
Logo à entrada, sente-se forte o cheiro do desânimo e da solidão. Aqui aguarda-se a morte com paciência e a morte parece-se já com isto. Entretém-se o dia a descontar no quadro negro as horas que faltam à vida, enquanto a morte deambula pelos corredores sem que ninguém a estranhe – senta-se com familiaridade nas cadeiras da sala de estar e estende-se confortável nos quartos a observar as fotografias daqueles que já lhe pertencem. Ouvem-se monólogos ininteligíveis e assiste-se a um jogo de gestos lentos, repetidos, sem qualquer objectivo aparente que não o de assegurar-se a si próprio: estás vivo, estás vivo, ainda não és conquista da morte. O olhar murcho e a memória vazia ressuscitam apenas com a promessa de um afago terno de mãos jovens de enfermeira. Ao Domingo (sobretudo ao Domingo) há visitantes apressados que apaziguam a consciência em conversas de surdos.
Quando chego, ele está voltado de costas a olhar o Outono, que amarelece as folhas do castanheiro enorme, do lado de fora da janela. Criança presa no seu pequeno «parque», à espera do fim. Chama-me quatro nomes diferentes, até finalmente acertar no meu. Estranha as perguntas que lhe faço, não reconhece o que lhe conto, mas parece feliz por apertar a minha mão entre as suas e deixo-a ficar. Pergunto-lhe pelo passado, mas o passado já não existe. Pudera, também eu apagaria tudo da memória se tivesse de viver assim parada a lembrar o que não será mais e, pior, o que nunca será pois não cabem mais oportunidades neste palmo e meio de tempo que falta até a vida acabar. A ciência inventou nomes, vários, e explicações para esta amnésia geral da última idade, mas o motivo é simples e claro: lembrar dói demais, seja pelo menos permitido esquecer e vegetar. Pergunto-lhe pelo presente e, afinal, um desejo forte: “se eu pudesse”, o azul dos olhos a acender-se, “se eu pudesse”, repete, “levantava-me e ia-me embora daqui”, um sorriso, quase uma gargalhada (talvez o pensamento do que faria se saísse daqui). “Mas não posso”, a sentença é firme e conformada, sem tristeza ou auto-piedade, “não posso ir-me embora para lugar nenhum”. Criança presa, à espera do fim. E o Outono lá fora, à espera que a Primavera faça tudo verde outra vez. E o cheiro a desânimo e a solidão a acompanhar-me até bem depois da saída.
Quando chego, ele está voltado de costas a olhar o Outono, que amarelece as folhas do castanheiro enorme, do lado de fora da janela. Criança presa no seu pequeno «parque», à espera do fim. Chama-me quatro nomes diferentes, até finalmente acertar no meu. Estranha as perguntas que lhe faço, não reconhece o que lhe conto, mas parece feliz por apertar a minha mão entre as suas e deixo-a ficar. Pergunto-lhe pelo passado, mas o passado já não existe. Pudera, também eu apagaria tudo da memória se tivesse de viver assim parada a lembrar o que não será mais e, pior, o que nunca será pois não cabem mais oportunidades neste palmo e meio de tempo que falta até a vida acabar. A ciência inventou nomes, vários, e explicações para esta amnésia geral da última idade, mas o motivo é simples e claro: lembrar dói demais, seja pelo menos permitido esquecer e vegetar. Pergunto-lhe pelo presente e, afinal, um desejo forte: “se eu pudesse”, o azul dos olhos a acender-se, “se eu pudesse”, repete, “levantava-me e ia-me embora daqui”, um sorriso, quase uma gargalhada (talvez o pensamento do que faria se saísse daqui). “Mas não posso”, a sentença é firme e conformada, sem tristeza ou auto-piedade, “não posso ir-me embora para lugar nenhum”. Criança presa, à espera do fim. E o Outono lá fora, à espera que a Primavera faça tudo verde outra vez. E o cheiro a desânimo e a solidão a acompanhar-me até bem depois da saída.
parabéns! Um verdadeiro retrato dos nossos lares. Que apesar de terem terapia ocupacional, psicologos, animadores ninguém consegue lutar contra esse vazio que aquece a idade ... além da espera dia após dia e do esquecimento de uma vida cheia e agitada. A vida é engraçada em novos queremos um bocadinho de sil~encio e tempo para reflectir e não o temos( o corre - corre do dia-a-dia não nos deixa), em velhos queremos um bocadinho de agitação e o silêncio, desorientação mentém-nos numa cadeira ou cama á espera de algo. LA
ResponderEliminarobrigada :)
ResponderEliminar