terça-feira, 9 de março de 2010

estado líquido


Um dia, aprendeu a lidar com elas. Sabia como atá-las, com firmeza e um laço bonito, e mantê-las presas, dentro da garganta. Podia deixar que se espalhassem por todo o corpo e até que lhe enchessem o peito de gotas pequenas, mas nunca, em caso algum, permitia que forçassem o dique e subissem até aos olhos. Um dia, aprendeu a desdobrar-se em dois: o que se sentava no canto, de joelhos apertados contra o peito, e o que se mantinha imperturbável, como se tudo lhe corresse de feição. À noite, quando já não sabia mais o que fazer com elas, guardava-as dentro da mesinha-de-cabeceira e fechava-as à chave, para que não viessem molhar-lhe o sono. A certa altura, sem que ninguém o tivesse percebido, à conta da imensidão de gotas pequenas que se encerravam dentro dele, tornara-se líquido. Por isso, ao passar junto de um rio, sentiu que era ali que pertencia. Uma tarde, mergulhou e deixou-se levar pela corrente.

2 comentários:

  1. Escreve um poema
    Mergulha no branco
    Entra no improvável
    Sê humilde
    Não penses no que sabes
    Esquece o que sentes
    Sente
    (...)
    Bebe água
    Pinta um quadro
    Esquece as cores que conheces
    Imagina cores
    Troca-lhes a lógica
    Segue
    Persegue
    (...)
    Inspira
    Expira
    Continua a pintar
    Pinta até que o dia nasça no quadro
    É difícil
    Então mergulha mais fundo
    Até veres os peixes
    Ouve os seus lamentos
    Eles também nadam neles
    Não há só água no seu oceano...
    No teu também não há só sorte ou amor ou lógica
    Há contradições
    Por isso não nades só...
    Também mergulha
    Mergulhar é fugir
    Sem que a fuga seja cobarde.


    (in Tiago Nené - Versos Nus, Magna Editora, 2007)

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  2. Que lindo, não conhecia! Bons conselhos para escrever um poema. Beijinhos e obrigada.

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