segunda-feira, 23 de maio de 2011

Helena



Quando Helena nasceu, todos admiravam o espanto de dois enormes olhos azuis. E mais não havia então a dizer: um recém-nascido, igual a tantos outros na pele engelhada e nas goelas estridentes, que a insinceridade dos amigos da mãe assemelhava a ela e a cortesia da família do pai igualava a ele. Da infância pacífica de Helena também não se faz história. As habituais esmurradelas nos joelhos, festas de aniversário com velas coloridas, algumas vaidades e muitas chatices com os trabalhos para casa.
A história de Helena insinua-se apenas na adolescência quando uma interessante mistura do atrevimento polaco (herdado do pai) e do falso pudor e melancolia portuguesas (no sangue da mãe) despertaram a atenção do sexo oposto.
Helena era enigmática para muitos e quase louca para todos. Vivia obcecada com as ligações invisíveis entre as coisas, aquilo que estava lá mas não se percebia de imediato. Jogava com o mundo e com os outros aquela brincadeira de crianças de descortinar coisas e animais no formato das nuvens. Quando conhecia alguém novo, não descansava até descobrir que parte daquele ser não se integrava no mundo a que pertencia. Frequentemente acusada de excessivo narcisismo, retorquia com serena incompreensão: e o que mais podemos fazer se não olhar o mundo com os nossos próprios olhos e pensá-lo com as nossas próprias ideias...

Sem comentários:

Enviar um comentário