Chego
triste (por motivos que mais vale não deixar escritos) e cansada, pela directa
que decidira fazer com medo de perder o voo excessivamente matutino. A viagem
de autocarro até ao hotel desilude: não fosse a harmonia assegurada pela
uniformidade de ocre e azul e tudo seria ainda mais feio. Porquê este destino
entre tantos outros possíveis?
Depois
de arrastar, durante algum tempo, desorientada, a mala por St. Julians, encontro
finalmente a entrada para o hotel. Grande demais, caro demais, famílias a mais
e cortesia a menos. O quarto dava bem para três, cama king size, sea view
cortada pelo campo de ténis, mas sem faltar à verdade. Vamos lá sacudir as
amarguras e matar as saudades: sentir e cheirar o Mediterrâneo. Passo pela
piscina – quantas criancinhas barulhentas – a caminho da private beach, feita de cimento ocre. A água do mar é uma delícia e
o entardecer aniquila todo o mau humor. Descanso na chaise-longue confortável de hotel de cinco estrelas e perscruto o
horizonte à espera de ver despontar um Corto Maltese redentor. Como o Corto se
demora, decido ir jantar, há demasiadas horas que não como nada (claro que as
sandes-pizza da Lufthansa não contam). Inquiro na conciergerie do
hotel por um sítio simpático para petiscar alguma coisa, ainda que talvez não
sejam bem horas de jantar – é imperioso fazer a escolha certa e terminar este
dia, demasiado longo, num sítio simpático, a beber um belo copo de vinho – “Sale
e Pepe”, em Porto Maso, um mapa, dois rabiscos. Será de mim, que estou carente,
ou por aqui é tudo um bocado antipático e a despachar. Desço uma rua sem
qualquer atractivo e começo logo a hesitar no caminho do mapa. Afinal, um casal
simpático: “não é por aqui”, “é para cima, não tem nada que enganar”. “Porto
Maso” é um lugar agradável: espanta-me ouvir distintamente a água do mar a
bater nos barcos ancorados, apesar de todos os que por aqui se espalham a comer
ou tomar um aperitivo. Mas, antes disso, uma experiência já familiar: apesar de
haver pelo menos três mesas vagas, não me deixam sentar ao ar livre; sem
reserva, só ali dentro. Para ter de levar com esse medonho ar condicionado, nem
pensar. Desço mais alguns degraus e no “Hush” deixam-me escolher a mesa que
quero. Um copo de vinho branco e uma empregada afável que me esclarece sobre o
que, segundo ela vale a pena ver aqui em Malta: Valletta, Mdina, e Blue Lagoon,
embora esta vá estar pejada de turistas; seis dias, chegam perfeitamente. O
calor (tal como o álcool e a insónia) amansa qualquer mágoa – os sentimentos
tornam-se menos vívidos, as memórias indefinidas, a dor bate mais devagar,
compassadamente… Começo a pensar sobre o que poderei fazer amanhã e sinto-me
afinal, bem, aqui. Passeio na marina silenciosa, desfaço o caminho de volta e
posso agora prestar atenção às casas que despontam encantadoras entre os mostruários
feiíssimos de comércio próprio do Verão em zonas costeiras. Quase me atrevo a
perguntar aos idosos moradores – que mantêm a tradição de aproveitar a brisa do
fim de dia sentados no pátio, a ler o jornal e a tertuliar com os vizinhos; os
adolescentes estão demasiado ocupados a preparem-se para a embriaguez diária –
se o nome que está escrito nas casas lhes pertence a eles mesmos ou a algum
antepassado, mas afinal sou tímida e limito-me a aceitar com simpatia um
sorriso de velhinha desdentada.
Mesmo
antes de adormecer sinto-me, finalmente, no lugar onde mais gosto de estar –
cheia de horas livres para explorar um território desconhecido...

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