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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

teorias sobre as cores #7 (o desabafo)

(aspecto de uma obra patente na exposição "Serralves 2009: a colecção")

Através da janela do café que tínhamos escolhido para o nosso encontro, vi-a aproximar-se de mim com o andar elegante e cheio de segurança que tão bem lhe conhecia. Invejei, como sempre, a sensualidade com que flutuava em cima de uns saltos que me teriam feito tropeçar ao segundo passo. Inconscientemente, dei por mim, mais uma vez, a encolher-me no desleixo de quem acredita ter coisas bem mais importantes com o que se preocupar. Da maquilhagem perfeita e do cabelo cuidado, os meus olhos desceram até à mão esquerda estendida em desalento ao longo da elegância do vestido. Vinha aberta, exposta, pintada de vermelho. Percebi, de imediato, pelo modo como aquela mão se abria num vermelho-sangue, que me escolhera, nessa tarde, para desabafar o tumulto interior e pensei, não sem alguma surpresa, que até aí ela nunca me tinha contado nada de verdadeiramente íntimo sobre a sua vida. Aguardei, expectante, sem lhe perguntar porque razão enfeitara o rosto com um sorriso tão postiço. O que me contou não seria surpresa nenhuma, não fosse ser ela a vivê-lo e a contar-mo. Tinha saído de casa nesse dia de manhã bem cedo com uma mala pequena e até àquela hora do fim da tarde não fizera mais do que conduzir desorientada, sem destino. O resto da história é lugar-comum: o marido envolvia-se frequentemente com outras mulheres e ela não aguentava mais olhar para o lado e fingir que não percebia. Pela sua parte, e ainda que já o tivesse pensado muitas vezes, era incapaz de o enganar. Um misto de culpa e de vergonha bloqueava-a e fazia-a retroceder, no último momento.
O desabafo alongou-se do fim da tarde para a noite e depois pela madrugada dentro. Era tarde e eu precisava de voltar para casa, mas cedi-lhe, solícita e paciente, os meus ouvidos. Depois, ofereci-lhe a minha amizade e emprestei-lhe a alegria e a segurança da minha independência. Durante alguns dias, manteve-se muito próxima, mas depois deixei de vê-la durante um período de tempo longo. Quando voltei a encontrá-la, ao lado do mesmo marido, trazia a mesma elegância de sempre, embrulhada num novo sorriso postiço. O braço esquerdo estendia-se ao longo de um vestido novo, mas terminava numa mão fechada, semi-escondida atrás das costas. Cumprimentou-me alegre e tagarelou excitada sobre a última viagem de férias que tinham feito. O marido acenava de quando em quando um gesto afirmativo, mas mantinha um olhar alheado, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. Depois de se despedirem, fiquei ainda a vê-la afastar-se e a cobiçar-lhe a elegância dos saltos altos. Distraída, a mão esquerda abriu-se então por um instante. Tive a certeza de que a vi tão pintada de amarelo como o sorriso, mas agora que penso melhor nisso, talvez tivesse sido apenas uma ilusão criada pela luz intensa do meio-dia.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

à janela



- ...mas se já te expliquei que não gosto de ti, ou melhor, não posso gostar de ti, talvez goste, não sei se gosto...
- sabes, o que eu amo mesmo é o amor, tanto me faz o objecto amado...


Quando, curiosa, voltei a cabeça, já não encontrei ninguém à janela.

domingo, 28 de dezembro de 2008

O rancor


Detenho-me a olhar para ti, enquanto despes apressada as várias peças de roupa cara, que agora te habituaste a usar. Dizes-me que não reparo em ti, mas não é verdade. Observo-te muitas vezes. Não desejo é tocar-te. Olho-te e olho-te, mil vezes, insistentemente, a tentar descortinar o que em tempos me deixava tão exaltado, tão perto da plenitude, do centro da vida. Claro que me apercebo de que outros homens te olham e possivelmente te desejam: és ainda uma mulher bonita. Não precisas de me fazer relatos pormenorizados sobre como te tentaram assediar entre o trabalho, o supermercado e o parque infantil, numa tentativa impossível de despertar em mim o que morreu há muito. Tentativa nada subtil, diga-se, (tu que te julgas tão senhora da subtileza feminina): falha tão completamente o alvo que consegue apenas comover-me. Isto é, conseguiria, se eu não fosse este poço de insensibilidade egoísta que tanto gostas de referir. Tento olhar-te através dos olhos desses homens, mas não sou capaz. Estou demasiado habituado a ti, à tua cara zangada, aos teus discursos versão “metralhadora” sobre como isto e aquilo te deixam tão irritada e tão frustrada. Carregas sempre no «tão» com uma força que me assusta. É verdade que sempre me assustaste um pouco: eras mais bonita, mais inteligente, tudo mais do que eu, uma corrente admirável de força e de ideias. A intensidade com que exprimias as tuas opiniões atemorizava-me, mas fascinava-me. Eu sempre fui mais fraco, mais preguiçoso, nisso dou-te razão. Encostei-me à tua força, mas agora falta-me o ar para respirar. Por isso, demoro-me na rua, com mil desculpas inventadas sobre coisas inadiáveis; demoro-me na esplanada ao fim-de-semana a ler o jornal; demoro-me em discussões de bancada depois do jogo de futebol. Inconscientemente, adio sempre o momento de voltar para casa, para a tua fúria… Que diabo! Não se pode viver deste modo, sempre tão zangada com o mundo… Mesmo assim, volto sempre, todas as noites, para ti. Não desejo beijar a tua boca, morder os teus seios ou rejubilar de prazer dentro de ti. Mas preciso do conforto do teu corpo quente deitado ao lado do meu, no desconforto de uma cama demasiado estreita para tamanho rancor.

