
Detenho-me a olhar para ti, enquanto despes apressada as várias peças de roupa cara, que agora te habituaste a usar. Dizes-me que não reparo em ti, mas não é verdade. Observo-te muitas vezes. Não desejo é tocar-te. Olho-te e olho-te, mil vezes, insistentemente, a tentar descortinar o que em tempos me deixava tão exaltado, tão perto da plenitude, do centro da vida. Claro que me apercebo de que outros homens te olham e possivelmente te desejam: és ainda uma mulher bonita. Não precisas de me fazer relatos pormenorizados sobre como te tentaram assediar entre o trabalho, o supermercado e o parque infantil, numa tentativa impossível de despertar em mim o que morreu há muito. Tentativa nada subtil, diga-se, (tu que te julgas tão senhora da subtileza feminina): falha tão completamente o alvo que consegue apenas comover-me. Isto é, conseguiria, se eu não fosse este poço de insensibilidade egoísta que tanto gostas de referir. Tento olhar-te através dos olhos desses homens, mas não sou capaz. Estou demasiado habituado a ti, à tua cara zangada, aos teus discursos versão “metralhadora” sobre como isto e aquilo te deixam tão irritada e tão frustrada. Carregas sempre no «tão» com uma força que me assusta. É verdade que sempre me assustaste um pouco: eras mais bonita, mais inteligente, tudo mais do que eu, uma corrente admirável de força e de ideias. A intensidade com que exprimias as tuas opiniões atemorizava-me, mas fascinava-me. Eu sempre fui mais fraco, mais preguiçoso, nisso dou-te razão. Encostei-me à tua força, mas agora falta-me o ar para respirar. Por isso, demoro-me na rua, com mil desculpas inventadas sobre coisas inadiáveis; demoro-me na esplanada ao fim-de-semana a ler o jornal; demoro-me em discussões de bancada depois do jogo de futebol. Inconscientemente, adio sempre o momento de voltar para casa, para a tua fúria… Que diabo! Não se pode viver deste modo, sempre tão zangada com o mundo… Mesmo assim, volto sempre, todas as noites, para ti. Não desejo beijar a tua boca, morder os teus seios ou rejubilar de prazer dentro de ti. Mas preciso do conforto do teu corpo quente deitado ao lado do meu, no desconforto de uma cama demasiado estreita para tamanho rancor.
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