
Vasco Pulido Valente é, sem dúvida, um homem culto e um cronista hábil e arguto. Leio, por isso, com elevada frequência e interesse as crónicas publicadas na última página do jornal Público. No Domingo passado, surpreendi-me, porém, com o conteúdo do texto sobre “o futuro do PSD”. De teor que se me afigura ofensivo, a crónica naufraga no lugar-comum. Afirmar-se que Cavaco Silva deixou o partido acéfalo ou policéfalo já foi dito por vários e pelo próprio em outras ocasiões, ou seja, não traz nada de novo e já não tem qualquer actualidade política – não interessa a ninguém. A falta de originalidade seria, porém, recebida com a maior tolerância (o momento político de ressaca dos resultados das eleições legislativas justifica-o, com certeza), não fosse o teor claramente ofensivo com que se refere aos visados. Uns já estão mortos e enterrados (a actual líder é, vá lá, apenas um espécime sob o perigo de extinção), um outro é “uma nulidade enfatuada” e outro ainda dotado apenas de uma “retórica brumosa”, mas sem qualquer qualidade política. Estranhamente, não há sequer uma palavra sobre o vice-presidente do partido: não é digno delas ou feneciam os atributos depreciativos para o designar? O pior está ainda, quanto a mim, em imputar características aos putativos candidatos a líder pela boca de outrem. Não é Vasco Pulido Valente que pensa de Passos Coelho ser este “um Sócrates de segunda”. Não, Manuela Ferreira Leite é que acha que ele é ou diz-se que ela acha que ele é. Sendo certo que não se trata de uma peça jornalística, obrigada a pagar o tributo da isenção e da seriedade das fontes, mas apenas de um artigo de opinião, não é, definitivamente, curial que se lance mão de insultos e muito menos de uma voz sombra de insulto. Criticar, chamar a atenção para o que vai mal por terras lusas (e lá fora) é sempre útil e bem-vindo, exprimir livremente uma opinião sobre uma qualquer matéria também, mas dizer mal só porque sim, já não. Até para Vasco Pulido Valente foi demais. Caiu no engodo de todos os “independentes da própria independência” (expressão recentemente utilizada pelo maestro Vitorino em entrevista televisiva) que disparam à esquerda e à direita: nadam numa excessiva arrogância e vêm morrer à praia do lugar-comum.
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