terça-feira, 19 de junho de 2012

outra vez o tédio



"E decerto que existira um tempo qualquer em que ela estava mais próxima da vida e a sentia de forma mais nítida como se ela lhe passasse pelas mãos ou sobre o próprio corpo; mas desde há muito que esquecera a sensação e só sabia que, desde essa altura, alguma coisa devia ter surgido que a encobria. [...] Deixara de conhecer alegrias intensas e intensos sofrimentos, nada que se destacasse de tudo o resto pela sua notoriedade ou duração, e pouco a pouco ia vivendo de forma cada vez mais indistinta. Os dias escoavam-se, uns iguais aos outros, e os anos chegavam sempre idênticos; na verdade, ela ainda sentia que cada um lhe tirava e acrescentava qualquer coisa, e que neles ela própria se alterava, mas em nada havia nítidos contrastes; tinha um vago e fluido sentimento de si, e quando se buscava, tacteante, no seu íntimo, encontrava apenas a alternância de formas imprecisas e dissimuladas [...] e com tanta frequência uma náusea obstinada se arrastava silenciosa através desse mundo que todos os sentimentos pareciam estar untados com uma máscara de alcatrão."

  A tentação de Verónica, a serena, Robert Musil

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