Há dois tons diferentes que pintam (ou com que escolhemos pintar) as nossas vidas: um negro e outro vermelho. O tom negro identifica aqueles dias ou fases em que nos limitamos a existir: comemos, dormimos, respiramos, trabalhamos, mas não podemos exactamente afirmar que vivemos. Acordamos de manhã, levemente aborrecidos, mas conformados com o dia que começa, fazemos o que temos a fazer e depois voltamos para casa. Não nos demoramos pela rua porque na verdade não encontramos muito interesse ou prazer no que quer que seja. Não temos ideias novas e não arriscamos iniciativas. Na fase negra estamos sentados na estação à espera que o nosso comboio (alguém ou alguma coisa) chegue e parta para um qualquer lugar. Não sabemos bem qual, limitamo-nos a estar à espera. Podemos gastar nisto uma vida inteira.O tom vermelho corresponde à fase em que corremos pelos dias embriagados numa paixão pelas pessoas ou pelas coisas. O cérebro exige pouco descanso e fervilha numa excitação de sugestões e novidades. Sentimo-nos no centro da vida e quase acreditamos ter atado os fios invisíveis dos pedaços soltos do mundo. Julgamos ter decifrado, numa revelação, o sentido íntimo da vida. É também o tom vermelho que pinta a descida ao inferno do sofrimento e da catástrofe, quando gritamos ao mundo, impassível, toda a dimensão do nosso desespero. É impossível viver sempre a vermelho. Ou esbatemos o tom ou somos levados a pôr fim ao jogo de cores.
Feliz e enigmaticamente, a vida concede-nos (quase sempre) uma linha neutra, sem cor, que de algum modo nos permite sustentarmo-nos em equilíbrio entre um e outro tom.
Sem comentários:
Enviar um comentário