Agora que cheguei até aqui, sinto-me desorientada e hesito na consecução do meu plano. Não tinha previsto que começasse a chover com tanta força e que o dia se tornasse tão cinzento e estreito. Nunca consegui suportar bem estes dias infelizes em que depois de a muito custo sair da cama ficava a observar os poucos transeuntes na rua, que logo me abandonavam para fugirem apressados para um local abrigado. Não me digam que a chuva é só um detalhe e que se estivesse bem certa do que queria fazer, não seria um pormenor destes que me faria hesitar. Tenho medo desta chuva fria, pesada e cinzenta. E no dia que escolhemos para morrer é imprescindível que tudo se processe conforme planeado, cada gesto, cada passo, é um rito previamente idealizado. A despedida da vida tem de ser solene. Engana-se quem crê que é um ato desesperado. Por desespero, insultam-se os vizinhos, começa-se uma discussão, provoca-se um acidente ou espeta-se uma faca num dedo e fica-se a ver o sangue correr ou grita-se até enrouquecer o nome de alguém que já não mora aqui, mas não limpamos e arrumamos a casa, nem a enchemos de flores, tão-pouco vestimos um vestido novo e conduzimos o carro vinte e cinco quilómetros para junto do mar e não enchemos os bolsos de pedras à procura de um abrigo onde exista paz e silêncio… Aguardo um pouco, talvez pare de chover.
Não, não, nada disto…
A chuva refreia a minha vontade de sair rapidamente para fora do carro. O desconforto deste silêncio é tão sólido que pode agarrar-se com as mãos. Sei que esperas que te diga alguma coisa que nos salve e que possamos voltar para casa como se nada tivesse acontecido, mas não há uma única palavra que sobre para te dizer e concentro-me apenas em afastar com o pensamento a tua mão para que nem chegue a pensar tocar-me. Não suporto o teu cheiro, sempre te disse para não usares tanto perfume e nunca quiseste saber e agora esse cheiro adocicado neste espaço fechado causa-me náuseas. Sinto-me mal aqui dentro, o meu corpo aconchega-se junto da porta e afasta-se o mais possível de ti. Se ao menos parasses de falar – é certo que nunca gostei de te ouvir, sempre te achei moralista e lamuriento. Não quero que sejas delicado comigo, não quero nada de ti. Queria apenas que parasse de chover com tanta força: pelo menos abria a janela e deixava entrar um pouco de ar.
Também não, ainda não é isto…
Era para ser um dia feliz, em família, uma família normal, equilibrada, que faz coisas em conjunto, todos juntos, como as famílias normais. Eu fiz tudo bem: desliguei o telemóvel, deixei-os ouvir a playlist que gostam e fiz um esforço para falar, para dizer coisas que vos possam interessar. Mas vocês não quiseram saber disso para nada, o tempo todo a protestar: «está-se mesmo a ver que vai começar a chover torrencialmente», «porque não dás meia volta já e sempre se aproveita o dia para fazer alguma coisa de útil», «o que viemos para aqui fazer, estava-se tão bem em casa».
E se fosse isto?
Sinto-me bem, aqui, contigo, em silêncio. Tu desenhas e eu não faço absolutamente nada. E será permitido não fazer absolutamente nada? não trabalhar, não ler, não pensar, não aproveitar dois minutos livres para responder a mensagens, nem consultar e-mail... Dou por mim a lembrar-me de Bartleby e do quase heroísmo da sua resposta desconcertante: «I would rather not do it». Fico quieta, a ver a chuva cair e a ouvir o roçagar do teu lápis no papel.
Seja como for, esta imagem muda sufoca-me. E queria tanto saber o que se passa dentro do carro…

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