
Ele gostava de objectos, gostava de os coleccionar e gostava de os exibir (o seu carro; os seus óculos de sol; os seus quadros; as suas músicas; a sua colecção de relógios), cioso do impacto que exerciam sobre os outros. Ela gostava sobretudo de palavras, gostava de as ler, de as escrever, de as ver representadas ou até apenas expostas em prateleiras à espera de serem lidas.
Ele, quando falava, era porque considerava útil ou importante dizer alguma coisa. Ela, quando falava, era porque as palavras lhe ocupavam demasiado espaço dentro do peito e precisava de as fazer sair pela boca. Mas ambos gostavam de estar em silêncio e percebiam a desnecessidade de encher o espaço de palavras escusadas. Bastava a cidade, intensa, vibrante, viciosa, e quase sempre em proscénio.
Ele gostava de velocidade. Ela não. Ele confiava na sua própria atenção e vigilância, mas sentia-se perdido no caminho novo que ousava agora experimentar. Ela tinha medo de tudo e duvidava continuamente de si própria, mas percorria consciente e confiante o caminho que tinha escolhido.
Ele era um homem e ela era uma mulher. E isto, só por si, fixa fronteiras. É um princípio e é um fim.
Entre os dois, um desejo forte, quase palpável, a preencher o ar e a iludir fronteiras...
Sem comentários:
Enviar um comentário