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sábado, 3 de setembro de 2011

"...a rose-red city half as old as time..."



Petra tem a força de atracção de um segredo por revelar. A história e a geografia alimentam o mistério do lugar; a imaginação do viajante romântico faz o resto...
Caída em ruína, a cidade escavada na pedra, outrora centro de uma esplêndida civilização, ficou perdida ou esquecida do mundo até que um explorador de nacionalidade suiça e nome Johann Burckhardt veio redescobri-la em 1812. Disfarçado de peregrino árabe (tornando-se um dos primeiros agentes infiltrados de que há memória), Burckhardt fingiu querer sacrificar uma cabra de modo a transpor a cidade mística de cujas extraordinárias relíquias teria ouvido falar. Desde então, o mistério da sua história (Petra terá sido capital dos Nabateus, povo politeísta e discutivelmente nómada, depois anexada pelo império romano e possivelmente abandonada devido a frequentes tremores de terra) e da sua extraordinária beleza (pelos belíssimos túmulos e monumentos vivificados com surpreendente mestria a partir da pedra de uma região hostilmente árida) tem cativado hordas de investigadores, arqueólogos e turistas.
A descida do Siq (fissura entre duas montanhas) é ansiosa a antecipar a prometida revelação de algo maravilhoso, feita ao som de cascos de cavalos que transportam viajantes numa corrida sem fim. [Os outros viajantes odiámo-los a todos: preferíamos o silêncio do segredo a guardar-se só para nós]. A fissura estreita ladeada pelas elevadas paredes (100m) fomenta um leve receio angustiado de quem se sente observado sem conseguir observar e acentua a impressão de que entramos em lugar secreto, separado do resto do mundo. No fim do caminho, a vista do edifício chamado Tesouro do Faraó (El Khazneh) vai além da expectativa. Sentamo-nos atentos a sentir a emoção despertada pela arquitectura fascinante e a deixar crescer a necessidade imperiosa de percorrer todo o espaço. Ambição impossível para um dia só (Petra espalha-se por cerca de 12 km), mas ainda é manhã, e por isso confiamos no desejo e adiamos as necessidades físicas mais básicas.


Infelizmente, mesmo em época baixa, a impressão de que ocupamos um cenário hollywoodesco e não tanto de História antiga vai estando presente ao longo do dia: tendas montadas para alimentar as equipas (não cinematográficas, mas turísticas); guias a lembrar Johny Depp - sem dentes, é certo, mas com aproximada habilidade no charme; um movimento ininterrupto de cavalos e camelos a misturar trajes tradicionais com chapéuzinhos para proteger a cabeça das queimaduras solares e equipamento fotográfico da mais elevada tecnologia. Enfim, mais perto do que será Hollywood preparada para filmar uma fita de época do que provavelmente seria o mundo antigo.






Esgotámo-nos nas subidas atrás da vista transcendental, mas o nevoeiro brinca connosco às escondidas e o que me ocorre não é o mistério dramático da História, mas o reclame de publicidade ("aqui vou ser feliz")... gritado ao eco, a surpreender guias, vendedores e turistas - ainda assim, sempre impossível afugentá-los ou proceder como se não existissem. Mas quem não se perder em palhaçadas e estiver atento ao murmúrio da História conseguirá ouvir o canto e os rituais de sacrifício das antigas populações como também o resfolegar dos cavalos a arrastarem caravanas para outras paragens.








E o segredo? O segredo está semi-revelado nas reentrâncias ou cavernas que ladeiam o caminho e oferecem a vista interior de improváveis e sobretudo inigualáveis pedras multi-coloridas, e escondido atrás dos monumentos e da natureza rosa-avermelhada. E está guardado dentro de cada um que visita a cidade e para sempre fica impedido de revelá-lo a quem quer que seja...



