quinta-feira, 29 de abril de 2010

à hora do azul-escuro


Quando sentires que a angústia se instala sob a tua pele e rói, teimosa, a tua carne, não faças nada. Fica apenas atento à côr do céu. Aguarda que chegue a hora do azul-escuro. Então, pega no teu casaco e sai para a rua. Não tenhas medo, a noite há-de proteger-te. Ela é a casa dos que, como tu, não pertencem a nada nem a ninguém. Ela deixa que te escondas atrás dos teus segredos. À noite, a solidão é um artifício, a decadência é apenas a ficção que escolheste e os estranhos companheiros do declive. Mas mantém-te atento à côr do céu. Quando voltar o azul-claro, a solidão será a tua, de sempre, e a decadência matinalmente real. O dia está aí à tua espera e não adianta implorar à noite que o ludibrie. Na verdade, foste tu quem o escolheu, por isso, agora não te lamentes se não lhe podes escapar.


Sabes o que o dia diz à noite mesmo antes de a matar? Obrigada por me devolveres, ainda vivas, as minhas presas...

4 comentários:

  1. «Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
    em que se torna possível colar cartazes
    nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
    o autocarro, vejo devagar, sorrio).
    Mas gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
    que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas - ou das pessoas que desconheço
    e das bebidas todas que ignoro
    (porque me matam menos e se chamam
    - como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).

    Existem, claro, raparigas louras um tanto
    heteredoxas que não te apetece beijar
    (a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
    pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
    um dia procriar com zelo, evitando rugas,
    tumores e o mundo como representação misógina.
    Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
    com a cerveja a premiar a farda
    demasiado verde e os bigodes de serviço.

    Outros, alguns, tornam concreto o torpor
    de um charro e pedem-te em crioulo básico
    um cigarro português que tu vais dar,
    sem esforço nem palavras.
    Entre shots, piercings,
    t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
    por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
    Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
    qualquer, país de enganos e baratas. E
    quase gostas disso, quase: a música de punhais,
    servil, um certo e procurado desencontro.
    Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
    - ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
    e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.

    O resto, a vida, fica para outra vez.»

    Manuel de Freitas - Ode à noite (inteira)



    ;)

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  2. Tenho alguma coisa de Manuel de Freitas, mas não conhecia este. Muito bom, obrigada.

    Beijinhos :)

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  3. É o azul que faz sobressair uma das minhas paixões... esse candeeiro, adoro!!! Escapar desse azul é sinal de uma nova luz... gosto da noite quando ela me traz descanso, animação, jantares de convívio. concertos e teatro... gosto também quando fujo dela e me refugio no silêncio da minha casa, quando sonho com pontes invisíveis pelo Atlântico até chegar à paixão... e acordo de manhã com outro azul, o claro e sem nuvens, ainda feliz, porque apesar das pontes não me deixarem tocar na outra mão que se estica, eu estou feliz pela vida que tenho e por todos os azuis na minha vida. Bjs

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