
Um dia, aprendeu a lidar com elas. Sabia como atá-las, com firmeza e um laço bonito, e mantê-las presas, dentro da garganta. Podia deixar que se espalhassem por todo o corpo e até que lhe enchessem o peito de gotas pequenas, mas nunca, em caso algum, permitia que forçassem o dique e subissem até aos olhos. Um dia, aprendeu a desdobrar-se em dois: o que se sentava no canto, de joelhos apertados contra o peito, e o que se mantinha imperturbável, como se tudo lhe corresse de feição. À noite, quando já não sabia mais o que fazer com elas, guardava-as dentro da mesinha-de-cabeceira e fechava-as à chave, para que não viessem molhar-lhe o sono. A certa altura, sem que ninguém o tivesse percebido, à conta da imensidão de gotas pequenas que se encerravam dentro dele, tornara-se líquido. Por isso, ao passar junto de um rio, sentiu que era ali que pertencia. Uma tarde, mergulhou e deixou-se levar pela corrente.
Escreve um poema
ResponderEliminarMergulha no branco
Entra no improvável
Sê humilde
Não penses no que sabes
Esquece o que sentes
Sente
(...)
Bebe água
Pinta um quadro
Esquece as cores que conheces
Imagina cores
Troca-lhes a lógica
Segue
Persegue
(...)
Inspira
Expira
Continua a pintar
Pinta até que o dia nasça no quadro
É difícil
Então mergulha mais fundo
Até veres os peixes
Ouve os seus lamentos
Eles também nadam neles
Não há só água no seu oceano...
No teu também não há só sorte ou amor ou lógica
Há contradições
Por isso não nades só...
Também mergulha
Mergulhar é fugir
Sem que a fuga seja cobarde.
(in Tiago Nené - Versos Nus, Magna Editora, 2007)
Que lindo, não conhecia! Bons conselhos para escrever um poema. Beijinhos e obrigada.
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