sábado, 3 de setembro de 2011

«Adeus»



A nossa história construiu-se sem palavras; germinou na epiderme (naquele lugar incógnito de que só nos lembramos que existe quando voltamos a senti-lo estalar desde dentro) e desenhou-se à flor da pele. Quando não há palavras a ocupar o espaço intermédio, feito corpo e sangue fervente, também não há fracturas feitas distância e abismo. Chegado o tempo da flor da pele murchar, igualmente não há palavras a roubar um do outro e fazer suas (“tu disseste que” e “não tu é que disseste”) ou a guardar na mala antes de partir (“nunca me disseste que”)... Na verdade, nem sequer há partir. Há apenas não voltar, porque não sobra aquela palavra final estremecida na traqueia, empurrada aos tropeções no palato mole para ser enrolada pela língua e finalmente acabar amordaçada entre o maxilar superior (o da raiva) e o maxilar inferior (o da melancolia).

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