sábado, 27 de dezembro de 2008

"as promessas que os amantes fazem quando começa a ser tarde demais"


Ele: Eu estou cheio de saudades tuas, a sério. Mas hoje tenho mesmo de trabalhar à noite. Ah, amanhã também... Na quinta ... tenho o jogo de futebol e na sexta ..., na sexta...., o jantar com os meus colegas de Espanha.
Ela: ...

Ela: Eu prometo que vou trabalhar menos horas e dedicar-me mais a ti. É só esta fase, estamos num pico de encomendas. Vou cozinhar mais vezes. Sim, passamos a jantar em casa e a gozar juntos o serão. Vou encenar todas as tuas fantasias.
Ele: ...

Ele: Eu juro que desta vez é a sério. Eu nunca mais te deixo, para perder-me com outra mulher. Tu és a única. A ti, eu amo-te... Claro que não te vejo como a minha "sopeira" ou ama dos nossos filhos. Como podes dizer ou sequer pensar essas coisas?
Ela: ....

"de homem para homem"



O espelho devolve-me uma imagem de força, segurança e dinamismo na figura de um homem ainda suficientemente jovem e elegante para satisfazer a pressão social da imagem.
Forço-me a manter o olhar nessa imagem, nesse homem. Luto com aquele momento de estranheza, sempre algo dolorosa, em que efectivamente nos confrontamos com o nosso reflexo na superfície lisa e percebemos que aquele outro, somos nós.
Detenho-me no olhar cansado e nas marcas negras que o tornam mais sombrio e distante (enigmático, dizem-me elas, quando me oferecem os lábios generosos, num sorriso). Detenho-me na ruga ao cimo do nariz; na marca da ferida mal tratada aos dezasseis anos; orgulho-me da boa forma física.
Fecho os olhos. Deixo de olhar. Não sou capaz de me confrontar com a falha inconfessável, impossível de assumir.
Depois de esgotadas as desculpas do cansaço físico, do excesso de preocupações, da bebida, a crueldade do desespero na resposta ao silêncio dela: «a culpa é tua; só pode ser tua; só me acontece isto contigo»… Ambos sabemos que não é verdade.

"da mentira como uma das belas-artes"


“Tentei recentemente fazer um livro que devia chamar-se L’Homme Menti. Era um homem que mentia. Mentia a todo o tempo a toda a gente sobre os factos da sua vida. A mentira chegava-lhe aos lábios antes das palavras para dizer. Não a sentia passar. Não mentia sobre Baudelaire ou Joyce, e também não era para se gabar ou para fazer com que acreditassem em aventuras que podiam ter-lhe acontecido. Não, nada disso. Mentia sobre o preço de um pulôver, sobre uma viagem de metro, o horário de um filme, um encontro com um amigo, uma conversa que contasse, uma ementa, uma viagem completa, incluindo os nomes das cidades, sobre a família dele, a mãe, os sobrinhos. Aquilo não tinha qualquer espécie de interesse. Ao fim de uns meses habituávamo-nos”.
(Marguerite Duras, L'homme menti, in «A vida material»)
Admito que a verdade é sobrevalorizada. Admito também que a mentira pode ser muito profícua, sempre que piedosa ou, simplesmente, mais fácil de entender. A vilipendiada farsa social representa, com frequência, o lugar de encontro possível. E, reconheçamo-lo, haverá maior egoísmo do que libertar a alma (na hora da morte ou em qualquer outra anterior), destruindo a base de verdade em que o outro (ou outros) se equilibram? O problema, acho, é que as pessoas mentem mal. É demasiado fácil descobrir o engodo (a mentira tem perna curta e etc. e tal). E, depois disso, lá se vai o respeito pelo mentiroso. Eu, que sou quase obcecada pela verdade das coisas (se calhar não tanto por virtude de uma particular afeição moral, mas muito mais devido a uma inabilidade congénita para a arte da falsidade), interrogo-me, frequentemente, sobre o porquê de mentirmos tanto uns aos outros. Temos mesmo necessidade de mentir? A mentira é mais interessante, ou torna-nos mais interessantes, do que a verdade? Precisamos de recriar a nossa vida porque a achamos medíocre ou como uma forma de arte? Se somos únicos, ainda que na nossa mediocridade, porquê mentir e trairmo-nos na única coisa que de facto nos pertence?