeeenso só porque beberam um copo e meio e dançaram o tempo todo com as mãozitas acima da cabeça. Antecipo angustiada que a qualquer momento juntem todos os casacos e carteiras num círculo bem protegido e desatem a dançar à volta dele...
Talvez a falha seja minha: não me lembro de ter sentido esse auge de felicidade adolescente ou de jovem adulto descomprometido (fui sempre ansiosa e preocupada). Ou talvez a vida tenha continuado a oferecer-me momentos de felicidade adolescente. Ou, simplesmente, eu não seja saudosista. Ou ainda tenha uma apetência superior à média por novidade. Seja como for, gosto sobretudo de ir a bares que passam as músicas de hoje, o meu tempo. E é um prazer sempre renovado o de descobrir uma sonoridade nova e perguntar a um DJ, nem sempre solícito: “quem são estes”, “nunca tinha ouvido isto antes” para depois correr ao youtube ou à fnac para ouvir melhor e descobrir mais.
O nosso tempo não passou; está aí, à espera de ser agarrado. Por isso, vamos lá: apaixonar-nos outra vez como se fôssemos adolescentes, sem pensar se vai ou não valer a pena; usar t-shirts roxas ou cor de laranjas, sem vergonha; comprar ipods e substituir nos ouvidos james e inxs por the national e arcade fire ou Interpol; mudar de emprego se “não se vive satisfeito”; esquecer aquelas histórias tãao divertidas do passado e construir novas que nos dêem vontade de sair em grupo outra vez; ignorar quem estende aquele dedo que classifica e reduz: “tu antes não eras assim, mudaste muito”. Pois mudar muda-se sempre, para melhor, e “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
Coloquemos pois os “fabulosos anos oitenta” na prateleira a que pertencem: a das coisas passadas. Nos anos oitenta, a união de facto não estava legalizada; não existiam “low costs”, nem telemóveis; não podíamos comprar moda a preço de saldo na H&M e usávamos uns chumaços horríveis, regra geral emparelhados com um calçado de péssimo gosto. Sentemo-nos depois a ouvir o mar desvendar as promessas que traz guardadas para nós. E brindemos ao som de MGMT e Zola Jesus. O Prince há-de perdoar-nos: a chuva púrpura já só molha-tolos.

1 comentário:

  1. Lembras-te da frase que no outro dia comentávamos: "A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro"?
    É de John Lennon!

    Também se pode dizer: "A vida é aquilo que acontece enquanto suspiramos pelo passado"!

    Acho que tens toda a razão! A chuva púrpura já só molha-tolos!!!

    Bjns!!!

    ResponderEliminar