terça-feira, 12 de maio de 2009

"Eu bebo para ser capaz de chorar"


No sábado à noite, enquanto esperava o S-bahn de regresso a casa, por entre a confusão de uma massa de jovens e de não tão jovens, invariavelmente de garrafa de cerveja na mão, deparei-me com esta confissão: "eu bebo para ser capaz de chorar". Parangona de primeira página do jornal daquele que (para todos os que enchíamos a estação) seria o dia seguinte, tal declaração era atribuída a uma alcoólica de 13 anos. Desde então estas palavras martelam-me a cabeça. Que escritores (e outros artistas) gabem as virtualidades do álocool para exaltar o sofrimento e a este recorram como fonte de criação artística, até se pode muito bem compreender e aceitar; que se beba para festejar ou para esquecer as amarguras, também passa, mas que aos 13 anos alguém sinta necessidade de se alcoolizar para sentir alguma espécie de emoção é, para mim, perturbador. Aos 13 anos, se a memória não me engana, eu nunca tinha sequer bebido álcool. Chorava muito e ria-me muito, numa transição indecifrável entre um e outro estado, sem motivo, como qualquer adolescente, mas não precisava de muleta.
O alcoolismo na infância e adolescência não é recente. Quem ensinou em escolas de meios socialmente menos favorecidos conhece-o de certeza, mas o objectivo era então o de esquecer o frio, o cansaço e as violentas surras dos progenitores. Não para ser capaz de sentir. Ou de chorar.

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