domingo, 14 de março de 2010

o fascínio da sombra

(detalhe de obra que integra a exposição antológica de Lourdes de Castro e Manuel Zimbro: «à luz da sombra», Serralves 06Março-13 de Junho, 2010)

A obra de arte constrói sempre uma relação entre o seu espectador e aquele que a criou. De um modo mais ou menos consciente, o espectador vem a respeitar, admirar, desprezar, ou incompreender o autor do livro que lê, do filme a que assiste ou do quadro que admira. Menos frequentemente, experimenta também uma vontade irresistível de o convidar para um chá. Para mim, Lourdes de Castro cabe aqui, dentro do grupo de criadores com quem gostaria de sentar-me a uma mesma mesa e passar horas a ouvi-lo falar. Gostaria que a artista viesse revelar-me pessoalmente aquela mesma alegria das coisas simples que demonstra nos documentários que acompanham a exposição. Que exibisse o surpreendente brilho juvenil do seu rosto de octogenária, ao contar-me como sabe bem pentear o cabelo ao ar livre para que receba a energia do ar e do sol e ao falar-me da sua "família" de objectos e textos relacionados com o seu tema de eleição: a sombra. Que me explicasse, enquanto eu servisse o chá (naquelas chávenas mais bonitas que vieram do Oriente) a razão da escolha do elemento central do seu trabalho.

"O que me atrai: a sombra não ocupar espaço e guardar a sua presença mesmo desligada do corpo que a projectou". (Lourdes Castro)

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4 comentários:

  1. Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra.
    As cigarras cantarão o silêncio de bronze.
    À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada.
    Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra.
    E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca.
    Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas...
    Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela.
    Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim.
    E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito.
    Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar...
    E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra.
    Á tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar...
    Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida.
    Caminha rente às casas.
    Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do sol.
    Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
    Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos.
    Aí escutarás o silêncio...

    Sophia de Mello Breyner Andersen - Caminho da Manhã

    PS - A propósito das «sombras» ...
    Para sonhar com os passeios ao sol dos dias de primavera que se aproximam ... :)

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  2. Lindo! Obrigada e não percas a exposição «à luz da sombra», vale a pena.
    Beijinhos:)

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  3. "Segue o teu destino...
    Rega as tuas plantas;
    Ama as tuas rosas.
    O resto é a sombra
    de árvores alheias"

    Fernando Pessoa

    Beijinhos

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  4. Adorei! Que sorte a minha, ficar com dois poemas tão bonitos como comentário.
    Beijinhos e obrigada :)

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