(detalhe de obra que integra a exposição antológica de Lourdes de Castro e Manuel Zimbro: «à luz da sombra», Serralves 06Março-13 de Junho, 2010)
A obra de arte constrói sempre uma relação entre o seu espectador e aquele que a criou. De um modo mais ou menos consciente, o espectador vem a respeitar, admirar, desprezar, ou incompreender o autor do livro que lê, do filme a que assiste ou do quadro que admira. Menos frequentemente, experimenta também uma vontade irresistível de o convidar para um chá. Para mim, Lourdes de Castro cabe aqui, dentro do grupo de criadores com quem gostaria de sentar-me a uma mesma mesa e passar horas a ouvi-lo falar. Gostaria que a artista viesse revelar-me pessoalmente aquela mesma alegria das coisas simples que demonstra nos documentários que acompanham a exposição. Que exibisse o surpreendente brilho juvenil do seu rosto de octogenária, ao contar-me como sabe bem pentear o cabelo ao ar livre para que receba a energia do ar e do sol e ao falar-me da sua "família" de objectos e textos relacionados com o seu tema de eleição: a sombra. Que me explicasse, enquanto eu servisse o chá (naquelas chávenas mais bonitas que vieram do Oriente) a razão da escolha do elemento central do seu trabalho.
"O que me atrai: a sombra não ocupar espaço e guardar a sua presença mesmo desligada do corpo que a projectou". (Lourdes Castro)


Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra.
ResponderEliminarAs cigarras cantarão o silêncio de bronze.
À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada.
Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra.
E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca.
Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas...
Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela.
Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim.
E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito.
Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar...
E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra.
Á tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar...
Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida.
Caminha rente às casas.
Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do sol.
Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos.
Aí escutarás o silêncio...
Sophia de Mello Breyner Andersen - Caminho da Manhã
PS - A propósito das «sombras» ...
Para sonhar com os passeios ao sol dos dias de primavera que se aproximam ... :)
Lindo! Obrigada e não percas a exposição «à luz da sombra», vale a pena.
ResponderEliminarBeijinhos:)
"Segue o teu destino...
ResponderEliminarRega as tuas plantas;
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias"
Fernando Pessoa
Beijinhos
Adorei! Que sorte a minha, ficar com dois poemas tão bonitos como comentário.
ResponderEliminarBeijinhos e obrigada :)