Quando sentires que a angústia se instala sob a tua pele e rói, teimosa, a tua carne, não faças nada. Fica apenas atento à côr do céu. Aguarda que chegue a hora do azul-escuro. Então, pega no teu casaco e sai para a rua. Não tenhas medo, a noite há-de proteger-te. Ela é a casa dos que, como tu, não pertencem a nada nem a ninguém. Ela deixa que te escondas atrás dos teus segredos. À noite, a solidão é um artifício, a decadência é apenas a ficção que escolheste e os estranhos companheiros do declive. Mas mantém-te atento à côr do céu. Quando voltar o azul-claro, a solidão será a tua, de sempre, e a decadência matinalmente real. O dia está aí à tua espera e não adianta implorar à noite que o ludibrie. Na verdade, foste tu quem o escolheu, por isso, agora não te lamentes se não lhe podes escapar.
Sabes o que o dia diz à noite mesmo antes de a matar? Obrigada por me devolveres, ainda vivas, as minhas presas...
«Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
ResponderEliminarem que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio).
Mas gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas - ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heteredoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras.
Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.»
Manuel de Freitas - Ode à noite (inteira)
;)
Tenho alguma coisa de Manuel de Freitas, mas não conhecia este. Muito bom, obrigada.
ResponderEliminarBeijinhos :)
É o azul que faz sobressair uma das minhas paixões... esse candeeiro, adoro!!! Escapar desse azul é sinal de uma nova luz... gosto da noite quando ela me traz descanso, animação, jantares de convívio. concertos e teatro... gosto também quando fujo dela e me refugio no silêncio da minha casa, quando sonho com pontes invisíveis pelo Atlântico até chegar à paixão... e acordo de manhã com outro azul, o claro e sem nuvens, ainda feliz, porque apesar das pontes não me deixarem tocar na outra mão que se estica, eu estou feliz pela vida que tenho e por todos os azuis na minha vida. Bjs
ResponderEliminar... Que bonito! Beijinhos
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