(o verso do título é de John william Burgon e foi escrito em 1840)


sexta-feira, 13 de maio de 2011

"simpatia é quase amor"



- Oi moça, hesita não, fica aqui, esse é o melhor ponto da praia! Porque é que acha que é aqui que eu estou? (cariocas são directos)
Eu caminhava sem sentido ou direcção, fascinada com a explosão de espuma que o mar («de ressaca», como se diz por estas bandas) deixava a estremecer no ar de cada vez que embatia com raiva na areia e com a beleza vibrante de uma inigualável mistura de verde azul e dourado. Caminhar sem destino não é andar à procura ou estar perdido, mas a diferença nem todos a entendem e estava demasiado calor para explicá-la a um desconhecido de pele morena e sorriso de Verão. Fiquei naquele mesmo sítio; estendi a toalha e instalei-me.
- Se precisar de alguma coisa – água de coco; suco; cadeira – é só pedir. Se for preciso eu vou mesmo lá em casa e trago o meu sofá da sala p’ra você… (cariocas são bacanas)
Respondi, divertida, com um sorriso aberto. Inspeccionei o mar e a força das vagas, medi a distância e decidi subir um pouco a toalha na extensão de areia.
- Não se preocupa não moça, o mar não vai chegar aqui; pode ler seu livro sossegada, eu estou de olho em você (cariocas são espertos).
- Agora eu vou jogar futevólei, estão me chamando, mas eu estou de olho em você, qualquer coisa é só chamar.
Foi-se e não voltou aquele exemplar de criatura rara que vive quase nua pela praia a beber água de coco e a exibir um corpo bem torneado em desportos aqui mesmo germinados e praticados desde o tempo de seus avós.
Impossível não simpatizar imediatamente com a cidade e os seus habitantes. Onde mais esta energia para festa, esta alegria de saber viver? Que ideia ou problema bafiento pode competir com um dia assim de sol omnisciente? Neste lugar, que a geografia fez maravilhoso, o Verão não marca apenas uma saison - dura o ano inteiro, sem princípio nem fim - é uma maneira de ser. Democraticamente ao alcance de todos os que cá vivem e de todos os que por cá passam.
Deambulo da calçada para o coração de Ipanema, empenhada em refazer os passos de poetas e de músicos destes e de outros tempos e esperançada em cruzar-me com a carne e os ossos de Chico ou Caetano ou com o espírito de Tom e de Vinícius. Lembro-me outra vez da canção, uma das mais famosas do mundo, e de como a beleza é, de facto, redentora.
Observar. Caminhar. Deixar que seja o acaso, e não o mapa, a levar-nos de encontro ao que procurávamos ou ao que já estava ali à nossa espera. Escondo-me entre os que passam e confundem-me com uma verdadeira carioca em perguntas que às vezes já sou capaz de responder: “é por ali, duas quadras, à direita”, com um sotaque mal disfarçado a deixar a dúvida. Espero que o sinal de peões se ilumine no verde e sou, afinal, desmascarada. Os nativos precipitam-se para o meio da rua sem medo dos automóveis que também amolecem sob o calor e nem sequer protestam em buzinadelas desagradáveis(cariocas não gostam de sinal fechado).
Deixo-me suspender até ao Pão de Açúcar, abafada no meio de um típico grupo excitado e infantilizado de turistas, de lenço amarelo. Pensar que um louco sugeriu em tempos idos deitá-lo abaixo para melhor deixar respirar a cidade e só uma mudança de governo impediu que se fosse mais longe, concretizando a medida. Imagine-se a cidade sem o seu morro mais famoso! Sento-me num banco frente à praia vermelha a reflectir sobre um tal disparate e, certamente por sugestão do parque militar aí ao lado, a imaginar-me uma donzela tomada pela melancolia de uma espera infinda (que se basta a si própria sem nunca se esgotar), pelo meu marinheiro que não regressa. Um curto passeio distraído por entre a amistosa arquitectura da Urca e prossigo em direcção ao famoso Aterro, num ónibus solícito que me faz sair na paragem desejada.
Subo a Santa Teresa de “bondinho” entre os turistas bem-comportados que pagam bilhete e esperam obedientes na estação. Abuso da feijoada e da cachaça e desço de novo em direcção à Lapa, ainda mais feliz e menos temerosa. No caminho, encontro as memórias de uma casa em ruínas e uns degraus coloridos, cheios do carácter e da boa vontade de alguém de nome Selarón. Lancho na confeitaria Colombo (mais uma turista, porque não) e deixo-me, inapelavelmente, atrair por todas as livrarias que me encontram. Adentro-me nas ruas do centro, outra vez sem sentido ou direcção…
A cidade é desconcertante – aqui seduz-nos, ali causa-nos repulsa. Aqui sufoca-nos, ali enche-nos os pulmões de ar. Cativante e agreste. Bela e o seu monstro.
Quando dou por mim o caminho está feito. E a simpatia é já amor.


