sábado, 3 de setembro de 2011

"...a rose-red city half as old as time..."



Petra tem a força de atracção de um segredo por revelar. A história e a geografia alimentam o mistério do lugar; a imaginação do viajante romântico faz o resto...
Caída em ruína, a cidade escavada na pedra, outrora centro de uma esplêndida civilização, ficou perdida ou esquecida do mundo até que um explorador de nacionalidade suiça e nome Johann Burckhardt veio redescobri-la em 1812. Disfarçado de peregrino árabe (tornando-se um dos primeiros agentes infiltrados de que há memória), Burckhardt fingiu querer sacrificar uma cabra de modo a transpor a cidade mística de cujas extraordinárias relíquias teria ouvido falar. Desde então, o mistério da sua história (Petra terá sido capital dos Nabateus, povo politeísta e discutivelmente nómada, depois anexada pelo império romano e possivelmente abandonada devido a frequentes tremores de terra) e da sua extraordinária beleza (pelos belíssimos túmulos e monumentos vivificados com surpreendente mestria a partir da pedra de uma região hostilmente árida) tem cativado hordas de investigadores, arqueólogos e turistas.
A descida do Siq (fissura entre duas montanhas) é ansiosa a antecipar a prometida revelação de algo maravilhoso, feita ao som de cascos de cavalos que transportam viajantes numa corrida sem fim. [Os outros viajantes odiámo-los a todos: preferíamos o silêncio do segredo a guardar-se só para nós]. A fissura estreita ladeada pelas elevadas paredes (100m) fomenta um leve receio angustiado de quem se sente observado sem conseguir observar e acentua a impressão de que entramos em lugar secreto, separado do resto do mundo. No fim do caminho, a vista do edifício chamado Tesouro do Faraó (El Khazneh) vai além da expectativa. Sentamo-nos atentos a sentir a emoção despertada pela arquitectura fascinante e a deixar crescer a necessidade imperiosa de percorrer todo o espaço. Ambição impossível para um dia só (Petra espalha-se por cerca de 12 km), mas ainda é manhã, e por isso confiamos no desejo e adiamos as necessidades físicas mais básicas.


Infelizmente, mesmo em época baixa, a impressão de que ocupamos um cenário hollywoodesco e não tanto de História antiga vai estando presente ao longo do dia: tendas montadas para alimentar as equipas (não cinematográficas, mas turísticas); guias a lembrar Johny Depp - sem dentes, é certo, mas com aproximada habilidade no charme; um movimento ininterrupto de cavalos e camelos a misturar trajes tradicionais com chapéuzinhos para proteger a cabeça das queimaduras solares e equipamento fotográfico da mais elevada tecnologia. Enfim, mais perto do que será Hollywood preparada para filmar uma fita de época do que provavelmente seria o mundo antigo.






Esgotámo-nos nas subidas atrás da vista transcendental, mas o nevoeiro brinca connosco às escondidas e o que me ocorre não é o mistério dramático da História, mas o reclame de publicidade ("aqui vou ser feliz")... gritado ao eco, a surpreender guias, vendedores e turistas - ainda assim, sempre impossível afugentá-los ou proceder como se não existissem. Mas quem não se perder em palhaçadas e estiver atento ao murmúrio da História conseguirá ouvir o canto e os rituais de sacrifício das antigas populações como também o resfolegar dos cavalos a arrastarem caravanas para outras paragens.








E o segredo? O segredo está semi-revelado nas reentrâncias ou cavernas que ladeiam o caminho e oferecem a vista interior de improváveis e sobretudo inigualáveis pedras multi-coloridas, e escondido atrás dos monumentos e da natureza rosa-avermelhada. E está guardado dentro de cada um que visita a cidade e para sempre fica impedido de revelá-lo a quem quer que seja...



(o verso do título é de John william Burgon e foi escrito em 1840)


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