terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

por motivo de um silêncio improvável


Nós habitamos um 3.º andar de um prédio situado mesmo no centro do trânsito impossível de uma cidade que nunca apaga a luz para descansar. No começo, quando nos mudámos para aqui, passámos muitas horas preguiçosas embalados pelo barulho da rua (as buzinas inquietas sobre duas ou quatro rodas, os pregões dos vendedores nos dias de feira, as sirenes da violência ou do infortúnio). Encontrávamos um consolo enorme em sentir dessa forma o mundo exterior que entrava pela janela, mas não tocava o nosso mundo pequenino, feito de segredos, de muitos silêncios e de um desejo imenso. Por isso, estranhei o silêncio improvável vindo lá de fora. Mas, na verdade, foi só muito depois que pensei nisso. Naquele fim de tarde, todos os meus sentidos se dirigiam para os ruídos dentro do nosso quarto, da nossa casa: o barulho da mala, a descer da prateleira de cima do armário; as gavetas a abrirem-se e a fecharem-se; o praguejar da mão contra um objecto inesperado e agressivo no meio do seu caminho; o éclair da bolsa de produtos de higiene a fechar-se, a porta do armário a fechar-se, a mala a fechar-se; as rodinhas a passarem pela minha frente na sala, acompanhadas do comentário cruel (sim, cruel) - "pensei que odiasses o canal de desporto" - porque sabes que a televisão é só um pretexto para ficar aqui sentada no sofá sem existir; a porta da rua a abrir-se e a fechar-se, com a força de uma declaração final.
Depois de saíres, continuou o silêncio lá fora (mas foi só bem mais tarde que me apercebi disso). Talvez porque o meu coração, descompassado, tivesse a força de uma orquestra. Tive de segurá-lo bem firme, com as duas mãos, para que não saísse a correr atrás de ti, e afagá-lo, com suavidade, num murmúrio: "agora basta, sossega, chega de correr. agora é tarde demais para tudo, até para as lágrimas".
Já quase nascia um sol indiferente quando eu me dei conta da improbabilidade do silêncio e, finalmente, adormeci embalada pelo barulho das buzinas impacientes (sobre duas ou quatro rodas), da canção desafinada dos últimos bêbedos e da ansiedade do primeiro pregão matinal.

2 comentários:

  1. Por ti dei voz
    às minhas mãos
    abri os gomos do tempo
    assaltei o mundo
    e pensei que tudo estava em nós
    nesse doce engano
    de tudo sermos donos
    sem nada termos


    Mia Couto, «Para ti»

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  2. Li este texto num blog. Só espero que a autora não me leve a mal... mas adorei e acho que tem tudo a ver.

    "À espera de ti...

    Eu era apenas uma miúda quando te conheci, a cabeça cheia de sonhos e a ingenuidade própria de quem acha que pode mudar o mundo. Não mudei o mundo, mas o meu mundo mudou ao cruzar-me contigo.
    A porta estava destrancada, só tiveste que empurrá-la um pouco para te fazeres anunciar. Passaste por acaso (ou talvez não), mas nas minhas convicções mais profundas, tu chegaste porque te esperava (sim, porque havia muito que te chamava, mesmo sem saber quem eras). Sempre fui muito intuitiva e mal te vi chegar, reconheci-te e pronto, não foi preciso mais nada, muito menos consultar a razão. Eu acreditava em anjos, lembras-te!? Quem é que precisa de razão quando acredita em anjos!?
    Prometeste-me o sol mas deixaste-me a escuridão: partiste tão depressa como chegaste, nem me deste tempo de te conhecer na realidade, não me deste sequer o tempo necessário para trancar a porta; deixaste-me à mercê… à mercê! Chorei e assim, distraída, deixei fugir os anjos.
    Agora, graças a ti e ao tempo que tudo cura mas nada apaga, conquistei o estatuto de mulher madura, oficializado por um estado civil que até me protege e resolvi fechar a porta por minha auto-recriação, não por ter-me cansado de te esperar mas porque não suportava o barulho da espera… Mal sabes tu, mal sei eu que dentro de mim ainda vive aquela miúda, amordaçada pelas memórias de um sonho perfeito que todos os dias me esforço para que morra, definhado pela tua ausência.
    Enfim, descobri o silêncio: o teu e o meu; um silêncio que é maior dentro de mim do que quando te calas. Os dias em que me sinto melhor sozinha estão a prolongar-se porque os encho com os meus vazios. Os meus vazios preenchem-me, dão-me espaço para ser eu e também para imaginar que ainda estás aí; que um anjo te agarrou pelos colarinhos e te trouxe de volta…"

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