Novo
começo de dia feliz com sol e banhos de mar. Sinto-me bem aqui e vou adiando a
saída. Maldita ansiedade (“sempre esta sensação que estou a perder”, vá-se lá
saber o quê) que me move para um banho de água doce e me impele a rumar com destino
a Malta Sul. Escolho um vestido vermelho e sinto-me atraente enquanto subo a rua até
à praça de táxis. Percebo que talvez tenha exagerado no tamanho do decote –
está tanto calor que acabo sempre por esquecer-me quão conservador e religioso
é este povo – ao sentir os sorrisos e malícias trocadas em maltês (há sorrisos
e malícias perceptíveis em qualquer língua) entre o motorista do meu táxi e
aquele que se mantém à espera na praça.
Marsaxlokk
é um dos cartões postais da ilha: uma pequena povoação piscatória espalhada à
volta de uma baía azul onde flutuam luzzus
de cores garridas. Os luzzus são barcos
de pesca de construção tradicional, em que, por crença antiga, se pinta um olho
de Osíris – símbolo de protecção do mal. Logo à chegada quase esbarro com um
cortejo dividido entre uma animada devoção à religião e ao álcool. São quase
três da tarde e começo a preocupar-me com a possibilidade de já não me deixarem
almoçar num dos característicos restaurantes de peixe. Mesmo assim não me precipito
na escolha e acabo por sentar-me, depois de alguma hesitação, na esplanada do “Pisces”
que, segundo o guia, seria um dos melhores da terra. Ao contrário das esperadas
famílias locais, o sítio está repleto de turistas e, admito que a minha escolha
não tenha sido a mais feliz, o peixe grelhado que pedi vem afogado num molho de
tomate de lata misturado com azeitonas. No sítio de onde venho, também plantado
junto ao mar, o peixe grelhado traz apenas limão, para ser espremido a gosto,
ou, quando muito, um molho com maionese sempre on the side. Sinto os olhos de duas raparigas francesas sentadas ao
lado sobre mim e, por alguma razão – será o calor opressivo que me deixa
susceptível –, isso desagrada-me muito. Olho em redor e dou-me conta que ainda
não encontrei neste país ninguém que almoce, jante ou passeie sozinho, tudo
circula em grupo ou acasalado. Seria certamente o calor sufocante misturado com
o molho de tomate a estragar-me o peixe, mas dei por mim a sentir-me a mulata
baixinha no grupo de arianas altas ou o tímido rapazinho gay por engano inserido no grupo de marialvas. Porque razão serei a
única pessoa a almoçar sozinha? Alguns terminam a refeição e partem, outros
chegam para petiscar, entre os quais uma rapariga que traz escrita na t-shirt
uma ideia divertida: “stressed, depressed, but well-dressed”. Teria sorrido,
não fosse estar demasiado concentrada numa dança de mãos bélica com as moscas
que pousam, massacrantes, em todo o lado.
“Como
posso chegar a ponta Delimara?”, pergunto à empregada de mesa. Pode ir a pé,
demora cerca de 30 minutos, é para a esquerda. Parece-me simples e realizável.
Deambulo pela aldeia, entre o porto de pesca e a igreja (na qual não consigo
discernir o prometido relógio pintado de modo a registar sempre alguns minutos
antes da meia-noite para afastar os maus espíritos), mas o calor é sufocante e
sou forçada a parar sob qualquer nesga de sombra a cada 10 minutos. Mesmo
assim, inicio, determinada, o caminho com destino a ponta Delimara. O sol é
demasiado forte para poder dar-me ao luxo de errar e pergunto logo a duas
velhinhas se a direcção certa é aquela – “no speaking english”. Sem esmorecer,
viro ligeiramente à direita no mesmo sentido onde do lado de lá espreitei uma
praia, na esperança ingénua de que o caminho possa fazer-se junto à água. A
praia é pateticamente hilariante: uma estreita língua de areia, saturada de
famílias com cães e crianças e cadeirinhas e barracas e colchões; o mar uma
banheira comunitária. Escolho cautelosamente um sítio para pousar a mochila e
penso numa maneira de trocar a roupa interior pelo bikini, mas não encontro
nenhuma (sabe-se lá se não teria ido presa); limito-me a molhar os pés. Saio da
praia desanimada, mas mantenho a firme decisão de alcançar Delimara. Pergunto a
três turistas alemãs (cujo ar me faz crer que têm uma vida sexual
insatisfatória ou atravessam uma menopausa difícil) onde fica o anunciado
paraíso “sossegado e rural, com baías pequenas”, mas não fazem a mínima ideia.
Que raio de turistas estas que nem querem saber onde ficam os must see dos guias turísticos. Mais 10
minutos sob um sol que me morde, inclemente, o corpo todo e sou eu quem desiste
das indicações para turistas crédulas. Sinto o rosto vermelho a latejar, o suor
escorre-me dentro do vestido vermelho, o céu cinzento incendiado agride-me, a
tonalidade ocre misturada com o pó da estrada oprime-me insuportavelmente…
Estou prestes a desfalecer, por favor, tirem-me daqui. Paro num café cujo nome
infelizmente esqueci (qualquer coisa com pretensão de modernidade virtual), as
listas são screen touch, mas o
serviço da Idade da Pedra. Se eu desmaiar, aqui, agora, servem-me, por favor,
uma coca-cola com muito gelo e limão? No fim do copo de coca-cola, vejo uma
rapariga de bikini, esticada à sombra, a terminar a leitura do seu romance de
férias e digo-lhe: “bem-feita, é para aprenderes a ser tranquila”. Quero ir-me
embora daqui, depressa, já, táxi, autocarro. Praça de táxis aqui não existe,
explicam-me as meninas do bar recheado de tecnologia; autocarros hoje também
não passam na rua principal – é por causa da festa. Malditas festividades
religiosas; vou ficar presa neste sítio? Avanço rapidamente para o centro e
encontro satisfeita um polícia, pois e tal, trânsito aqui, hoje, não pode
circular. Se eu puser na boca as frases que tenho na cabeça não deve haver
problema, pois não, aqui ninguém percebe português. Finalmente, uma senhora que
se move a um ritmo surpreendente, a destoar deste sítio e deste calor,
explica-me: pode apanhar o autocarro ali atrás, é só subir a rua e virar à
esquerda. Nem acredito quando me sento satisfeita no autocarro com destino a
Valletta; a ponta Delimara que fique para quem lá tiver chegado.
Bendito
hotel de cinco estrelas e reconfortante jacuzzi sobre o mar…
Saio
para jantar e decido logo que é noite de escolher o “Chapter One”. Apregoa
qualquer coisa sobre o guia Michelin, mas dá logo para perceber que não tem
nenhuma estrela, só uma desculpa para cobrar mais caro. Peço uma sopa e não
consigo disfarçar o meu ar desconsolado quando me apresentam uma sopa fria. O empregado,
atencioso, oferece-se logo para trocar este prato por outro que o chef se propôs imediatamente preparar
para mim. A sopa vai custar-me 10 €, mas para já, ainda não sei, e como-a
consolada. Há um bar de jazz com música ao vivo, mesmo aqui ao lado, e decido
que hoje é um bom dia para ouvir um pouco de música e ceder, ligeiramente, à
embriaguez. Seria um bom dia se o bar estivesse aberto, mas, ou é dia de fecho
ou, entretanto, encerraram de vez.
Mesmo
em férias, longe de tudo, nunca deixa de ser assim: há dias que correm bem e
outros que emperram, mal oleados.
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