Havia uma cidade (não muito distante em tempo e espaço da nossa) cujos habitantes eram pontos de interrogação. Cada um oferecia-se ou confrontava, em desespero, aqueles com quem se ia cruzando atrás de uma resposta. Inexplicavelmente, nenhum daqueles habitantes parecia entender que os outros eram apenas e tão só, também eles, perguntas para as quais, na cidade, não se achavam respostas.
Se um dos habitantes interpelava outro - "o que torna o ar mais pesado: as palavras que se disseram ou aquelas que se calaram?" - este piscava os olhos de incompreensão e retorquia, por sua vez: "qual o lugar das coisas que imaginámos ou idealizámos, mas que nunca chegaram a realizar-se?". "Porque é que a vontade é tão débil e o desejo é tão forte?" perguntava ainda outro, a quem o quisesse escutar.
«Tu perguntas, e eu não sei,
ResponderEliminareu também não sei o que é o mar.(...)
Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.(...)
Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.(...)
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.
Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.»
Eugénio de Andrade - Mar, mar e mar
Ainda a propósito das perguntas... :)
ResponderEliminarO texto do Eugénio de Andrade é mais uma tentativa de resposta inspirada pelas fotografias das Ilhas Cies ...
Por isso, e porque só agora consegui encontrar esta citação que eu tinha lido e não me lembrava onde ... Aqui vai!
Bjns!
«Em toda a pergunta há uma ociosidade.
Quem pergunta, esconde alguma coisa;
quem muito fala, esconde o coração dos curiosos
e despede-os com entretenimentos de vozes.»
Agustina Bessa-Luis
Obrigada pelos comentários enriquecedores :)
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