("simpatia é quase amor" é o nome de um bloco de Carnaval de Ipanema)
(há referências a "Cariocas" de Adriana Calcanhoto)





segunda-feira, 19 de abril de 2010

Barceló ou a arte a garantir a sanidade

("sem título", 2009, fotografia tirada à socapa)
Uma chuva fria e insistente, atípica numa Madrid conhecida pela secura, levou-me ao refúgio dos museus. Bendita chuva domingueira que, depois de me encharcar e arruinar o humor, proporcionou-me também o prazer de descobrir Miquel Barceló, do qual conhecia apenas o nome. A exposição, patente na Caixa Forum (de 10 de Fevereiro a 13 de Junho de 2010), designa-se "la solitude organisative" por motivo de um quadro recente do artista que apresenta um gorila sentado, com ar sério. O Autor mistura, de modo pouco convencional, cores e matéria orgânica (pó, areia,teias de aranha, etc). O resultado é extremamente apelativo e revelador de uma saborosa ironia (é, por exemplo, exibida uma escultura que consiste em uma caveira preta com um nariz comprido que o artista designa como "pinóquio morto"). Bendita chuva e benditos artistas, que fascinam e surpreendem, e me reconciliam com a vida...


Art is a guaranty of sanity, diz um íman metálico do meu frigorífico. Talvez não para quem a concretize, mas para quem, como eu, a recebe com genuíno prazer, definitivamente, sim, a arte é uma garantia de sanidade.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ilhas Ciès - o paraíso mora aqui ao lado





A maioria daqueles com quem falei antes de partir ignorava a existência das Ilhas Ciès. Eu própria não imaginava encontrar semelhante beleza selvagem aqui tão perto, na vizinha Galiza. Afinal, não é necessário atravessar metade do globo ou partir para outro planeta atrás dele: o paraíso está mesmo aqui ao lado, a uma curta distância de um porto da Galiza.
E haverá algo mais útil do que passear o ócio numa praia deserta...


domingo, 14 de março de 2010

o fascínio da sombra

(detalhe de obra que integra a exposição antológica de Lourdes de Castro e Manuel Zimbro: «à luz da sombra», Serralves 06Março-13 de Junho, 2010)

A obra de arte constrói sempre uma relação entre o seu espectador e aquele que a criou. De um modo mais ou menos consciente, o espectador vem a respeitar, admirar, desprezar, ou incompreender o autor do livro que lê, do filme a que assiste ou do quadro que admira. Menos frequentemente, experimenta também uma vontade irresistível de o convidar para um chá. Para mim, Lourdes de Castro cabe aqui, dentro do grupo de criadores com quem gostaria de sentar-me a uma mesma mesa e passar horas a ouvi-lo falar. Gostaria que a artista viesse revelar-me pessoalmente aquela mesma alegria das coisas simples que demonstra nos documentários que acompanham a exposição. Que exibisse o surpreendente brilho juvenil do seu rosto de octogenária, ao contar-me como sabe bem pentear o cabelo ao ar livre para que receba a energia do ar e do sol e ao falar-me da sua "família" de objectos e textos relacionados com o seu tema de eleição: a sombra. Que me explicasse, enquanto eu servisse o chá (naquelas chávenas mais bonitas que vieram do Oriente) a razão da escolha do elemento central do seu trabalho.

"O que me atrai: a sombra não ocupar espaço e guardar a sua presença mesmo desligada do corpo que a projectou". (Lourdes Castro)

Posted by Picasa

domingo, 17 de janeiro de 2010

complexo de culpa

"A Febre" sai do palco e vem cair-nos ao colo. Dá-nos, primeiro, uma cotovelada, para garantir que estamos despertos e atentos. Depois, fica ali, a mexer-se de um lado para o outro e a incomodar-nos. A arranhar-nos. A tirar-nos a paz de quem se julga do lado dos bons, ou do lado de fora, do lado de quem pensa que pode dormir de consciência sossegada porque não tem nada a ver com aquilo. Lamentamos o destino dos pobres, dos miseravelmente pobres, mas não há nada que possamos fazer, aquilo não tem nada a ver connosco. Engano nosso. O texto afaga-nos um pouco a cabeça apenas para nos apanhar com mais força com um murro fechado no meio do estomâgo. Aquilo tem a ver connosco, aquilo somos nós. Lamentar não muda nada, palavrear não muda nada,e sempre soubemos disso, mas, na verdade, não nos importamos muito, nunca nos importamos muito. Queremos é que aquilo fique longe de nós. Enquanto "sentimos muito", sossegados, do lado de cá.
"A Febre" incomoda porque nos faz sentir que os "maus" somos, afinal, todos nós.

