terça-feira, 27 de agosto de 2013

Monocromático #2


 

Acordo recuperada e ansiosa por encher os olhos de coisas novas. Tomo o pequeno-almoço num café que ontem me pareceu bem, a oferecer-se todo branco e aberto para a rua, mas que hoje está sobrepovoado de turistas adolescentes que me fazem sentir deslocada, envelhecida. Já não me lembro de ter sido assim, o que significa que passou tempo demais desde então. Alguma vez terei sido assim?
O n.º 12 não se faz esperar e sigo com destino à capital: La Valletta. Deveria descer em Sliema e apanhar o ferry para ter a oportunidade de ver e fotografar a vista de cartão postal da cidade, mas só tarde demais haverei de aperceber-me desta possibilidade perdida. Saio na bonita estação de autocarros da cidade e quase não tenho tempo para hesitar sobre a direcção a seguir: o centro histórico está mesmo em frente. O calor começa a fazer sentir-se demasiado forte, mas nem faço ideia de que horas sejam. Sem relógio, sem telefone e sem mapa: uma excessiva confiança na sorte e no instinto. Mas sinto-me leve e sei bem o que quero visitar e em que rua fica. “Triq ir-Repubblika?” pergunto a dois homens sentados à sombra. Preocupam-se mais em corrigir-me a pronúncia – “Não é Triq é Driq” (triq significa rua em maltês) – do que em explicar-me devidamente que caminho tomar. Acabo por seguir enganada por indicações contraditórias até decidir entrar sem permissão num edifício oficial (que venho depois a aprender é o gabinete do presidente maltês) e exigir ao guarda de olhos espantosamente azuis: “estou farta de andar de um lado para o outro, quero saber, sem enganos, onde fica a catedral de S. João”. Sorri, simpático, e esclarece-me com determinação: muito fácil, mas nada a ver com a primeira indicação. Na catedral, o bilhete de entrada inclui um sistema de audioguide bastante razoável, mas sente-se um calor abafado que as várias ventoinhas espalhadas no recinto mal conseguem disfarçar e o lenço, que à entrada me obrigam a usar para tapar os ombros, só piora. O calor, a carteira, a máquina fotográfica, o lenço, o mapa da visita, o sistema áudio e o seu comando sobram para duas mãos e um pescoço: tudo dentro do saco e posso finalmente apreciar a catedral sem estorvos.
 












A co-catedral de S. João (e vim-me embora sem perceber a razão do prefixo) é exuberante: o chão está coberto de pedras tumulares (onde estão sepultados os grão-mestres, incluindo Jean de la Vallette, que deu o nome à cidade) em mármore colorido; as paredes esculpidas com flores e insígnias; o tecto, pintado com frescos de Mattia Preti, ilustra a vida de S. João. A cada passo, um bocado de história; a cada passo, a glória e a morte – os dois momentos cruciais do percurso de um herói. Numa parede, uma cruz pintada capta a minha atenção e sinto-me quase emocionada quando leio no cartaz adjacente o nome do seu autor. Logo a seguir, no espaço designado “Oratório”, mais dois Caravaggio enobrecem o local. Sento-me num banco, o mais próximo possível de uma ventoinha, a admirar as obras do mestre do chiaro-oscuro: “A decapitação de S. João Baptista” e “St. Jerome”. Apesar do seu modo de vida “arruaceiro” (chega a Malta fugido de um homicídio que provocara numa briga de rua), Caravaggio é feito cavaleiro da Ordem de S. João, mas, pouco tempo depois, é-lhe retirada a dignidade de cavaleiro por se ter envolvido de novo em sarilhos.
Logo de seguida, sem almoçar – os horários de visita são inexplicavelmente reduzidos em época de elevado turismo, tudo encerra pelas 16h30 – rumo ao palácio do grão-mestre. O palácio não tem o mesmo impacto da catedral, mas vale a pena uma visita atenta às várias salas luxuosas e ao arsenal; infelizmente o pátio de Neptuno é de acesso vedado ao público e limito-me a espreitá-lo pelas janelas.
É mais do que tempo de fazer uma paragem no “Caffé Cordina”, dito o mais antigo de Valletta, e confirmar que os pastizzi (folhados) malteses são, de facto, excepcionais.
Deambulo um pouco mais pela cidade, mas percebo que entrar em palácios, catedrais ou museus, já era: ou terminaram as horas de visita ou há sítios (como o Teatro Manoel) que nem sequer abrem. Dirijo-me, por isso, ao Barakka de Cima para terminar a minha visita pela cidade com o regalo da vista magnífica sobre o Grande Porto e as “Três cidades” e o consolo dos pés num banco de jardim. O calor começa a dar tréguas. Desço para apanhar o autocarro de regresso: o n.º 13, com destino a St. Julian´s. Outra vez Porto Maso para jantar: um copo de Chardonnay maltês e um peixe grelhado no “Zeri’s” e sinto que não me falta nada.          

  

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