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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ele, as coisas dele e um bocadinho dela



Ele gostava de objectos, gostava de os coleccionar e gostava de os exibir (o seu carro; os seus óculos de sol; os seus quadros; as suas músicas; a sua colecção de relógios), cioso do impacto que exerciam sobre os outros. Ela gostava sobretudo de palavras, gostava de as ler, de as escrever, de as ver representadas ou até apenas expostas em prateleiras à espera de serem lidas.
Ele, quando falava, era porque considerava útil ou importante dizer alguma coisa. Ela, quando falava, era porque as palavras lhe ocupavam demasiado espaço dentro do peito e precisava de as fazer sair pela boca. Mas ambos gostavam de estar em silêncio e percebiam a desnecessidade de encher o espaço de palavras escusadas. Bastava a cidade, intensa, vibrante, viciosa, e quase sempre em proscénio.
Ele gostava de velocidade. Ela não. Ele confiava na sua própria atenção e vigilância, mas sentia-se perdido no caminho novo que ousava agora experimentar. Ela tinha medo de tudo e duvidava continuamente de si própria, mas percorria consciente e confiante o caminho que tinha escolhido.
Ele era um homem e ela era uma mulher. E isto, só por si, fixa fronteiras. É um princípio e é um fim.
Entre os dois, um desejo forte, quase palpável, a preencher o ar e a iludir fronteiras...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

"Now is the only time I know"


Ele: Acho que devíamos deixar passar algum tempo...
Ela:...
Ele: Não dizes nada?
Ela: (lentamente e a marcar com precisão os "r" das palavras) És capaz de te aperceber do absurdo contido nessa afirmação?
Ele: ???
Ela: O tempo passa, quer deixemos, quer não. E duvido que se incomode em pedir-nos licença. (sorri e levanta-se do banco onde ambos estão sentados). Eu recuso-me a dar tempo ao tempo. Recuso-me a dar ao tempo algo que ele já tem e que me rouba continuamente, a cada momento que passa.
Ele: !!!
Ela: (volta-se para ele ainda, mesmo antes de se afastar) Sorry boy, but "NOW" is the only time I know!

(http://www.youtube.com/watch?v=R3XkZbVB2qw)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

a warning


You and me
Billy Wilder and Cary Grant
a red blanket and a rainy day
a french poem and a noisy phone
a nice pasta and a great wine
a flirting line (can't think of anything better to do on a Sunday than preparing you dinner) and a warning: don't go thinking that I'm a nice girl...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

«seliha»


contigo aprendi:
a importância de um sorriso;
o erotismo das palavras que não sabemos o que significam;
a dizer «neshika» em vez de beijo;
o exílio dos que "não querem ter nada a ver com aquilo";
a importância da ternura nas palavras que sabemos o que significam;
a força da ingenuidade das coisas simples...

falta-me aprender a dizer "desculpa" na tua língua... tudo porque eu queria encontrar um herói que não se conforma em vez de alguém que só deseja ser feliz...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Amnésia


Para onde vão as coisas que nos fogem da memória?

domingo, 4 de janeiro de 2009

a musa e o inferno


(há algum tempo atrás, este poema foi-me enviado; por algum motivo que desconheço, terá sido associado à minha pessoa)

A Musa

Quando tarde na noite te esperei,
Com toda a vida presa por um fio.
Oferecendo a minha juventude, liberdade, glória,
À minha convidada de flauta na mão.
Então chegas.
Pousas o casaco,
E olhas para mim com firmeza.
Perguntei-te: "Ditaste a Dante As páginas do Inferno?"
Respondes: "Sim, fui eu. "
(Anna Akhmatova)

domingo, 28 de dezembro de 2008

tarde demais


Isto não funciona e eu estou cansado. Respeito-te, admiro-te até. Na verdade, estou apaixonado por ti. Por isso, não te peço para mudar. Acho-te perfeita assim como és. Mas se calhar tens razão quando dizes que eu quero uma dona-de-casa, que espere por mim todas as noites com o jantar pronto... Talvez um dia mais tarde ... Mas neste momento és um problema, és mais uma exigência que eu não consigo satisfazer...
Ela ainda o alertou: um dia mais tarde será tarde demais.

(pelo menos, nesta história, houve sinceridade de parte a parte e não ficaram dúvidas quanto ao porquê do fim)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A ervilha

- Desculpa, mas não dá. Sinto-me como uma ervilha, encostada, ao abrigo do vento.
Um olhar entre o arreliado e o surpreendido. Eu referia-me à «tisana» n.º 15 da Ana Hatherly [Era uma vez duas ervilhas que estavam encostadas uma à outra porque nesse dia estava muito vento e estando elas cansadas de rolar desejavam ficar onde estavam. Por isso se encostavam uma à outra fazendo muita força para não se separarem. Nesse momento passou um mergulhão.], mas ele não podia saber. Talvez por passar demasiado tempo sozinha, falava mais para mim do que para os outros. Por isso não percebiam o que eu dizia. Eles gostavam disso. Achavam-me enigmática. Mas não era verdade. Eu era simplesmente presunçosa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"sweet november"


O que ela pensou depois do fim: um mês é o período de tempo perfeito para este tipo de estórias, suficientemente longo para ter significado e suficientemente curto para evitar problemas.

O que ela ainda pensou depois disso:
"Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Perder uma coisa é muito triste [...] Encontrar. Perder. [...] o que é a perda? Não é apenas a negação desse generoso instante que vem preencher uma espera [...]. Porque entre esse instante e a perda há sempre aquilo que se chama - muito desajeitadamente, concordo - a posse.
Ora, a perda por mais cruel que seja não pode nada contra a posse, completa-a se assim quiserem; afirma-a; no fundo, é apenas uma segunda aquisição, completamente interior desta vez e muito mais intensa."
(Rainer Maria Rilke, Mitsou)