É banal, e além disso desinteressante, começar um texto com uma descrição
da luz da lua, da suavidade do mar e do calor inebriante, mas, se quiser escrever
sobre aquela noite, terei de começar exactamente aqui – no momento em que ele
lhe diz que erga os olhos para o céu.
Se pudesse dispor de uma imagem em
movimento tudo isto ficaria em cenário e já não teria de me expor à
vulgaridade das palavras. A câmara começaria por filmar um primeiro plano de uma habitação de pedra branca com pinturas pop art, fendida por uma porta azul, e
desenharia um travelling para a
direita, primeiro, em direção a um mar prateado e, depois, para o verde-escuro
luxuriante da vegetação, à esquerda, aproximando-se finalmente em close-up de um par que franqueia a
porta da casa e se detém nos degraus de pedra a fotografar. A roupa leve e
colorida, os gestos lentos, e aí estariam - sem o caminho penoso da ocupação
de palavras gastas - o brilho da lua, o mistério do mar e o calor da noite.
Mas, num texto, as imagens desenham-se necessariamente com
palavras e, por isso, é indispensável começar por este esforço vão de procurar
descrever um céu carregado de nuvens que se desatam lentamente, etéreas meadas
de lã, para desvendar aos poucos um céu azul-escuro e uma luz nocturna
extravagante.
Esta é a primeira imagem de beleza prima que a memória dela
reteve em arquivo fotográfico daquele encontro. Depois de várias noites a
esconder-se sob um céu nublado, a lua desvendava-se finalmente com uma rara
auréola de luz alaranjada. Ele deu-se conta disso primeiro (afinal ele é que
era o artista), alçou rapidamente a câmara fotográfica e chamou-a para fora. As
palavras fugiram-lhe, os gestos suspenderam-se e o corpo elevou-se um pouco
acima do chão: sob um céu tão perfeito quem se sentiria apenas mortal?
Na segunda imagem, os dois corpos, despidos, estão deitados
num colchão estendido sobre o chão de cimento. Há os lençóis azuis em desalinho,
duas almofadas brancas, a luz incómoda da manhã filtrada pelas frestas
do quadrado azul da janela e uma ventoinha de pé alto que emite um ruído aborrecido.
As pernas dele soerguem-se num ângulo que emoldura com perfeição o quadrado da
janela; a luz percorre com lassidão um caminho que se interrompe no sexo negro,
agora mole, em repouso sobre o lado direito.
No terceiro quadro, ela está de pé, vestida de branco, ele
atravessa-se ainda em diagonal preguiçosa sobre a cama, a experimentar,
relutante, uma chamada telefónica. Talvez por sentir que a vontade de comunicar
é curta, ninguém atende do lado de lá. O braço estica-se indolente a pousar o
telefone e serve depois de apoio à cabeça que se volta num sorriso largo de
dentes brancos e generosa malícia. Ela, sempre de pé, não devolve o sorriso,
ocupada que está em mais um disparo fotográfico da memória: o jovem corpo negro,
que se espraia ocioso sobre a cama, é, sem dúvida, primorosamente belo.
Apesar de o calor se ter tornado quase insuportável dentro
da casa, ainda fechada, sentam-se em dois bancos altos a folhear um livro de
arte. É ele quem lhe pergunta primeiro sobre a sua família, ela responde com a
concisão que a temperatura pesada dita, e ainda lhe devolve a pergunta. Ele
explica-lhe, sem pausas dramáticas, que a mãe acabou por falecer por doença há
pouco tempo, cerca de seis meses. A frase chega-lhe de um modo tão natural que
ela tarda em perceber a gravidade do que foi dito e atrasa ainda o tempo
longo da hesitação o gesto de cobrir a mão dele com as suas. Também antecipa
que ele desdenharia qualquer gesto ou palavra de compaixão. Os olhos escuros,
brilhantes, são comoventes a esconder as lágrimas: este é o quarto e último
momento de beleza irrepreensível.
Sempre soube que a beleza se desvenda nestes lugares
insólitos, no ponto de intersecção que o acaso cria, inesperadamente, entre
duas vidas que seguem rotas estrangeiras, totalmente alheias à sorte uma da
outra… E seria assim tão estranho ou anómalo ludibriar a realidade (ou entreter
a vida) em busca de momentos de beleza prima como estes?

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