quinta-feira, 21 de abril de 2011

Preciso de beijar-te! (agradeço o envio de instruções sobre como resolver este problema)



Há um beijo nosso em cada rua desta cidade. Há um beijo tímido no bar onde te levei a primeira vez (e que é o meu preferido por filtrar a quantidade perfeita de luz através dos quadrados das janelas). Há vários beijos cá fora, no despudor desatado pelo álcool e pelo desejo. Há beijos pornográficos no vão das escadas do parque subterrâneo. Há beijos sentidos nas esperas dos semáforos. Há beijos apressados nas corridas para o teatro. Há beijos melancólicos nas varandas do fim da tarde. Há beijos frios nas despedidas amuadas. Há um beijo terno no banco de madeira no meio da praça, a imitar os que lá se sentam, à espera que a vida volte ou acabe de uma vez. Há beijos que sabem à cerveja e aos amendoins da esplanada junto ao mar e ao sal das lágrimas que chegam sempre, demasiado breve. Há um beijo nosso dentro dos lençóis, na água do banho, no quiosque dos jornais, na mesa do café, no mercado do peixe. Há o sabor da tua boca em cada caminho da cidade que desfaço.
Bem sei que o amor está saturado que falem sobre ele ou que o usem como justificação para o inexplicável. O amor é um cliché. Está retalhado, desgastado, esventrado por tanta definição, mais ou menos tola, excêntrica ou literária que criaram para ele. Já foi dito que é uma “coisa parva”, uma “perdição”, uma droga, “um lugar estranho”, que é terrível, “um orgulho a mais, outra vaidade”, que não dura para sempre, mas apenas três anos. Já se cantou como seria se fosse um vestido vermelho. Já se imortalizou que é fogo (que, quando arde, não pode deixar de se ver), que é ferida e dor (que dói e que se sente). Já foi inventado em “quarto de hotel com carácter de urgência”. Já se escreveu que é de pé que se ama, “nas ruas, entre o povo”. E também que “o amor não cabe num poema”, porque “é maior do que as palavras”. Já se contaram histórias sobre um clandestino alguém, que morreu de tanto amar.

Mas o amor podia muito bem ser apenas isto: a noite inteira e as ruas de uma cidade qualquer.

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