domingo, 9 de maio de 2010

quarto de hotel


Num outro tempo, diferente do nosso, um homem e uma mulher encontraram-se num quarto de hotel e inventaram o amor com carácter de urgência.
Ontem, um homem e uma mulher encontraram-se num quarto de hotel e usaram o amor com displicência. Eles não são culpados, apenas têm pressa. Os corações ainda são ternos, o silêncio ainda une e os olhares ainda são aflitos, mas não resta o que inventar. O amor já foi inventado antes deles e eles já se inventaram em outros lugares. Ele é apenas um parêntesis na vida dela e ela é apenas uma coisa mais na vida dele. Ele chama-a e ela vai (abre-se o parêntesis). Ele afaga-lhe demoradamente o cabelo longo até sacudir todos os vestígios de monotonia. Ela oferece-se num sorriso calmo a fazê-lo sentir-se menino outra vez. Ele serve-se dela e ela serve-se de um amor transitório. Ele despede-a e ela volta para casa (fecha-se o parêntesis).
No quarto de hotel não há dia seguinte e não é preciso fazer a cama desfeita.

(Há uma alusão a "a invenção do amor" de Daniel Filipe)

2 comentários:

  1. Como tudo seria mais simples.... usar, abusar, amar e depois, fecha-se a porta, a cama fica desfeita e tudo volta como era antes de entrar...

    Esta seria a relação perfeita!!

    Lindo, bjs

    Ana

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  2. Se fôssemos capzes disso... Ainda bem ou ainda mal que não somos?

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