sexta-feira, 13 de maio de 2011

"simpatia é quase amor"



- Oi moça, hesita não, fica aqui, esse é o melhor ponto da praia! Porque é que acha que é aqui que eu estou? (cariocas são directos)
Eu caminhava sem sentido ou direcção, fascinada com a explosão de espuma que o mar («de ressaca», como se diz por estas bandas) deixava a estremecer no ar de cada vez que embatia com raiva na areia e com a beleza vibrante de uma inigualável mistura de verde azul e dourado. Caminhar sem destino não é andar à procura ou estar perdido, mas a diferença nem todos a entendem e estava demasiado calor para explicá-la a um desconhecido de pele morena e sorriso de Verão. Fiquei naquele mesmo sítio; estendi a toalha e instalei-me.
- Se precisar de alguma coisa – água de coco; suco; cadeira – é só pedir. Se for preciso eu vou mesmo lá em casa e trago o meu sofá da sala p’ra você… (cariocas são bacanas)
Respondi, divertida, com um sorriso aberto. Inspeccionei o mar e a força das vagas, medi a distância e decidi subir um pouco a toalha na extensão de areia.
- Não se preocupa não moça, o mar não vai chegar aqui; pode ler seu livro sossegada, eu estou de olho em você (cariocas são espertos).
- Agora eu vou jogar futevólei, estão me chamando, mas eu estou de olho em você, qualquer coisa é só chamar.
Foi-se e não voltou aquele exemplar de criatura rara que vive quase nua pela praia a beber água de coco e a exibir um corpo bem torneado em desportos aqui mesmo germinados e praticados desde o tempo de seus avós.
Impossível não simpatizar imediatamente com a cidade e os seus habitantes. Onde mais esta energia para festa, esta alegria de saber viver? Que ideia ou problema bafiento pode competir com um dia assim de sol omnisciente? Neste lugar, que a geografia fez maravilhoso, o Verão não marca apenas uma saison - dura o ano inteiro, sem princípio nem fim - é uma maneira de ser. Democraticamente ao alcance de todos os que cá vivem e de todos os que por cá passam.
Deambulo da calçada para o coração de Ipanema, empenhada em refazer os passos de poetas e de músicos destes e de outros tempos e esperançada em cruzar-me com a carne e os ossos de Chico ou Caetano ou com o espírito de Tom e de Vinícius. Lembro-me outra vez da canção, uma das mais famosas do mundo, e de como a beleza é, de facto, redentora.
Observar. Caminhar. Deixar que seja o acaso, e não o mapa, a levar-nos de encontro ao que procurávamos ou ao que já estava ali à nossa espera. Escondo-me entre os que passam e confundem-me com uma verdadeira carioca em perguntas que às vezes já sou capaz de responder: “é por ali, duas quadras, à direita”, com um sotaque mal disfarçado a deixar a dúvida. Espero que o sinal de peões se ilumine no verde e sou, afinal, desmascarada. Os nativos precipitam-se para o meio da rua sem medo dos automóveis que também amolecem sob o calor e nem sequer protestam em buzinadelas desagradáveis(cariocas não gostam de sinal fechado).
Deixo-me suspender até ao Pão de Açúcar, abafada no meio de um típico grupo excitado e infantilizado de turistas, de lenço amarelo. Pensar que um louco sugeriu em tempos idos deitá-lo abaixo para melhor deixar respirar a cidade e só uma mudança de governo impediu que se fosse mais longe, concretizando a medida. Imagine-se a cidade sem o seu morro mais famoso! Sento-me num banco frente à praia vermelha a reflectir sobre um tal disparate e, certamente por sugestão do parque militar aí ao lado, a imaginar-me uma donzela tomada pela melancolia de uma espera infinda (que se basta a si própria sem nunca se esgotar), pelo meu marinheiro que não regressa. Um curto passeio distraído por entre a amistosa arquitectura da Urca e prossigo em direcção ao famoso Aterro, num ónibus solícito que me faz sair na paragem desejada.
Subo a Santa Teresa de “bondinho” entre os turistas bem-comportados que pagam bilhete e esperam obedientes na estação. Abuso da feijoada e da cachaça e desço de novo em direcção à Lapa, ainda mais feliz e menos temerosa. No caminho, encontro as memórias de uma casa em ruínas e uns degraus coloridos, cheios do carácter e da boa vontade de alguém de nome Selarón. Lancho na confeitaria Colombo (mais uma turista, porque não) e deixo-me, inapelavelmente, atrair por todas as livrarias que me encontram. Adentro-me nas ruas do centro, outra vez sem sentido ou direcção…
A cidade é desconcertante – aqui seduz-nos, ali causa-nos repulsa. Aqui sufoca-nos, ali enche-nos os pulmões de ar. Cativante e agreste. Bela e o seu monstro.
Quando dou por mim o caminho está feito. E a simpatia é já amor.


("simpatia é quase amor" é o nome de um bloco de Carnaval de Ipanema)
(há referências a "Cariocas" de Adriana Calcanhoto)





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