Quando se despediram pela última vez, apenas um pouco antes das lágrimas dele, do amuo dela e da teimosia de ambos, ele tinha ainda passeado cinco dedos tristes pelo cabelo dela.
Ela não era particularmente bonita, nem inteligente e nem dotada de qualquer graça especial que lhe abrilhantasse o carácter difícil, mas ele deixara-se prender pela força daquele cabelo negro que se estendia longo pelas costas dela, a dispensá-la de quaisquer outros adornos. Fascinava-o vê-lo espalhado pelos lençóis brancos, onde se deitavam, a clamar desafio e a sinalizar uma guerra que se insinuava constante nos interstícios de união. Encantava-o a harmonia improvável com que dançava ao vento. Muitas vezes, era ele quem lhe lavava o cabelo: afagava-o primeiro com o champô e ficava depois a ver a água do chuveiro torná-lo liso e prendê-lo às costas dela. Sobretudo quando ela não dava conta disso, deliciava-o observá-la pentear-se, com a escova ou só os dedos, e brincar com o cabelo em tranças e rabos de pónei.
Um dia – talvez porque se tivesse habituado a viver assim, em conflito contínuo com a felicidade – ela cortou-o curto, sem lhe dizer nada. “Não sejas pateta, volta a crescer tão rápido quem nem dás conta” explicava impaciente ao olhar de traição magoada que a partir de então ele passou a dirigir-lhe.
Depois da última vez, depois das lágrimas, dos amuos, das teimosias, depois das novas amizades e da invenção dos novos afectos, o cabelo dela tinha voltado a crescer. No entanto, sem que ela conseguisse perceber bem porquê, sempre que lavava ou penteava o cabelo ou até apenas quando dava por si a enrolar distraída as suas pontas, sentia-o presente de um modo surpreendentemente real e a tristeza pousava sobre ela como uma poeira teimosa. Muito tempo (e vários cortes de cabelo) depois, ela ainda não tinha sido capaz de sacudir a poeira que ele depositara nela com o seu último gesto de afago.
Ela não era particularmente bonita, nem inteligente e nem dotada de qualquer graça especial que lhe abrilhantasse o carácter difícil, mas ele deixara-se prender pela força daquele cabelo negro que se estendia longo pelas costas dela, a dispensá-la de quaisquer outros adornos. Fascinava-o vê-lo espalhado pelos lençóis brancos, onde se deitavam, a clamar desafio e a sinalizar uma guerra que se insinuava constante nos interstícios de união. Encantava-o a harmonia improvável com que dançava ao vento. Muitas vezes, era ele quem lhe lavava o cabelo: afagava-o primeiro com o champô e ficava depois a ver a água do chuveiro torná-lo liso e prendê-lo às costas dela. Sobretudo quando ela não dava conta disso, deliciava-o observá-la pentear-se, com a escova ou só os dedos, e brincar com o cabelo em tranças e rabos de pónei.
Um dia – talvez porque se tivesse habituado a viver assim, em conflito contínuo com a felicidade – ela cortou-o curto, sem lhe dizer nada. “Não sejas pateta, volta a crescer tão rápido quem nem dás conta” explicava impaciente ao olhar de traição magoada que a partir de então ele passou a dirigir-lhe.
Depois da última vez, depois das lágrimas, dos amuos, das teimosias, depois das novas amizades e da invenção dos novos afectos, o cabelo dela tinha voltado a crescer. No entanto, sem que ela conseguisse perceber bem porquê, sempre que lavava ou penteava o cabelo ou até apenas quando dava por si a enrolar distraída as suas pontas, sentia-o presente de um modo surpreendentemente real e a tristeza pousava sobre ela como uma poeira teimosa. Muito tempo (e vários cortes de cabelo) depois, ela ainda não tinha sido capaz de sacudir a poeira que ele depositara nela com o seu último gesto de afago.
Li várias vezes e, se bem entendi, fiquei assustada. Se somos amadas, as coisas mais simples que fazemos são apreciadas com muita dedicação e carinho. Mas, por vezes e sem darmos por isso, "cortamos" o que mais de simples temos e do que mais simples fazemos...e sem essa simplicidade da vida, perdemos o nosso amor... ele deixou de nos ver.
ResponderEliminarBeijinhos
Ana