Hoje
o destino é Malta central. Acordo cedo e saboreio com prazer a delícia fresca
do Mediterrâneo na minha pele. O sol é forte logo de manhã e mal consigo
terminar um cappuccino e croissant na
varanda larga do hotel. Estendo-me algum tempo a ler, alternando as carícias
quentes dos raios solares com o contacto fresco das ondas do mar. Sabia-me bem ceder
a esta preguiça suave o resto do dia, mas não quero perder a oportunidade de
explorar os vários recantos da ilha. À hora indicada no horário, dirijo-me à
paragem do 205, com destino a Naxxar. Espero, sob um sol escaldante, durante
cerca de 10 minutos, após o que procuro desesperadamente uma sombra. Mesmo à
sombra, o calor é um teste impiedoso à minha paciência, já de si reduzida: 15
minutos depois desisto, irritada, do autocarro e procuro um táxi que me deixa
mesmo em frente ao Palazzo Parisio.
O
palácio foi construído no século XVIII por um grão-mestre português – Manoel de
Vilhena – e depois comprado por um marquês italiano – Giuseppe Scicluna – que o
converteu numa das residências mais luxuosamente belas da ilha. São os
descendentes do marquês quem continua a ocupar e a gerir o palácio e os seus
jardins. Almoço no 1.º jardim um prato de sabores malteses: tomate semi-seco,
azeitonas recheadas, queijo de cabra mergulhado em azeite, salsicha maltesa e
pão maltês. Delicioso, mas o tempero demasiado intenso impede-me de o terminar;
um café, saboreado com calma, e estou pronta para conhecer a residência
palaciana. Sou a única visitante, o que me dá a oportunidade de observar com tempo
e cuidado os detalhes extravagantemente luxuosos e de sentir-me parte das
histórias que vou escutando sobre as várias salas sumptuosas: a de baile, a de
música, a de bilhar, a biblioteca…Depois de percorrer os jardins, despeço-me e,
mal tenho tempo para hesitar, salto para o autocarro com destino a Mosta.
A
igreja paroquial de Mosta tem uma cúpula gigante e a história de um milagre
para contar: durante a segunda guerra mundial, uma bomba trespassou a majestosa
cúpula, caiu no chão e deslizou pela igreja, sem explodir, e sem pôr fim à vida
das cercas de trezentas pessoas que aí assistiam ao serviço religioso. Além da
igreja, Mosta não parece ter muito mais para oferecer e dou por mim de novo,
sob um sol que me morde impiedosamente os ombros descobertos, à espera do 205,
agora com destino a Rabat/Mdina. Passado algum tempo outra vez amaldiçoo esta
linha de autocarros e chamo um táxi.
Quando
chego a Mdina, já todos os lugares que gostaria de visitar estão vedados: o
museu da catedral está irritantemente encerrado, pelo que digo adeus às
gravuras de Dürer, e a entrada na catedral de S. Paulo cerceada por um
segurança antipático que só franqueia o acesso a assistentes do serviço
religioso; a máquina fotográfica e os ombros desnudos traem-me e sou obrigada a
dar meia volta. Apesar de tudo, é uma boa hora para visitar aquela a que chamam
“cidade do silêncio”, antiga capital de Malta: há poucos turistas, o calor não
perturba e a luz do fim de dia cria sombras dramáticas nos edifícios protegidos
pelas muralhas. Sinto-me outra vez parte de uma história, mas agora ninguém ma
conta, invento-a eu… Antes do regresso, paro ainda na esplanada de Fontanella (dona
de uma história cujo enredo esqueci) para um chá e um bolo. As moscas
arreliam-me e atordoam-me, mudo de mesa, mas, apesar da paisagem, algo me
desagrada neste local. Sem terminar o bolo de cenoura, abandono a cidade e
regresso a St. Julian’s.
Janto
num restaurante simpático na baía de Spinola
e, durante o pequeno passeio, junto ao mar, fotografo, divertida, alguns pares
de namorados que mo pedem – talvez a aparência da D90 os faça crer que estão
nas mãos de alguém que sabe o que faz.



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