quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Islândia - a última estação


Desembarco com a certeza de ter atingido a última estação antes do fim do mundo: acima do paralelo 66.º só focas e esquimós, já nem as baleias se atrevem. A roçar o círculo polar árctico, situada no meio do Atlântico Norte, a Islândia prenuncia fazer-me passar um mau bocado. O vento agreste e as temperaturas desagradáveis, para quem ainda traz na pele o calor excessivo de um mês de Agosto num país em que o Verão não é só uma palavra, não tardam a fazer-se sentir. A primeira impressão é de desconforto (as mãos e os pés já gelados) e podia jurar que a ilha me observa com a frieza e a distância do jovem amante demasiado belo, demasiado caprichoso, demasiado esquivo... Confio, porém, na promessa de que os meus olhos irão deslumbrar-se com belezas novas: os guias elogiam “as mais impressionantes maravilhas naturais da Europa”.
A paisagem começa por transmitir a inquietude do “deserto”: os olhos perdem-se na distância (e o medo que temos de nos perder), faltam referências, não há construções, não há pessoas (com uma área de 103 000 Km2 e apenas 303 mil habitantes, cerca de 70% dos quais residem na capital, Reykyavik). É preciso olhar e sentir antes de começar a ver. Desisto pois das tentativas para decifrar a vastidão e descortinar um sentido e peço à paisagem que seja o narrador e venha contar-me histórias... As ovelhas atravessam a estrada numa arrogância inconsciente; os cavalos abeiram-se ternos ou nervosos. O céu aproxima-se a exibir um jogo trágico e intenso de nuvens. A luz é deslumbrante e, ao lado da estrada, o oceano acompanha a viagem de automóvel como um espelho reflector. Há poças de lama borbulhante e gases que sobem da terra sem descanso, há quedas de água indomáveis, há paisagens de lava que me fazem suspeitar de que uma força demoníaca se esconde abaixo do solo.


Preparam-se as câmaras fotográficas, ajustam-se as objectivas e ouve-se um clique repetido. Começo hesitante, apuro as técnicas insuficientes que aprendi, observo a partir de várias perspectivas, mas o resultado não satisfaz: a beleza não se deixa aprisionar pela minha lente. O que se contempla é maior do que cinco sentidos e sinto que o país me escapa, misterioso.
Regresso com o sentimento de ter cruzado uma fronteira nova. Os olhos voltam felizes, agradados com o que viram, mas a mente insatisfeita. Sabe que apenas riscou a superfície e que a ilha se despede com a altivez de quem seduz, mas não se deixa conquistar e não desvenda o seu segredo. Disseram-me que quem visita a ilha uma vez regressa repetidamente. Tenho a certeza de que o motivo é este: voltamos sempre aos lugares que não soubemos decifrar.

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