"A Febre" é um texto do escritor e actor norte-americano, Wallace Shawn. Soberanamente interpretada por João Reis, esteve em cena, no teca, este fim-de-semana.




Esta fotografia foi tirada nas ruas de São Paulo. Eu estou sentada dentro de um jeep confortável, com ar condicionado e vidros semi-fumados. Ele está deitado na rua, exposto à indiscrição de todos os olhares. Lembro-me de ter hesitado em captar a imagem e de sentir pudor em invadir o repouso dele com a minha câmara. Acabo por escolher fotografá-lo: ele faz parte da cidade e eu quero uma reportagem completa. Ou ele garante à minha consciência que não me preocupo apenas em fotografar belezas e luxos, mas antes estou também atenta aos dramas e à miséria. Enquanto nós, dentro do carro, seguimos viagem e decidimos o restaurante onde vamos jantar nessa noite, ele fica guardado na memória digital...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

«Flâneurie»



Na verdade, Paris não existe; é apenas um sonho.


Há, no entanto, qualquer coisa de especial no cruzar das avenidas que parecem alargar-se à nossa passagem, nas árvores que se pintam de Outono, nas montras que se decoram com luxo e bom-gosto e na musicalidade (alegre, indolente ou pretensiosa) com que as empregadas de café nos atiram um "j'arrive", que faz desta a cidade perfeita para deambular sem destino, ao sabor dos pés e ao ritmo do desejo...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Islândia - a última estação


Desembarco com a certeza de ter atingido a última estação antes do fim do mundo: acima do paralelo 66.º só focas e esquimós, já nem as baleias se atrevem. A roçar o círculo polar árctico, situada no meio do Atlântico Norte, a Islândia prenuncia fazer-me passar um mau bocado. O vento agreste e as temperaturas desagradáveis, para quem ainda traz na pele o calor excessivo de um mês de Agosto num país em que o Verão não é só uma palavra, não tardam a fazer-se sentir. A primeira impressão é de desconforto (as mãos e os pés já gelados) e podia jurar que a ilha me observa com a frieza e a distância do jovem amante demasiado belo, demasiado caprichoso, demasiado esquivo... Confio, porém, na promessa de que os meus olhos irão deslumbrar-se com belezas novas: os guias elogiam “as mais impressionantes maravilhas naturais da Europa”.
A paisagem começa por transmitir a inquietude do “deserto”: os olhos perdem-se na distância (e o medo que temos de nos perder), faltam referências, não há construções, não há pessoas (com uma área de 103 000 Km2 e apenas 303 mil habitantes, cerca de 70% dos quais residem na capital, Reykyavik). É preciso olhar e sentir antes de começar a ver. Desisto pois das tentativas para decifrar a vastidão e descortinar um sentido e peço à paisagem que seja o narrador e venha contar-me histórias... As ovelhas atravessam a estrada numa arrogância inconsciente; os cavalos abeiram-se ternos ou nervosos. O céu aproxima-se a exibir um jogo trágico e intenso de nuvens. A luz é deslumbrante e, ao lado da estrada, o oceano acompanha a viagem de automóvel como um espelho reflector. Há poças de lama borbulhante e gases que sobem da terra sem descanso, há quedas de água indomáveis, há paisagens de lava que me fazem suspeitar de que uma força demoníaca se esconde abaixo do solo.


Preparam-se as câmaras fotográficas, ajustam-se as objectivas e ouve-se um clique repetido. Começo hesitante, apuro as técnicas insuficientes que aprendi, observo a partir de várias perspectivas, mas o resultado não satisfaz: a beleza não se deixa aprisionar pela minha lente. O que se contempla é maior do que cinco sentidos e sinto que o país me escapa, misterioso.
Regresso com o sentimento de ter cruzado uma fronteira nova. Os olhos voltam felizes, agradados com o que viram, mas a mente insatisfeita. Sabe que apenas riscou a superfície e que a ilha se despede com a altivez de quem seduz, mas não se deixa conquistar e não desvenda o seu segredo. Disseram-me que quem visita a ilha uma vez regressa repetidamente. Tenho a certeza de que o motivo é este: voltamos sempre aos lugares que não soubemos decifrar.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

