(aspecto de uma obra patente na exposição "Serralves 2009: a colecção")Através da janela do café que tínhamos escolhido para o nosso encontro, vi-a aproximar-se de mim com o andar elegante e cheio de segurança que tão bem lhe conhecia. Invejei, como sempre, a sensualidade com que flutuava em cima de uns saltos que me teriam feito tropeçar ao segundo passo. Inconscientemente, dei por mim, mais uma vez, a encolher-me no desleixo de quem acredita ter coisas bem mais importantes com o que se preocupar. Da maquilhagem perfeita e do cabelo cuidado, os meus olhos desceram até à mão esquerda estendida em desalento ao longo da elegância do vestido. Vinha aberta, exposta, pintada de vermelho. Percebi, de imediato, pelo modo como aquela mão se abria num vermelho-sangue, que me escolhera, nessa tarde, para desabafar o tumulto interior e pensei, não sem alguma surpresa, que até aí ela nunca me tinha contado nada de verdadeiramente íntimo sobre a sua vida. Aguardei, expectante, sem lhe perguntar porque razão enfeitara o rosto com um sorriso tão postiço. O que me contou não seria surpresa nenhuma, não fosse ser ela a vivê-lo e a contar-mo. Tinha saído de casa nesse dia de manhã bem cedo com uma mala pequena e até àquela hora do fim da tarde não fizera mais do que conduzir desorientada, sem destino. O resto da história é lugar-comum: o marido envolvia-se frequentemente com outras mulheres e ela não aguentava mais olhar para o lado e fingir que não percebia. Pela sua parte, e ainda que já o tivesse pensado muitas vezes, era incapaz de o enganar. Um misto de culpa e de vergonha bloqueava-a e fazia-a retroceder, no último momento.
O desabafo alongou-se do fim da tarde para a noite e depois pela madrugada dentro. Era tarde e eu precisava de voltar para casa, mas cedi-lhe, solícita e paciente, os meus ouvidos. Depois, ofereci-lhe a minha amizade e emprestei-lhe a alegria e a segurança da minha independência. Durante alguns dias, manteve-se muito próxima, mas depois deixei de vê-la durante um período de tempo longo. Quando voltei a encontrá-la, ao lado do mesmo marido, trazia a mesma elegância de sempre, embrulhada num novo sorriso postiço. O braço esquerdo estendia-se ao longo de um vestido novo, mas terminava numa mão fechada, semi-escondida atrás das costas. Cumprimentou-me alegre e tagarelou excitada sobre a última viagem de férias que tinham feito. O marido acenava de quando em quando um gesto afirmativo, mas mantinha um olhar alheado, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. Depois de se despedirem, fiquei ainda a vê-la afastar-se e a cobiçar-lhe a elegância dos saltos altos. Distraída, a mão esquerda abriu-se então por um instante. Tive a certeza de que a vi tão pintada de amarelo como o sorriso, mas agora que penso melhor nisso, talvez tivesse sido apenas uma ilusão criada pela luz intensa do meio-dia.
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