quarta-feira, 1 de setembro de 2010

regressar. partir.



Regressar. ao mesmo lugar das facas na cozinha. à mesma vista da janela. àquele maço inamovível de papéis desarrumados. ao barulho antigo, se bem que os vizinhos novos, do andar de cima. as mesmas contas na caixa do correio. os mesmos nomes no telemóvel. o mesmo silêncio do fim de tarde. a velha necessidade de comprar uma carpete, de pintar as paredes de outra côr, de montar mais prateleiras. o mesmo programa de pré-lavagem da louça. os mesmos sacos de lixo. a mala ainda aberta, cheia de coisas que ilusionam a estabilidade da chegada a atardarem o regresso à gaveta de sempre. Onde cabe a diferença entre aquilo que éramos (antes de partir) e aquilo que somos agora (depois de regressar)? Sobra pela casa, a atrapalhar os passos no corredor e a desarrumar prateleiras, a tornar feia a sala-de-estar.
Felizmente, o odor salgado do mar a prometer que um dia (certamente que um dia) compro um bilhete só de ida e atraso tanto o regresso que, quando este chegar, já vai ter o sabor de partida.

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