uma cidade nova


Descobrir uma cidade nova é como conhecer um amante novo. No primeiro encontro, há um misto de atracção e desconfiança pelo território inexplorado. O sangue corre fervilhante a despertar uma energia e atenção renovada. Brevemente, os pés dão por si a definir satisfeitos caminhos novos, sem sentirem o cansaço. O mapa na mão é só um adereço porque não importa se nos perdermos - ao virar a esquina há sempre algo novo à espera de ser descoberto. Não importa se a chuva cai fria e húmida ou se o sol escalda e amolece. Não importa se é preciso esperar, voltar atrás porque o caminho está errado, demorar meia hora a encontrar o que estava mesmo ali ao lado. Os caminhos ínvios não aborrecem e nem deprimem - são um desafio a conquistar. O dia ou a semana de trabalho é só um intervalo incontornável até ao próximo encontro. Fazem-se planos, definem-se projectos e possibilidades. Os problemas não deixam a marca da aflição ou desconforto; tudo é ultrapassável porque a cidade está lá, à espera de ser desvendada.
Passado o tempo dos encontros felizes e entusiásticos, ela continua lá à espera... E, por isso, deixámo-la esperar, até ao dia ou à semana seguinte, e escolhemos trabalhar, porque o trabalho está atrasado, e escolhemos prolongar o encontro com os amigos, porque a conversa está boa e lá fora a temperatura não convida à aventura. Depois, começamos a ser mais exigentes (demasiado?), e a chuva basta para estragar o dia, e o metro que avaria tem a proporção do desastre, e a rua errada faz-nos barafustar dez minutos sem pausa para a respiração.
Chegado este momento, está preparado o quadro para que o tédio se aproxime, em passos vagarosos, mas determinados, a transportar o sonho para estações de comboios e a desenhar suspiros por uma cidade nova, mais calma ou mais turbulenta, mas nova. À espera de ser desvendada...

domingo, 29 de março de 2009

"Esta cidade não é uma cidade. Esta cidade é um vício."



"Para a minha alma eu queria uma torre como esta, assim alta, assim de névoa acompanhando o rio.[...] uma luz desce o rio gente passa e não sabe que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem as nuvens não passem tão alta tão alta que a solidão possa tornar-se humana.


(Jorge de Sena, Metamorfose)


Será que as "minhas coisas" desta cidade cabem em 20 kg de bagagem?


Se couberem, quero levar: as escadas traiçoeiras da casa da música (e aqueles bancos que teimam em fugir-nos do rabo); os Domingos de manhã em Serralves; os jornais nas esplanadas; a cortina vermelha do TNSJ; os rissóis do Capa Negra; as “lambretas” e as pataniscas do Godinho; a luz da minha casa; os jantares no Foz Velha com os amantes caros; a Rua das «Galdérias»; as tardes de inaugurações em Bombarda com lanches tardios no Pimenta Rosa; os jantares no Artemísia com os amantes novos; a névoa do rio (eu sei, esta é de todos); os fins de tarde de patins e as manhãs de Sábado de bicicleta; o sushi do Gosho; a boa frequência daquela esplanada no Edifício Transparente; os croissants da Doce Mar; o riso dos meus amigos; os ciclos de cinema do TCA; as conversas sem fim das minhas amigas…

Se ainda puder ser, a mim, deixo-me ficar para trás… Isto é, deixo os remendos que as más memórias me obrigaram a fazer, varro os ressentimentos e parto livre com uma alma novinha em folha …


segunda-feira, 23 de março de 2009

"Deus nos livre...


...dos desejos de uma mulher."


“Eu não dou sossego a quem me ouve, não deixo que parem no dia santo, porque ponho pedra firme até na água e projecto na criança de mama, e pingo azeite na porta perra e juízo no louco que se faz desentendido e diz: Isto não é comigo.”


