quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Monocromático # 3


Hoje o destino é Malta central. Acordo cedo e saboreio com prazer a delícia fresca do Mediterrâneo na minha pele. O sol é forte logo de manhã e mal consigo terminar um cappuccino e croissant na varanda larga do hotel. Estendo-me algum tempo a ler, alternando as carícias quentes dos raios solares com o contacto fresco das ondas do mar. Sabia-me bem ceder a esta preguiça suave o resto do dia, mas não quero perder a oportunidade de explorar os vários recantos da ilha. À hora indicada no horário, dirijo-me à paragem do 205, com destino a Naxxar. Espero, sob um sol escaldante, durante cerca de 10 minutos, após o que procuro desesperadamente uma sombra. Mesmo à sombra, o calor é um teste impiedoso à minha paciência, já de si reduzida: 15 minutos depois desisto, irritada, do autocarro e procuro um táxi que me deixa mesmo em frente ao Palazzo Parisio.

O palácio foi construído no século XVIII por um grão-mestre português – Manoel de Vilhena – e depois comprado por um marquês italiano – Giuseppe Scicluna – que o converteu numa das residências mais luxuosamente belas da ilha. São os descendentes do marquês quem continua a ocupar e a gerir o palácio e os seus jardins. Almoço no 1.º jardim um prato de sabores malteses: tomate semi-seco, azeitonas recheadas, queijo de cabra mergulhado em azeite, salsicha maltesa e pão maltês. Delicioso, mas o tempero demasiado intenso impede-me de o terminar; um café, saboreado com calma, e estou pronta para conhecer a residência palaciana. Sou a única visitante, o que me dá a oportunidade de observar com tempo e cuidado os detalhes extravagantemente luxuosos e de sentir-me parte das histórias que vou escutando sobre as várias salas sumptuosas: a de baile, a de música, a de bilhar, a biblioteca…Depois de percorrer os jardins, despeço-me e, mal tenho tempo para hesitar, salto para o autocarro com destino a Mosta.

A igreja paroquial de Mosta tem uma cúpula gigante e a história de um milagre para contar: durante a segunda guerra mundial, uma bomba trespassou a majestosa cúpula, caiu no chão e deslizou pela igreja, sem explodir, e sem pôr fim à vida das cercas de trezentas pessoas que aí assistiam ao serviço religioso. Além da igreja, Mosta não parece ter muito mais para oferecer e dou por mim de novo, sob um sol que me morde impiedosamente os ombros descobertos, à espera do 205, agora com destino a Rabat/Mdina. Passado algum tempo outra vez amaldiçoo esta linha de autocarros e chamo um táxi.

Quando chego a Mdina, já todos os lugares que gostaria de visitar estão vedados: o museu da catedral está irritantemente encerrado, pelo que digo adeus às gravuras de Dürer, e a entrada na catedral de S. Paulo cerceada por um segurança antipático que só franqueia o acesso a assistentes do serviço religioso; a máquina fotográfica e os ombros desnudos traem-me e sou obrigada a dar meia volta. Apesar de tudo, é uma boa hora para visitar aquela a que chamam “cidade do silêncio”, antiga capital de Malta: há poucos turistas, o calor não perturba e a luz do fim de dia cria sombras dramáticas nos edifícios protegidos pelas muralhas. Sinto-me outra vez parte de uma história, mas agora ninguém ma conta, invento-a eu… Antes do regresso, paro ainda na esplanada de Fontanella (dona de uma história cujo enredo esqueci) para um chá e um bolo. As moscas arreliam-me e atordoam-me, mudo de mesa, mas, apesar da paisagem, algo me desagrada neste local. Sem terminar o bolo de cenoura, abandono a cidade e regresso a St. Julian’s.

Janto num restaurante simpático na baía de Spinola e, durante o pequeno passeio, junto ao mar, fotografo, divertida, alguns pares de namorados que mo pedem – talvez a aparência da D90 os faça crer que estão nas mãos de alguém que sabe o que faz.         

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