Estás sentado à minha frente, tão perto que quase posso
acompanhar a tua respiração. Se esticasse o braço poderia afagar-te os caracóis
do cabelo e se me inclinasse um pouco poderia murmurar-te ao ouvido como estou
feliz por ver-te aqui, depois de tanto tempo. Em vez disso, amarro o meu braço
com firmeza na cadeira: tenho medo que possa ganhar vida própria e escapar ao
meu controlo. Respiro fundo, fecho os olhos e aperto com força a mão no braço
de madeira. Os nós dos dedos tornam-se brancos e salientes. Aperto um pouco
mais e ainda mais até sentir dor, uma dor física que me mantenha presa ao lugar
e que amorteça a mágoa que não sei onde guardar. Sinto o peso de tudo o que não
existe entre o meu braço e o teu cabelo, a minha boca e o teu ouvido. Não és
meu e nunca serás.
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Paixão
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