(a propósito de "A Corte do Norte": um livro de Agustina Bessa-Luís, um filme de João Botelho)

terça-feira, 3 de março de 2009

uma partida de futebol



Desde o desaire de um Portugal – Grécia de má memória, em 2004, que eu não tinha voltado a pôr os pés no estádio do Dragão, mas no Sábado à noite não resisti ao convite paterno para assistir a um Porto – Sporting. Fui para o evento desportivo com a curiosidade do fotógrafo e a neutralidade da Suíça. Comecei por me deixar prender pela beleza de um estádio de futebol antes de se dar início a um jogo: o verde da relva brilha em contraste com o traço branco dos limites das áreas; os holofotes, já acesos, gritam contra o preto da noite e anunciam no campo um palco de estrelas; a publicidade alegre dá a nota de cor final. Depois, surpreendi-me com o escrupuloso respeito das horas, num país consabidamente pouco dado à pontualidade: uma hora antes do jogo começar e o estádio já está bastante povoado; dez minutos antes do início da partida, está repleto de braços que seguram ou fazem ondular plásticos e cartões brancos, azuis e também verdes, e de vozes que ensaiam hinos de incitamento. A surpresa seguinte foi a rapidez com que abandonei a prometida posição de observadora imparcial: tinham passado apenas alguns minutos do apito para o pontapé de saída e já eu dava por mim empolgada na torcida. Que me perdoem os adeptos do FCP, mas nessa noite o meu coração esteve ao lado dos leões. Porquê, sendo eu de origem nortenha? Porque estavam em posição de desfavor, a jogar fora de casa, contra o líder da tabela, depois de uma cansativa quarta-feira e o meu coração tende sempre a apoiar os mais fracos. Não tive a sorte da festa dos golos e a partida terminou sem euforia, mas a habilidade e a farsa dos jogadores em campo, o desespero dos treinadores no banco e os comentários apaixonados e comicamente tendenciosos dos outros treinadores, os da bancada, deixaram-me perceber, e até aderir, à surpreendente paixão que o espectáculo do futebol desencadeia. No Domingo à noite, e esta foi a última surpresa, dei por mim a contra-argumentar os comentários do Rui Santos. Dizia ele que o Sporting não deixou o Porto fazer a sua exibição, que apresentou uma estratégia fechada, cautelosa, de mau futebol. Ele é que é o especialista, mas, da minha sala, lembrei-lhe os gregos, esses sim cautelosos, todos colocados à defesa, já o Sporting, prossegui, exibiu força e habilidade no meio-campo e fez várias investidas, algumas perigosas, na baliza adversária. Na Segunda à noite, detive-me em “o dia seguinte”, na análise da queda do jogador do Porto na grande área do Sporting e de um eventual penalti não assinalado. Aí decidi que já estava a passar da conta: era só o que me faltava, além dos 1001 interesses e factores de distracção que já tenho, apaixonar-me também pelo futebol. Desliguei a televisão e voltei ao meu trabalho, à espera, na secretária.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

cartão postal


Há quem não goste muito. Há quem não goste mesmo nada e anseie apenas pelo momento em que a pausa de fim-de-semana permite fugir da cidade. Há quem se sinta prisioneiro entre os edifícios que tapam o céu e dentro do barulho, da poluição, do trânsito infernal que desespera o mais paciente, da tensão da violência que se adivinha por todo o lado.
Mas há também quem se deixe encantar pelas "flores de concreto" que crescem até ao branco acinzentado das nuvens a ameaçar uma chuva forte e se deixe seduzir pelo calor húmido que desperta os sentidos. Há quem não consiga viver longe dos estímulos culturais incontáveis, do luxo das lojas que exibem todas as marcas, nacionais e internacionais, do requinte presente na gastronomia diversificada, da arte de bem servir.
São Paulo tem a magia das grandes cidades. É uma espantosa criação do humano que o exibe em toda a sua mediocridade e em toda a sua riqueza. Tem a futilidade do luxo mais requintado, tem a criatividade (poética ou apenas excêntrica) das construções arquitectónicas e das personagens que povoam a cidade, tem o horror da miséria feita de pedaços de cartão a servir como tecto, tem a solidão no olhar dos que se distanciam em “paraísos artificiais” na tentativa de esquecer o lugar que o destino lhes reservou, tem a surpreendente distância daqueles que se acotovelam connosco no metro e nos passeios apinhados dos quais nada sabemos e nem ficamos a saber, tem a esperança da oportunidade. E tem ainda o mistério do que talvez se esconda na próxima esquina.
Parte-se com a certeza de que muito fica por descobrir. Por isso (ou melhor, também por isso), prometo voltar. Até à vista…