quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Szymborska


      

       Sei, precisamente, quanto tempo posso permitir aos meus olhos demorarem-se a observar-te, sem que te dês conta disso. Sobes a rua: o passo tranquilo, a pousar seguro nas pedras da calçada; o queixo adiantado, desafiante; a t-shirt negra, a fazer-te mais pálido; o olhar terno, inebriado de imaginação; o pescoço a alongar-se, desdenhoso. Conto os passos que faltam: um, dois, três… Até que atinges o sinal de trânsito (aquele que indica a presença de uma passadeira) e os meus olhos pousam rápida e obedientemente no livro aberto ao lado da chávena de café vazia. Uma brevíssima fração de tempo, uma frase desgarrada a dançar à minha frente («sou quem sou./ Um acaso inconcebível como todos os acasos») e invertemos a posição de sujeito e objeto. Sinto o teu olhar (que adivinho excessivamente confiante) cravar-se-me na pele. É automática esta resposta de retribuirmos a mirada a quem quer que nos observe fixamente, mas aborreço-me com os meus olhos, desobedientes, que se erguem para ti do lá de cá da janela e peço-lhes que, ao menos, se finjam desatentos. Os olhos respeitam o comando da razão, mas a mão, tola, sentindo-se livre, desenha um aceno despropositado.
      Desagrego-me entre uns dentes cerrados, um meio sorriso, uns olhos neutros, um pescoço tenso, uma mão alegre, e um sangue a correr mais rápido. Sou vários corpos diferentes, que não me pertencem... Só por isto, sinto-me derrotada e quero voltar para casa.
      Pelo menos, tenho o prazer de apertar na outra mão (a bem comportada, a que não se anima toda só por te ver), as palavras da Szymborska: «são nove e trinta, hora local./Tudo no seu lugar e em perfeita concórdia».    

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