terça-feira, 17 de novembro de 2009

o desencanto cinzento dos dias sempre iguais


O tédio acaba sempre, de uma forma ou de outra, por estender à nossa volta uns dedos finos, quase transparentes, mas longos, de cor cinzenta, que se estreitam persistentes a tornar a alma mais pequenina e apertada.

Comecei este blogue confiante que teria, senão todos, pelo menos vários dias na semana, uma história qualquer para contar, ou uma ideia qualquer para assinalar, que me permitisse iludir o tédio. Sempre me disseram que eu conseguia fazer de qualquer banalidade um acontecimento digno de ser relatado. As histórias e as palavras quase sempre me sobraram e chegava mesmo a duvidar sobre o que fazer com elas (às vezes arrumadas nas gavetas, outras penduradas no armário e outras ainda empurradas para o ar frio da noite para que arrefecessem e me deixassem descansar). Desde há já algum tempo, porém, apercebo-me de que as histórias morrem antes de nascerem - ou por falta da vontade, ou por falta do interesse em contá-las. Fechei-me no equilíbrio monótono dos dias sempre iguais. Quando todos se queixam da cor cinzenta que ultimamente pinta os dias na janela, eu nem me importo, porque combina com o que se instalou do lado de cá. Na verdade, os dias cheios de cor desafiam o tédio que eu vejo definir-se para mim deste lado da janela e tornam o meu dia mais insuportável.

Hoje, ao entrar no carro, liguei o rádio a desejar que pelo menos uma música pudesse encantar-me e insuflar cor em mais um dia todo ele feito das coisas que "devem" ser feitas. Podia ser uma música nova, que nunca tivesse ouvido antes, ou uma daquelas muito antigas, a trazer a felicidade da memória de um momento qualquer, talvez então infeliz, mas agora, à distância, a ser capaz de causar a ilusão de uma felicidade. Nem isso, até que o meu dedo acabou por seleccionar a TSF atrás da possibilidade de um "pessoal e transmissível". A sorte do meu lado com o Carlos Vaz Marques a entrevistar a Marília Gabriela que contava uma história desmiolada qualquer e falava do valor que as coisas podem ter não pelo que são, mas pelo encantamento que causam em nós. Dizia ela também que, para não sucumbir ao tédio, precisava de ter, a cada dia, pelo menos uma boa história para contar.

Certamente que isto não contém nada de extraordinário ou sequer de especial, mas a afinidade descoberta com aquela voz da rádio bastou para me animar e colorir com uma minúscula pincelada rosa mais um dos meus dias cinzentos.

4 comentários:

  1. Leio com atenção o que escreves, estórias ou histórias, umas mais eruditas, outras mais sentidas e outras mais banais... em todas torço por ti...

    ResponderEliminar
  2. É curioso que nestes dias de chuva e frio, quando somos empurrados para passar o dia em casa e fugir ao terror dos shoppings, o tédio e o mais cinzeto em nós surgem num ápice. Porquê? Talvez e tal como dizes... sabemos logo á partida que nada de novo vai acontecer.

    Mas, o bom desta história, é que mais um dia passou sem história para contar...

    E será que precisamos sempre de uma história?! Dê-mos descanso aos nossos "problemas".. que não passam de pequenas e infundadas histórias... (pelo menos as minhas ;o)))

    Ana

    ResponderEliminar
  3. Se calhar não precisamos sempre de uma história, mas, definitivamente, de qualquer coisa que dê côr ao dia e intensidade à vida :)

    ResponderEliminar
  4. ;)O "eruditas" traiu-te. Obrigada pelo comentário.

    ResponderEliminar