quinta-feira, 3 de junho de 2010

"I don't want to get over you"

(peça de Lourdes Castro em Serralves)
Quando se despediram pela última vez, apenas um pouco antes das lágrimas dele, do amuo dela e da teimosia de ambos, ele tinha ainda passeado cinco dedos tristes pelo cabelo dela.
Ela não era particularmente bonita, nem inteligente e nem dotada de qualquer graça especial que lhe abrilhantasse o carácter difícil, mas ele deixara-se prender pela força daquele cabelo negro que se estendia longo pelas costas dela, a dispensá-la de quaisquer outros adornos. Fascinava-o vê-lo espalhado pelos lençóis brancos, onde se deitavam, a clamar desafio e a sinalizar uma guerra que se insinuava constante nos interstícios de união. Encantava-o a harmonia improvável com que dançava ao vento. Muitas vezes, era ele quem lhe lavava o cabelo: afagava-o primeiro com o champô e ficava depois a ver a água do chuveiro torná-lo liso e prendê-lo às costas dela. Sobretudo quando ela não dava conta disso, deliciava-o observá-la pentear-se, com a escova ou só os dedos, e brincar com o cabelo em tranças e rabos de pónei.
Um dia – talvez porque se tivesse habituado a viver assim, em conflito contínuo com a felicidade – ela cortou-o curto, sem lhe dizer nada. “Não sejas pateta, volta a crescer tão rápido quem nem dás conta” explicava impaciente ao olhar de traição magoada que a partir de então ele passou a dirigir-lhe.
Depois da última vez, depois das lágrimas, dos amuos, das teimosias, depois das novas amizades e da invenção dos novos afectos, o cabelo dela tinha voltado a crescer. No entanto, sem que ela conseguisse perceber bem porquê, sempre que lavava ou penteava o cabelo ou até apenas quando dava por si a enrolar distraída as suas pontas, sentia-o presente de um modo surpreendentemente real e a tristeza pousava sobre ela como uma poeira teimosa. Muito tempo (e vários cortes de cabelo) depois, ela ainda não tinha sido capaz de sacudir a poeira que ele depositara nela com o seu último gesto de afago.


1 comentário:

  1. Li várias vezes e, se bem entendi, fiquei assustada. Se somos amadas, as coisas mais simples que fazemos são apreciadas com muita dedicação e carinho. Mas, por vezes e sem darmos por isso, "cortamos" o que mais de simples temos e do que mais simples fazemos...e sem essa simplicidade da vida, perdemos o nosso amor... ele deixou de nos ver.

    Beijinhos
    Ana

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