Os cigarros, fuma-os quase ininterruptos, um atrás do outro (antes de acender o terceiro, ocorre-lhe confirmar se é permitido). As mãos, sempre ansiosas, servem-lhe para esfregar o rosto, como se fosse esse o gesto certo para avivar a memória. A voz é surpreendentemente forte e bonita, a exprimir com clareza e lucidez despretensiosa as suas ideias sobre cinema. Fala-nos dos filmes que fez e vai contando as histórias que se desenrolam por trás da tela, fora do alcance do espectador. Obcecado pela realidade – filma sem guião e sem actores experientes para recortar personagens reais a viverem as vidas que lhes coube em sorte viver – confessa-se afinal um surrealista. Agrada-lhe o cinema como uma experiência. Diz que está sempre à procura de qualquer coisa do lado de cá da câmara e sente-se feliz quando percebe que ao mesmo tempo os seus actores procuram qualquer coisa também, do lado de lá (um sentimento, uma explicação, um encontro). Revela que, por vezes, são mesmo os actores que encontram aquilo de que ele andava à procura e como que foi “Lento”, o companheiro de Ventura, quem lhe sugeriu o final de “Juventude em marcha”. Joga apenas com o espaço, o tempo e a luz. O resultado é um belíssimo conjunto de filmes aclamado pela crítica, nacional e estrangeira.
Não era fã de Pedro Costa e devo confessar que foi apenas a comunicação social a despertar a minha atenção para este realizador. Fui ver, curiosa, o “Ne change rien”, também por causa da actriz filmada - Jeanne Balibar, que me tinha agradado ver, recentemente, em “Le plaisir de chanter”. Assisti a um poema visual lindíssimo, mas a certa altura perdi-me do filme e dei por mim a pensar que faltava alguma coisa, e que as imagens seriam perfeitas, isso sim, em exposição, para serem contempladas ao ritmo do interesse e sensibilidade do visitante e não no tempo demorado, escolhido pelo realizador. Concluo que não tenho a suficiente sensibilidade contemplativa que os filmes de Pedro Costa exigem, mas sinto que têm muito para oferecer e o seu autor mais ainda. Sem dúvida nenhuma, valeu a pena sair de casa ontem ao fim da tarde para ouvir falar o criador e assistir à sessão de lançamento do livro “Cem mil cigarros”, em Serralves. “Cem mil cigarros” reúne um conjunto de textos escritos por críticos, ensaístas e outros realizadores sobre os filmes de Pedro Costa e sobre arte cinematográfica em geral.
O título deste livro sobre o cinema de Pedro Costa surgiu da carta de amor que Ventura vai repetindo, sucessivamente, no “Juventude em marcha”:
Nha cretcheu, meu amor
O nosso encontro torna a nossa vida mais bonita, pelo menos há mais de trinta anos.
Pela minha parte, torno-me mais novo e volto cheio de força.
Eu gostava de te oferecer cem mil cigarros,
uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos,
um automóvel,
uma casinha de lava que tu tanto querias,
um ramalhete de flores de quatro tostões.
Mas antes de todas as coisas
Bebe uma garrafa de vinho do bom,
Pensa em mim.
Aqui o trabalho nunca pára.
Agora somos mais de cem.
No outro ontem, no meu aniversário
Foi altura de um longo pensamento para ti.
A carta que te levaram chegou bem.
Não tive resposta tua.
Fico à espera.
Todos os dias, todos os minutos,
Todos os dias aprendo umas palavras novas e bonitas, só para nós dois.
Mesmo assim à nossa medida, como um pijama de seda fina que tu não queres.
Só posso te fazer chegar uma carta por mês.
Ainda sempre nada da tua mão.
Fica para a próxima.
Às vezes tenho medo de construir esta parede
Eu, com picareta e cimento
E tu, com o teu silêncio
Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento.
Até dói cá dentro ver estas coisas más que não queria ver
O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como as ervas secas.
Às vezes perco a força e juro que me vou esquecer de mim.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
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